| No início de abril, a revelação
de um detalhe sobre o contrato do atacante Ricardo Oliveira
com o Santos Futebol Clube causou polêmica. O boato
era que havia uma cláusula garantindo um bônus
no salário do jogador para cada gol marcado. A maior
gritaria foi entre os próprios colegas de time. Não
é de se admirar. Imagine que Ricardo carrega a bola
dentro da área e enxerga um companheiro completamente
livre. Ele vai chutar a gol ou entregar a redonda para o jogador
que está mais perto da goleira – e perder a chance
de engrossar o ordenado?
O jogador tratou logo de desmentir a notícia, para
não ficar com o nome manchado no meio futebolístico,
onde o espírito de equipe está totalmente enraizado.
Porém, transportado para o departamento de vendas de
uma empresa, o caso do artilheiro santista seria a coisa mais
normal do mundo. É tradição no mundo
corporativo recompensar um vendedor com base no número
de negócios que ele fecha. Vale frisar: que ele fecha,
pouco importando o desempenho dos colegas. Mas a visão
individualista não impera só no departamento
de vendas. Bem ou mal, a imensa maioria dos gestores enxerga
cada funcionário como um ente separado do outro, com
atribuições, metas e reconhecimento individuais.
Algumas vezes, acha-se por bem até incentivar a competição
interna, na tentativa de “tirar” o máximo
das pessoas. E mais: as palavras de ordem das gerências
usam e abusam da segunda pessoa do singular: “Você
precisa melhorar o desempenho”, “você tem
de se capacitar, fazer um MBA”, “parabéns,
você conseguiu”.
A novidade é que essa abordagem egocêntrica está
com os dias contados. Aos poucos, as empresas estão
adotando um novo paradigma: sai o Você S.A., entra o
Nós S.A. Trata-se de uma transição lenta,
que envolve uma profunda mudança cultural das companhias
e de seus dirigentes. No discurso, a substituição
até que está adiantada. Há centenas de
organizações alardeando que, a partir de agora,
o que vale é o trabalho em equipe e a formação
de times. Só que, na prática, não basta
o chefe assinar uma circular interna para entrar na era do
Nós S.A. É um processo que leva tempo, talvez
anos.
Um bom exemplo é o que houve na Marcopolo, uma das
maiores fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo.
Sediada em Caxias do Sul (RS), a indústria implantou
em 1986 seus primeiros grupos Sumam, baseados na filosofia
japonesa de melhoria contínua Kaizen. Acredite: 17
anos depois, a companhia avalia que os grupos ainda estão
em evolução (veja mais detalhes no texto “Modelo
oriental de sucesso”).
É compreensível que a transição
de paradigmas ocorra gradualmente e enfrente inúmeros
obstáculos. A auto-suficiência é uma das
características mais marcantes da cultura ocidental,
alimentada desde que as crianças são matriculadas
no maternal. A lição de casa é feita
solitariamente. Na hora da prova, o infante que ajudar um
colega em apuros corre o risco de ser duramente punido. A
competição também é incentivada
na sala de aula, com a definição do primeiro
da turma. Mais adiante, o estímulo à concorrência
e ao foco no “eu” continua: escolha de carreira,
vestibular, especialização, seleção
de emprego. Quando chega na empresa, o sujeito está
impregnado de individualismo – e o que ele mais ouve
dos chefes é “você”. Não é
de se admirar que leve algum tempo para a cultura de equipe
sobressair. “O trabalhador não está preparado
para a atividade cooperativa. A maior parte das empresas acostumou
todos a obedecer ao chefe. A subordinação criou
a conformidade”, explica Idalberto Chiavenato, um dos
mais respeitados especialistas em recursos humanos no país.
Em 1997, a revista americana de negócios Fast Company
publicou um texto do guru Tom Peters que ilustrava o espírito
que ainda reinava. Intitulado “A marca chamada você”,
o artigo exortava os profissionais a transformarem a si próprios
em uma grife. O sucesso dos livros de auto-ajuda é
outro fenômeno que evidencia o caráter egocêntrico
dos nossos tempos. Esse tipo de literatura traz a mensagem
de que, uma vez bem consigo mesma, a pessoa conseguirá
atingir os seus objetivos – como se ela não precisasse
de ninguém para tanto.
Com reportagem de Letícia Pires
|