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      Edição 188 - Maio de 2003
 

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O que leva cada vez mais empresas a estabelecerem políticas de incentivo e premiação para equipes
mais do que para indivíduos

No início de abril, a revelação de um detalhe sobre o contrato do atacante Ricardo Oliveira com o Santos Futebol Clube causou polêmica. O boato era que havia uma cláusula garantindo um bônus no salário do jogador para cada gol marcado. A maior gritaria foi entre os próprios colegas de time. Não é de se admirar. Imagine que Ricardo carrega a bola dentro da área e enxerga um companheiro completamente livre. Ele vai chutar a gol ou entregar a redonda para o jogador que está mais perto da goleira – e perder a chance de engrossar o ordenado?

O jogador tratou logo de desmentir a notícia, para não ficar com o nome manchado no meio futebolístico, onde o espírito de equipe está totalmente enraizado. Porém, transportado para o departamento de vendas de uma empresa, o caso do artilheiro santista seria a coisa mais normal do mundo. É tradição no mundo corporativo recompensar um vendedor com base no número de negócios que ele fecha. Vale frisar: que ele fecha, pouco importando o desempenho dos colegas. Mas a visão individualista não impera só no departamento de vendas. Bem ou mal, a imensa maioria dos gestores enxerga cada funcionário como um ente separado do outro, com atribuições, metas e reconhecimento individuais. Algumas vezes, acha-se por bem até incentivar a competição interna, na tentativa de “tirar” o máximo das pessoas. E mais: as palavras de ordem das gerências usam e abusam da segunda pessoa do singular: “Você precisa melhorar o desempenho”, “você tem de se capacitar, fazer um MBA”, “parabéns, você conseguiu”.

A novidade é que essa abordagem egocêntrica está com os dias contados. Aos poucos, as empresas estão adotando um novo paradigma: sai o Você S.A., entra o Nós S.A. Trata-se de uma transição lenta, que envolve uma profunda mudança cultural das companhias e de seus dirigentes. No discurso, a substituição até que está adiantada. Há centenas de organizações alardeando que, a partir de agora, o que vale é o trabalho em equipe e a formação de times. Só que, na prática, não basta o chefe assinar uma circular interna para entrar na era do Nós S.A. É um processo que leva tempo, talvez anos.

Um bom exemplo é o que houve na Marcopolo, uma das maiores fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo. Sediada em Caxias do Sul (RS), a indústria implantou em 1986 seus primeiros grupos Sumam, baseados na filosofia japonesa de melhoria contínua Kaizen. Acredite: 17 anos depois, a companhia avalia que os grupos ainda estão em evolução (veja mais detalhes no texto “Modelo oriental de sucesso”).

É compreensível que a transição de paradigmas ocorra gradualmente e enfrente inúmeros obstáculos. A auto-suficiência é uma das características mais marcantes da cultura ocidental, alimentada desde que as crianças são matriculadas no maternal. A lição de casa é feita solitariamente. Na hora da prova, o infante que ajudar um colega em apuros corre o risco de ser duramente punido. A competição também é incentivada na sala de aula, com a definição do primeiro da turma. Mais adiante, o estímulo à concorrência e ao foco no “eu” continua: escolha de carreira, vestibular, especialização, seleção de emprego. Quando chega na empresa, o sujeito está impregnado de individualismo – e o que ele mais ouve dos chefes é “você”. Não é de se admirar que leve algum tempo para a cultura de equipe sobressair. “O trabalhador não está preparado para a atividade cooperativa. A maior parte das empresas acostumou todos a obedecer ao chefe. A subordinação criou a conformidade”, explica Idalberto Chiavenato, um dos mais respeitados especialistas em recursos humanos no país. Em 1997, a revista americana de negócios Fast Company publicou um texto do guru Tom Peters que ilustrava o espírito que ainda reinava. Intitulado “A marca chamada você”, o artigo exortava os profissionais a transformarem a si próprios em uma grife. O sucesso dos livros de auto-ajuda é outro fenômeno que evidencia o caráter egocêntrico dos nossos tempos. Esse tipo de literatura traz a mensagem de que, uma vez bem consigo mesma, a pessoa conseguirá atingir os seus objetivos – como se ela não precisasse de ninguém para tanto.


Com reportagem de Letícia Pires

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      • As diferenças entre as mentalidades
      • Modelo oriental de sucesso
      • O jeito de "ser Serasa"
      • Times desbravadores
      • A vitrine das equipes
      • Equipes por todos os lados
      • A dinâmica dos grupos
      • Conceitos da era Nós S.A.

     
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