|
Regra número um da inovação:
ela precisa sempre trazer resultados econômicos.
É o que ensina o especialista Moysés
Simantob, sócio da consultoria Pieracciani/Pritchett
Brasil. Simantob é co-fundador e atual
coordenador executivo do Fórum de Inovação
da Escola de Administração de Empresas
de São Paulo (FGV-EAESP), referência
para as empresas dispostas a reinventar produtos
e serviços como Copesul, Monsanto,
Brasilata e Embrapa, que ajudaram a criar a entidade.
Não é de se admirar, portanto, que
Simantob veja a inovação pelo prisma
dos resultados. Nesta entrevista, ele argumenta
que as escolas e universidades precisam ensinar
as pessoas a inovar, e que esse processo deve
ser perene para que não dependa
de gênios solitários.
Você defende que a inovação
deve ser um processo formal dentro das organizações.
Como as empresas podem fazer isso?
Primeiro, é preciso trabalhar o modelo
mental das pessoas. Muitas ainda têm dificuldade
para pensar diferente dentro das organizações,
ou seja, não conseguem sair da caixa.
Elas não foram educadas para pensar assim.
E isso é necessário para que a inovação
se torne uma característica das organizações.
Todo o mundo reclama que o mercado é cada
vez mais competitivo, que a globalização
muda constantemente a forma de as empresas competirem,
que o mercado é mutante etc. Mas poucos
executivos sabem como preparar suas compa-nhias
para esse ambiente de incertezas. Bom, uma das
maneiras é essa: fazer com que as pessoas
tenham a capacidade de pensar e repensar, cotidianamente,
seus processos de negócio, suas atividades
e a própria razão de ser da organização.
Em outras palavras, incorporar a inovação
como uma competência, algo que permeie a
gestão da empresa, seus processos, sua
visão estratégica, metas, mercados
etc.
Mas é preciso formalizar a inovação?
Ela não ocorre ao natural?
Muita gente fala de inovação pensando
em um ambiente caótico, em idéias
fortuitas. Ah, isso é uma coisa que
acontece ao acaso, dizem. Sem dúvida,
há a possibilidade de ser ocasional. Mas,
se a empresa induzir, provocar isso, ela acabará
criando um fluxo permanente de idéias.
Ora, as empresas inovadoras são exatamente
aquelas que conseguem construir um grande estoque
de idéias, mesmo que sejam idéias
brutas. Sempre chega o momento em que parte dessas
idéias brutas começa a ser testada.
Depois, parte das idéias testadas acaba,
naturalmente, tornando-se protótipo ou
iniciativa. Por fim, um número pequeno
desses protótipos e iniciativas se transforma
em produtos, serviços ou novas estratégias
que agregam valor à organização.
Eis aí a inovação.
Por que você alia o conceito de inovação
à agregação de valor?
Não há como se falar disso sem tocar
na questão do resultado econômico.
Essa é a principal diferença entre
inovação e invenção.
Se uma empresa lança um produto ou serviço
que não existia no mercado, mas não
consegue resultados econômicos, isso não
é inovação. Vejo a inovação
como um processo estratégico que dá
condições para as organizações
criarem produtos, serviços e soluções
que tragam resultado econômico, algum tipo
de riqueza. E isso não se restringe a novos
produtos e tecnologias. Se uma empresa cria um
processo que reduz seus custos de produção
em 10%, isso é inovação.
Qual o primeiro passo para as empresas dispostas
a inovar?
Primeiro, é necessário preparar
o ambiente corporativo, que precisa incentivar
a ousadia e ser propício para a troca de
informações entre as pessoas. É
um ambiente onde a liberdade de expressão
prevalece. Onde a hierarquia formal é menos
importante que a hierarquia intelectual ou a hierarquia
imaginativa. Não existe o dono
da idéia ou a paternidade das
idéias. O que existe é uma equipe
que sabe explorar sua própria diversidade
de talentos. A diversidade, aliás, é
um item importante. Até o estagiário
deve participar das reuniões estratégicas
mais importantes. Pois esse estagiário
vai trazer um ponto de vista que ninguém
no grupo original tinha. Assim, a empresa certamente
começará a prestar atenção
em coisas que, anteriormente, passavam despercebidas.
Tratar um mesmo tema sob óticas distintas
é importante para que as companhias não
repitam velhas fórmulas.
Essa diversidade de modelos mentais não
causaria conflitos?
Sem dúvida nenhuma, causaria. Aliás,
espera-se que cause. As empresas inovadoras querem
mais é que a casa pegue fogo. É
essa a visão do Robert Sutton (autor de
Idéas Malucas Que Funcionam, tema de reportagem
de AMANHÃ em setembro de 2002) . Os conflitos
podem acontecer, são parte do jogo. O importante
é que haja uma multidisciplinaridade na
equipe. Algumas empresas norte-americanas dão
tanto valor a isso que contratam não só
pessoas com experiências diferentes, mas
também com formações e conhecimentos
distintos. Por exemplo, sociólogos, antropólogos,
designers, arquitetos... Profissionais que, aparentemente,
não têm muito a contribuir nas empresas,
mas que podem ser decisivos para que elas entendam
melhor o seu consumidor.
Vale a pena ter uma área específica
para a inovação?
Isso é assunto de toda a corporação.
Não faz sentido criar uma área específica
e atribuir a poucas pessoas essa responsabilidade.
Pode-se até criar essa área. Mas
nesse caso, o responsável teria a função
de gerar conhecimento, sistematizá-lo e,
acima de tudo, difundi-lo dentro da organização.
As empresas precisam instituir a inovação
como um tema tão importante quanto finanças
ou recursos humanos. Todos devem participar. Além
disso, é preciso que elas não fiquem
só no debate, como geralmente ocorre. Hoje
em dia, a inovação é uma
unanimidade, ninguém questiona a sua importância.
Mas o verdadeiro desafio é saber como inovar.
As empresas em geral ainda acham que isso é
algo que acontece apenas por acaso, de maneira
informal.
|