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Andreas
Müller

A ministra Dilma Rousseff lida
sem dificuldades com entrevistas coletivas. Em
meio ao alvoroço de jornalistas e fotógrafos,
a dama de ferro do Ministério de Minas
e Energia responde rápido e chega, em alguns
casos, a se antecipar às perguntas. Em
sua recente passagem por Porto Alegre, Dilma voltou
a exibir desenvoltura e convicção
ao abordar os problemas do setor elétrico
inclusive o maior deles: a dependência
excessiva de hidrelétricas, de onde vem
quase 80% da energia consumida no país.
Tudo ia bem enquanto a ministra garantia que,
na sua gestão, buscaria diversificar a
matriz energética e estimular a construção
de outros tipos de usinas, principalmente as termelétricas,
que não dependem do clima para funcionar,
embora tenham custos mais altos. Mas eis que um
repórter pergunta: como impedir que a energia
mais cara gerada por essas usinas cause uma explosão
das tarifas? É a única questão
que desconcerta a ministra. Por um momento, Dilma
pensa, mede as palavras. E acaba admitindo: De
fato, não há como fazer isso no
atual modelo energético.
O diagnóstico de Dilma oculta uma mensagem
sutil: o setor elétrico vai sofrer mudanças
de rumos no governo Lula. É pré-requisito
para se evitar a reprise do apagão
de 2001, quando uma série de defeitos congênitos
do sistema elétrico incluindo a
dependência de hidrelétricas
condenou o Brasil ao racionamento e a um crescimento
econômico pífio, de 1,5%. Nesse sentido,
buscar fontes de energia que não dependam
do vaivém das chuvas é um ponto-chave.
Um parque de geração diversificado
é não só saudável
como também essencial, aponta Viviana
Cardoso de Sá e Faria, analista de energia
do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE),
uma entidade independente que acompanha o setor
de infra-estrutura no país. Outro ponto
crítico é montar um novo modelo
de mercado capaz de atrair investimentos da iniciativa
privada, cruciais para bancar a expansão
do sistema. Tudo isso, é claro, sem inflar
muito as contas de luz.
O governo ainda está estudando maneiras
de resolver essa equação. Mas estão
descartadas, desde agora, novas privatizações
de empresas federais. Só os Estados poderão
dar continuidade às desestatizações.
Outro ponto definido pelo governo é a criação
de um novo agente de mercado. Será uma
espécie de atravessador central
de eletricidade. Papel que, cogita-se, poderá
ser desempenhado pelo Mercado Atacadista de Energia
Elétrica MAE (veja quadro Um
destino para o MAE.) Toda a energia produzida
por usinas hídricas, térmicas, eólicas
e outras geradoras será comprada pelos
preços de mercado por esse novo agente,
o que também deverá colocar um ponto
final na competição entre as empresas
geradoras. O objetivo é formar uma espécie
de colchão de tarifas ou pool, como
vem sendo chamado pelos especialistas. A idéia
é que o atravessador governamental misture
a eletricidade barata das hidrelétricas
com aquela gerada pelas usinas mais caras, formando
assim um estoque único que será
vendido às distribuidoras por um preço
médio. Assim, garantimos demanda
a todos os tipos de usinas, abrindo espaço
para a diversificação do parque
gerador, sem que isso cause grande impacto nas
tarifas, conclui Dilma.
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