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O telefone do escritório tocava, e a impressão
era que eu tinha Mal de Parkinson, porque tremia de nervoso.
Pensava que era mais um para me infernizar. Eu já não
me relacionava com as pessoas. Havia demitido todo o mundo
do escritório e trabalhava sozinho. Não conseguia
dormir. Deitava, e meu rosto, meus olhos, ficavam tremendo.
Comecei a ter problemas de saúde. Tive úlcera,
gastrite, até o dia em que acordei com uma dor muito
forte na garganta. Fiz uns exames, e meu clínico geral
me encaminhou a um especialista. O especialista abriu os exames,
eu fiz alguma pergunta idiota e ele me respondeu com outra
pergunta: Você sabe onde está? Isso é
uma clínica de câncer!
O advogado paulista Oswaldo da Penha Barbosa só está
são e salvo para contar sua história porque
mudou completamente de vida. Hoje é dono de uma pousada
no município de Gonçalves, um dos recantos mais
sossegados de Minas Gerais. Mas é impossível
entender as desventuras de Barbosa, incluindo aí provavelmente
a origem e a cura do tumor, sem conhecer a fundo o burnout,
um mal que se alastra no ritmo da globalização
e da competição no mundo dos negócios.
E que, inexplicavelmente, continua sendo um ilustre desconhecido
nas empresas brasileiras. Mesmo entre médicos
e psicólogos, ainda é uma síndrome pouco
conhecida, observa o médico do trabalho Mauro
de Moura, de Porto Alegre.
Simplificando ao máximo, pode-se dizer que o burnout
é o nível mais avançado do estresse,
aquele em que a capacidade da pessoa de lidar com os percalços
do dia-a-dia se esvaiu (leia texto nesta página sobre
a polêmica em torno do conceito). É o estágio
final, a fase patológica do estresse, resume
Ana Cristina Limongi França, professora da Faculdade
de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e
co-autora do livro Stress e Trabalho (Editora Atlas). Em inglês,
burn significa queimação e out quer
dizer fora. Ou seja, é aquele estado em
que a energia (queimação) do sujeito foi para
o espaço. Ele não tem mais ânimo nem para
levantar da cama, trabalhar é um martírio, a
auto-estima está lá embaixo e até atividades
banais como conversar com um familiar exigem um esforço
sobre-humano. O corpo já não consegue
reagir a nada, explica a psicóloga Cecília
Shibuya, presidente da Associação Brasileira
de Qualidade de Vida (ABQV). A pessoa está numa
rua sem saída. Ela não vê nenhuma solução
para o seu problema, complementa a psicóloga
Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira
da Isma (principal associação de combate ao
estresse do mundo). Trata-se de um quadro muito parecido com
o da depressão e pode levar ao suicídio.
Por isso, são preocupantes os resultados de uma pesquisa
feita pela Isma com executivos brasileiros. Dos entrevistados,
70% sofrem de estresse. E o mais impressionante: desses, 43%
ou 30% do total de executivos consultados estão
na fase de burnout.
O risco de suicídio é apenas uma entre várias
outras conseqüências nefastas da síndrome.
No trabalho, por exemplo, a pessoa já não consegue
dar mais conta dos afazeres e se torna distante ou até
mesmo agressiva com colegas e clientes desenlaces violentos
não estão descartados. Além disso, o
estresse está associado a uma infinidade de doenças,
e, quando chega à fase do burnout, as chances
de o organismo sucumbir vão às alturas. O
estresse relacionado ao trabalho pode influir em praticamente
qualquer enfermidade, avalia relatório da União
Européia sobre saúde mental no trabalho. Segundo
a Associação Médica Americana, o estresse
está direta ou indiretamente relacionado às
seis principais causas de morte no mundo. São elas:
doenças do coração, câncer, enfermidades
do pulmão, acidentes, cirrose e suicídio.
Mas, para perceber quão danosa a síndrome pode
ser para o organismo, é preciso entender direito o
que é o estresse termo que acabou banalizado
pelo excesso de uso. Palavra originada da física, é
a reação de um corpo para se adaptar a uma força
externa. Aplicado ao ser humano, o termo passou a significar
as alterações que o organismo sofre diante de
alguma pressão (uma ameaça real ou imaginária,
uma mudança importante, uma grande perda). É
uma reação que vem desde o tempo em que os homens
habitavam as cavernas, quando os perigos do quotidiano envolviam
ataques de tribos inimigas e animais ferozes. Uma vez defrontado
com um tigre, o homem das cavernas passava por diversos processos
químicos, preparando-se para lutar ou fugir. O cérebro
inundava o corpo de adrenalina, o sangue corria mais rápido,
as veias e vasos se contraiam ante o risco de algum ferimento,
e o sistema digestivo se esmerava para liberar uma dose extra
de glicose, entre outros fenômenos físicos.
Colaborou
Letícia
Pires
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