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      Edição 185 - Janeiro/Fevereiro de 2003
 

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Ainda desconhecido nas empresas, o burnout é a
face mais perversa do estresse e pode levar ao suicídio. E o mais preocupante: a síndrome aflige nada menos que 30% dos executivos brasileiros
Felipe Polydoro

O telefone do escritório tocava, e a impressão era que eu tinha Mal de Parkinson, porque tremia de nervoso. Pensava que era mais um para me infernizar. Eu já não me relacionava com as pessoas. Havia demitido todo o mundo do escritório e trabalhava sozinho. Não conseguia dormir. Deitava, e meu rosto, meus olhos, ficavam tremendo. Comecei a ter problemas de saúde. Tive úlcera, gastrite, até o dia em que acordei com uma dor muito forte na garganta. Fiz uns exames, e meu clínico geral me encaminhou a um especialista. O especialista abriu os exames, eu fiz alguma pergunta idiota e ele me respondeu com outra pergunta: ‘Você sabe onde está? Isso é uma clínica de câncer’!”

O advogado paulista Oswaldo da Penha Barbosa só está são e salvo para contar sua história porque mudou completamente de vida. Hoje é dono de uma pousada no município de Gonçalves, um dos recantos mais sossegados de Minas Gerais. Mas é impossível entender as desventuras de Barbosa, incluindo aí provavelmente a origem e a cura do tumor, sem conhecer a fundo o burnout, um mal que se alastra no ritmo da globalização e da competição no mundo dos negócios. E que, inexplicavelmente, continua sendo um ilustre desconhecido nas empresas brasileiras. “Mesmo entre médicos e psicólogos, ainda é uma síndrome pouco conhecida”, observa o médico do trabalho Mauro de Moura, de Porto Alegre.

Simplificando ao máximo, pode-se dizer que o burnout é o nível mais avançado do estresse, aquele em que a capacidade da pessoa de lidar com os percalços do dia-a-dia se esvaiu (leia texto nesta página sobre a polêmica em torno do conceito). “É o estágio final, a fase patológica do estresse”, resume Ana Cristina Limongi França, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e co-autora do livro Stress e Trabalho (Editora Atlas). Em inglês, burn significa “queimação” e out quer dizer “fora”. Ou seja, é aquele estado em que a energia (queimação) do sujeito foi para o espaço. Ele não tem mais ânimo nem para levantar da cama, trabalhar é um martírio, a auto-estima está lá embaixo e até atividades banais como conversar com um familiar exigem um esforço sobre-humano. “O corpo já não consegue reagir a nada”, explica a psicóloga Cecília Shibuya, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). “A pessoa está numa rua sem saída. Ela não vê nenhuma solução para o seu problema”, complementa a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira da Isma (principal associação de combate ao estresse do mundo). Trata-se de um quadro muito parecido com o da depressão – e pode levar ao suicídio. Por isso, são preocupantes os resultados de uma pesquisa feita pela Isma com executivos brasileiros. Dos entrevistados, 70% sofrem de estresse. E o mais impressionante: desses, 43% – ou 30% do total de executivos consultados – estão na fase de burnout.

O risco de suicídio é apenas uma entre várias outras conseqüências nefastas da síndrome. No trabalho, por exemplo, a pessoa já não consegue dar mais conta dos afazeres e se torna distante ou até mesmo agressiva com colegas e clientes – desenlaces violentos não estão descartados. Além disso, o estresse está associado a uma infinidade de doenças, e, quando chega à fase do burnout, as chances de o organismo sucumbir vão às alturas. “O estresse relacionado ao trabalho pode influir em praticamente qualquer enfermidade”, avalia relatório da União Européia sobre saúde mental no trabalho. Segundo a Associação Médica Americana, o estresse está direta ou indiretamente relacionado às seis principais causas de morte no mundo. São elas: doenças do coração, câncer, enfermidades do pulmão, acidentes, cirrose e suicídio.

Mas, para perceber quão danosa a síndrome pode ser para o organismo, é preciso entender direito o que é o estresse – termo que acabou banalizado pelo excesso de uso. Palavra originada da física, é a reação de um corpo para se adaptar a uma força externa. Aplicado ao ser humano, o termo passou a significar as alterações que o organismo sofre diante de alguma pressão (uma ameaça real ou imaginária, uma mudança importante, uma grande perda). É uma reação que vem desde o tempo em que os homens habitavam as cavernas, quando os perigos do quotidiano envolviam ataques de tribos inimigas e animais ferozes. Uma vez defrontado com um tigre, o homem das cavernas passava por diversos processos químicos, preparando-se para lutar ou fugir. O cérebro inundava o corpo de adrenalina, o sangue corria mais rápido, as veias e vasos se contraiam ante o risco de algum ferimento, e o sistema digestivo se esmerava para liberar uma dose extra de glicose, entre outros fenômenos físicos.

Colaborou Letícia Pires

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