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      Edição 184 - Dezembro de 2002
 

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JÓRIO DAUSTER
Embaixador, sócio do grupo Convixx

A menos que ocorra outro evento tão espantoso quanto a queda das torres gêmeas, o cenário mundial no próximo ano estará inevitavelmente entrelaçado à sorte do Iraque. Embora o retorno dos inspetores da ONU pareça oferecer a derradeira oportunidade de solução pacífica para o problema, poucos analistas acreditam que Bush se contentará com algo menos do que a queda de Saddam Hussein — o que muito provavelmente exigirá uma intervenção armada com ou sem o beneplácito do Conselho de Segurança.

Nessas condições, as especulações se concentram na tentativa de prever os contornos da ação bélica, pois deles decorrem cenários muito diversos tanto no campo político quanto no econômico. Um êxito rápido, com poucas baixas entre os civis iraquianos e as forças de ocupação, provavelmente será absorvido sem maiores traumas pelos governos dos países árabes e pelos movimentos muçulmanos. Mantido o fornecimento regular de petróleo, seu preço retornaria aos patamares observados nos últimos anos, deixando de colorir ainda mais negativamente as já sombrias perspectivas econômicas. Mesmo assim, se conduzida sem amplo apoio internacional, uma intervenção cirúrgica não deixaria de gerar conseqüências perniciosas ao confirmar a predisposição dos Estados Unidos de passar a exercer seu poder hegemônico de forma voluntarista.

Por outro lado, é óbvio que qualquer operação militar menos eficaz produzirá efeitos perversos que crescerão exponencialmente em função de fatores tais como a duração do conflito, a quantidade de vítimas em ambos os lados e o grau de envolvimento armado da população iraquiana, para os quais a Guerra do Golfo não fornece parâmetros de comparação. É certo também que um conflito longo e “sujo” produzirá ecos na própria região e alhures, exacerbando tanto as frustrações palestinas quanto os movimentos de cunho fundamentalista em várias nações asiáticas — se é que não irá provocar reações terroristas cada vez mais tresloucadas em todo o planeta. Do ponto de vista econômico, e não só devido à provável elevação dos preços do petróleo, qualquer coisa que seja vista como um tropeço militar da maior potência mundial aumentará os riscos de que prevaleçam as forças recessivas hoje presentes na economia norte-americana, fazendo ganhar corpo, adiante, o espectro da deflação. E, como não se podem esperar fortes impulsos da Europa (e muito menos do Japão), as perspectivas de crescimento em todo o mundo seriam medíocres em 2003.

Temos boas razões para desejar que os problemas no Oriente Médio e na América do Sul se resolvam obedecendo aos preceitos de “paz e amor” do Lula

Mais perto de casa, embora sem as implicações potencialmente dramáticas do problema iraquiano, o próximo ano trará diversas novidades e algumas possíveis inquietações. As primeiras ficam por conta da eleição de novos presidentes na Argentina e no Paraguai, fazendo com que o delicado trabalho de reconstituição do Mercosul caiba a três administrações recém-constituídas e a uma quarta, a uruguaia, enfraquecida pela dissolução da coalizão que a sustentava. Não obstante, a importância estratégica de recompor o bloco regional, tão duramente atingido pela crise argentina, ganha um elemento de urgência porque agora entram na fase decisiva as negociações relativas à nova rodada da Organização Mundial de Comércio, à Alca e à associação com a União Européia.


As eventuais turbulências têm a ver, sobretudo, com a ameaça de um desfecho para a situação de Hugo Chavez em desrespeito às normas constitucionais e com os resultados da linha dura que Uribe vem implantando no relacionamento com os movimentos armados e o narcotráfico. As difíceis condições por que passam Venezuela e Colômbia, somadas ao fato de que os presidentes da Bolívia e do Equador foram eleitos recentemente, não contribuem para facilitar as tentativas de unir Mercosul e o grupo andino numa grande área de livre comércio — o que reforçaria a todos nas discussões para a criação da Alca.
Para um país profundamente necessitado de reduzir sua dependência econômica externa como é o Brasil, nunca tivemos tão boas razões para desejar que os conflitos no Oriente Médio e os problemas da América do Sul se resolvam em obediência aos preceitos de “paz e amor” que marcaram a campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.

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