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A menos que ocorra outro evento
tão espantoso quanto a queda das torres
gêmeas, o cenário mundial no próximo
ano estará inevitavelmente entrelaçado
à sorte do Iraque. Embora o retorno dos
inspetores da ONU pareça oferecer a derradeira
oportunidade de solução pacífica
para o problema, poucos analistas acreditam que
Bush se contentará com algo menos do que
a queda de Saddam Hussein o que muito provavelmente
exigirá uma intervenção armada
com ou sem o beneplácito do Conselho de
Segurança.
Nessas condições, as especulações
se concentram na tentativa de prever os contornos
da ação bélica, pois deles
decorrem cenários muito diversos tanto
no campo político quanto no econômico.
Um êxito rápido, com poucas baixas
entre os civis iraquianos e as forças de
ocupação, provavelmente será
absorvido sem maiores traumas pelos governos dos
países árabes e pelos movimentos
muçulmanos. Mantido o fornecimento regular
de petróleo, seu preço retornaria
aos patamares observados nos últimos anos,
deixando de colorir ainda mais negativamente as
já sombrias perspectivas econômicas.
Mesmo assim, se conduzida sem amplo apoio internacional,
uma intervenção cirúrgica
não deixaria de gerar conseqüências
perniciosas ao confirmar a predisposição
dos Estados Unidos de passar a exercer seu poder
hegemônico de forma voluntarista.
Por outro lado, é óbvio
que qualquer operação militar menos
eficaz produzirá efeitos perversos que
crescerão exponencialmente em função
de fatores tais como a duração do
conflito, a quantidade de vítimas em ambos
os lados e o grau de envolvimento armado da população
iraquiana, para os quais a Guerra do Golfo não
fornece parâmetros de comparação.
É certo também que um conflito longo
e sujo produzirá ecos na própria
região e alhures, exacerbando tanto as
frustrações palestinas quanto os
movimentos de cunho fundamentalista em várias
nações asiáticas se
é que não irá provocar reações
terroristas cada vez mais tresloucadas em todo
o planeta. Do ponto de vista econômico,
e não só devido à provável
elevação dos preços do petróleo,
qualquer coisa que seja vista como um tropeço
militar da maior potência mundial aumentará
os riscos de que prevaleçam as forças
recessivas hoje presentes na economia norte-americana,
fazendo ganhar corpo, adiante, o espectro da deflação.
E, como não se podem esperar fortes impulsos
da Europa (e muito menos do Japão), as
perspectivas de crescimento em todo o mundo seriam
medíocres em 2003.
| Temos
boas razões para desejar que os problemas
no Oriente Médio e na América
do Sul se resolvam obedecendo aos preceitos
de paz e amor do Lula |
Mais perto de casa, embora sem
as implicações potencialmente dramáticas
do problema iraquiano, o próximo ano trará
diversas novidades e algumas possíveis
inquietações. As primeiras ficam
por conta da eleição de novos presidentes
na Argentina e no Paraguai, fazendo com que o
delicado trabalho de reconstituição
do Mercosul caiba a três administrações
recém-constituídas e a uma quarta,
a uruguaia, enfraquecida pela dissolução
da coalizão que a sustentava. Não
obstante, a importância estratégica
de recompor o bloco regional, tão duramente
atingido pela crise argentina, ganha um elemento
de urgência porque agora entram na fase
decisiva as negociações relativas
à nova rodada da Organização
Mundial de Comércio, à Alca e à
associação com a União Européia.
As eventuais turbulências têm a ver,
sobretudo, com a ameaça de um desfecho
para a situação de Hugo Chavez em
desrespeito às normas constitucionais e
com os resultados da linha dura que Uribe vem
implantando no relacionamento com os movimentos
armados e o narcotráfico. As difíceis
condições por que passam Venezuela
e Colômbia, somadas ao fato de que os presidentes
da Bolívia e do Equador foram eleitos recentemente,
não contribuem para facilitar as tentativas
de unir Mercosul e o grupo andino numa grande
área de livre comércio o
que reforçaria a todos nas discussões
para a criação da Alca.
Para um país profundamente necessitado
de reduzir sua dependência econômica
externa como é o Brasil, nunca tivemos
tão boas razões para desejar que
os conflitos no Oriente Médio e os problemas
da América do Sul se resolvam em obediência
aos preceitos de paz e amor que marcaram
a campanha do presidente eleito Luiz Inácio
Lula da Silva.
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