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Sai o líder educador, entra o líder
carismático. Na ótica do curitibano
Eugênio Mussak, um dos mais requisitados
conferencistas sobre temas como liderança
e educação corporativa, eis como
se resume a transmissão da faixa presidencial
do sociólogo Fernando Henrique Cardoso
para o meta-lúrgico Luiz Inácio
Lula da Silva. O significado dessa transição,
na prática, é o que Mussak analisou
na entrevista de uma hora que concedeu a AMANHÃ.
Um dos traços que mais o empolgam no perfil
do fundador do PT, até agora, é
a coerência. Coerência não
significa defender as mesmas coisas o tempo todo.
Isso na verdade é incoerência,
sustenta Mussak, que aos 53 anos leciona no mestrado
de RH da USP e dirige a Sapiens Inteligência
Organizacional. For-mado em medicina e estudioso
do funcionamento do cérebro, Mussak se
preocupa com uma tendência dos líderes
carismáticos decisões tomadas
à revelia da lógica.
A eleição de Lula coloca em
relevo que tipo de líder?
Lula é um líder que emana da esperança.
Ele simboliza, em primeiro lugar, o desejo de
mudança que a população tem.
E encarna o homem do povo, o brasileiro típico.
É o sujeito que veio do Nordeste, passou
necessidade, está na luta há muito
tempo, mas jamais se corrompeu. Essa identificação
do brasileiro com ele se dá em duas dimensões.
Quando Lula vai para a televisão e diz
que gosta de música sertaneja e que o último
livro que leu foi a biografia do Garrincha, ele
simboliza o homem que o brasileiro é. Mas
quando ele comanda uma mudança política
importante e chega ao poder supremo do país,
elegendo-se presidente da República, Lula
representa o homem que o cidadão comum
gostaria de ser. Em resumo, Lula é o que
o brasileiro é e ao mesmo tempo o que o
brasileiro gostaria de ser... Essa é uma
condição importante para o exercício
da liderança.
Essa identificação não
se produziu nas três eleições
anteriores.
Foram momentos diferentes. Quando Lula perdeu,
em 1989, era Collor quem representava o que o
brasileiro gostaria de ser: uma espécie
de super-herói, o sujeito bonito, elegante,
que fala bem. Hoje, não. Hoje, o modelo
é o homem de origem humilde, mas que chegou
lá. É claro que Lula também
mudou, e não foi só por uma obra
de marketing, como muitos afirmaram. A mudança
que o marketing operou foi só no visual,
e foi até positiva. Porque ninguém
quer se identificar com alguém desgrenhado
ou carrancudo. É a importância da
percepção do belo. O homem é
movido pelo belo. A perpetuação
da espécie depende da percepção
do belo. As pessoas se identificam, no começo,
com quem parece com elas. Mas se identificam também,
ou mais, com alguém com quem elas gostariam
de parecer. Não adianta o Lula ser só
igual ao povo. Quando ele era só igual
ao povo, o povo não votava nele. Quando
ele passou a ser meio igual ao povo, mas meio
desigual, por ter evoluído, conseguiu avançar,
porque equilibrou a dimensão de passado
e presente da identificação. O brasileiro
pensa: eu sou hoje o que o Lula era ontem, e quero
ser amanhã o que ele é hoje..
Agora que está eleito, Lula terá
de expressar uma outra liderança, diferente
daquela revelada na campanha eleitoral?
O Lula vai ter de mostrar que continua solidário
com as causas originais do PT, mas precisará
promover a sintonia entre essas causas originais
do PT e a realidade inclusive a realidade
do mercado. O líder que ignorar a realidade
não é um líder, é
um fantoche de seus ideais.
Mas como fica a coerência de um líder
com suas bandeiras históricas?
O Lula mostra ser um líder legítimo.
E o que é um líder com legitimidade?
É aquele que tem uma saudável superfície
de contato com a realidade. Caso contrário,
você vai ter um sujeito que vai conduzir
seus liderados, como tantas vezes aconteceu, a
um desatino. Vejamos o caso de Hitler. Era um
sujeito altamente carismático, mas que
contato ele tinha com a realidade? Nenhum. Ele
era presa de uma ideologia. Vários outros
líderes, na história, perderam contato
com a realidade. Mussolini, por exemplo. Roma
começou a cair quando os imperadores perderam
o contato com a realidade: Nero, Calígula
e outros. O imperador tem essa tendência
porque ele se confunde com Deus, acha que pode
tudo.
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