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      Edição 183 - Novembro de 2002
 

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O especialista em liderança Eugênio Mussak diz que Lula acerta quando se adapta à nova realidade em vez se tornar um “fantoche de seus ideais”

Eugênio Esber

Sai o líder educador, entra o líder carismático. Na ótica do curitibano Eugênio Mussak, um dos mais requisitados conferencistas sobre temas como liderança e educação corporativa, eis como se resume a transmissão da faixa presidencial do sociólogo Fernando Henrique Cardoso para o meta-lúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. O significado dessa transição, na prática, é o que Mussak analisou na entrevista de uma hora que concedeu a AMANHÃ. Um dos traços que mais o empolgam no perfil do fundador do PT, até agora, é a coerência. “Coerência não significa defender as mesmas coisas o tempo todo. Isso na verdade é incoerência”, sustenta Mussak, que aos 53 anos leciona no mestrado de RH da USP e dirige a Sapiens Inteligência Organizacional. For-mado em medicina e estudioso do funcionamento do cérebro, Mussak se preocupa com uma tendência dos líderes carismáticos – decisões tomadas à revelia da lógica.

A eleição de Lula coloca em relevo que tipo de líder?
Lula é um líder que emana da esperança. Ele simboliza, em primeiro lugar, o desejo de mudança que a população tem. E encarna o homem do povo, o brasileiro típico. É o sujeito que veio do Nordeste, passou necessidade, está na luta há muito tempo, mas jamais se corrompeu. Essa identificação do brasileiro com ele se dá em duas dimensões. Quando Lula vai para a televisão e diz que gosta de música sertaneja e que o último livro que leu foi a biografia do Garrincha, ele simboliza o homem que o brasileiro é. Mas quando ele comanda uma mudança política importante e chega ao poder supremo do país, elegendo-se presidente da República, Lula representa o homem que o cidadão comum gostaria de ser. Em resumo, Lula é o que o brasileiro é e ao mesmo tempo o que o brasileiro gostaria de ser... Essa é uma condição importante para o exercício da liderança.

Essa identificação não se produziu nas três eleições anteriores.
Foram momentos diferentes. Quando Lula perdeu, em 1989, era Collor quem representava o que o brasileiro gostaria de ser: uma espécie de super-herói, o sujeito bonito, elegante, que fala bem. Hoje, não. Hoje, o modelo é o homem de origem humilde, mas que chegou lá. É claro que Lula também mudou, e não foi só por uma obra de marketing, como muitos afirmaram. A mudança que o marketing operou foi só no visual, e foi até positiva. Porque ninguém quer se identificar com alguém desgrenhado ou carrancudo. É a importância da percepção do belo. O homem é movido pelo belo. A perpetuação da espécie depende da percepção do belo. As pessoas se identificam, no começo, com quem parece com elas. Mas se identificam também, ou mais, com alguém com quem elas gostariam de parecer. Não adianta o Lula ser só igual ao povo. Quando ele era só igual ao povo, o povo não votava nele. Quando ele passou a ser meio igual ao povo, mas meio desigual, por ter evoluído, conseguiu avançar, porque equilibrou a dimensão de passado e presente da identificação. O brasileiro pensa: eu sou hoje o que o Lula era ontem, e quero ser amanhã o que ele é hoje..

Agora que está eleito, Lula terá de expressar uma outra liderança, diferente daquela revelada na campanha eleitoral?
O Lula vai ter de mostrar que continua solidário com as causas originais do PT, mas precisará promover a sintonia entre essas causas originais do PT e a realidade – inclusive a realidade do mercado. O líder que ignorar a realidade não é um líder, é um fantoche de seus ideais.

Mas como fica a coerência de um líder com suas bandeiras históricas?
O Lula mostra ser um líder legítimo. E o que é um líder com legitimidade? É aquele que tem uma saudável superfície de contato com a realidade. Caso contrário, você vai ter um sujeito que vai conduzir seus liderados, como tantas vezes aconteceu, a um desatino. Vejamos o caso de Hitler. Era um sujeito altamente carismático, mas que contato ele tinha com a realidade? Nenhum. Ele era presa de uma ideologia. Vários outros líderes, na história, perderam contato com a realidade. Mussolini, por exemplo. Roma começou a cair quando os imperadores perderam o contato com a realidade: Nero, Calígula e outros. O imperador tem essa tendência porque ele se confunde com Deus, acha que pode tudo.

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