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Os programas de governo apresentados durante as campanhas
eleitorais guardam uma semelhança marcante entre si:
são vagos. Prometem mundos e fundos, mas economizam
palavras na hora de apontar concretamente os caminhos para
cumprir os compromissos. A plataforma do presidente eleito
Luis Inácio Lula da Silva não foge à
regra. Na economia, prega uma mudança de prioridades,
trazendo o setor produtivo de volta ao centro das atenções
e, assim, permitindo a retomada do crescimento e da oferta
de emprego. O objetivo seria alcançado, entre outras
medidas, por meio de uma política industrial
conceito jogado para escanteio durante o governo Fernando
Henrique e de uma Reforma Tributária que desonere
a produção e as exportações. Tudo
isso sem passar por cima de acordos e obrigações
herdados da atual gestão e sem estourar as contas públicas.
Faltando mais de um mês para a posse de Lula, ninguém
sabe ao certo como essa mudança de rumos na economia
sairá do mundo abstrato das intenções
de governo para virar realidade. Enquanto não
houver uma definição concreta da política
econômica, não há como fazer qualquer
prognóstico, esquiva-se Jorge Gerdau Johannpeter,
presidente do Grupo Gerdau. O mesmo vale para boa parte das
promessas de campanha ainda que o clima no país
seja de otimismo, inclusive entre os empresários. Mesmo
assim, é possível imaginar alguns caminhos a
serem adotados pelo novo governo e, a partir disso, quais
setores seriam beneficiados. Está claro, por exemplo,
que a indústria como um todo ganha com a redefinição
de prioridades na condução da política
econômica. Os exportadores também devem ser favorecidos,
uma vez que as vendas para o exterior tendem a ser uma obsessão
daqui para frente. Outro setor que anda esquecido e, segundo
o próprio Lula, volta a ser valorizado é o da
construção civil. Engrossam a lista dos prováveis
eleitos: transporte, tecnologia da informação,
fundos de pensão, mercado de capitais e agronegócio.
Independentemente do setor, o presidente petista promete ainda
estimular as micro e pequenas empresas.
Dentro da indústria, há chances de que alguns
segmentos sejam privilegiados, principalmente aqueles que
mais empregam. É óbvio que esses setores
precisam ter uma política diferenciada, argumenta
Miguel Rossetto (PT), vice-governador do Rio Grande do Sul.
Entrariam no bolo indústrias como têxtil, calçadista,
moveleira, alimentícia e a agroindústria. A
questão que ainda está longe de ser respondida
é como funcionará a prometida política
industrial. Há muitas formas de fazê-la,
preocupa-se Ivoncy Ioschpe, presidente do Instituto de Estudos
para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O programa de Lula
fala da necessidade de privilegiar setores estratégicos,
e a maioria dos economistas e empresários acredita
que esse será o caminho. Mas não é nada
simples colocar esse tipo de medida em prática. Num
país continental como o nosso, com tantas e tão
variadas vocações econômicas, fica difícil
admitir que alguns setores possam tornar-se o alvo preferencial,
afirmou recentemente, em artigo, Edson Vaz Musa, presidente
da Fundação para o Prêmio Nacional da
Qualidade. Portanto, na prática é muito
difícil definir, sem meios-termos e com tintas fortes,
quais setores de produtos e serviços serão eleitos
para sustentar e alavancar a economia brasileira, conclui
Musa. Mesmo assim, a opinião corrente é de que
Lula vai enfrentar a bronca de selecionar alguns segmentos.
E, uma vez decidido que alguns ramos terão destaque,
qual o critério para selecionar esse grupo de elite?
Como já foi dito, as indústrias que mais empregam
são candidatas naturais. Durante a campanha, Lula colocou
como meta a criação de 10 milhões de
empregos. E mesmo dentro de cada uma dessas cadeias alguns
nichos podem se sobressair. No setor têxtil, o
vestuário demanda muito mais mão-de-obra do
que a fiação, por exemplo, observa Vicente
Donini, presidente da Marisol. Se a prioridade número
um é geração de emprego, então
é preciso valorizar as áreas da cadeia que mais
empregam. Outros segmentos estratégicos sempre
lembrados quando se fala em política industrial são
aqueles que importam muito, como eletroeletrônico e
químico, donos de um enorme déficit comercial.
O próprio programa de governo de Lula fala da necessidade
de substituir importações para melhorar as contas
externas e reduzir a dependência de tecnologia estrangeira.
É provável que mereçam atenção
especial, ainda, os segmentos que mais exportam.
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