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      Edição 183 - Novembro de 2002
 

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O presidente petista chega ao poder
prometendo uma nova lista de prioridades na economia. Quem deve sair ganhando?
Felipe Polydoro

Os programas de governo apresentados durante as campanhas eleitorais guardam uma semelhança marcante entre si: são vagos. Prometem mundos e fundos, mas economizam palavras na hora de apontar concretamente os caminhos para cumprir os compromissos. A plataforma do presidente eleito Luis Inácio Lula da Silva não foge à regra. Na economia, prega uma mudança de prioridades, trazendo o setor produtivo de volta ao centro das atenções e, assim, permitindo a retomada do crescimento e da oferta de emprego. O objetivo seria alcançado, entre outras medidas, por meio de uma política industrial – conceito jogado para escanteio durante o governo Fernando Henrique – e de uma Reforma Tributária que desonere a produção e as exportações. Tudo isso sem passar por cima de acordos e obrigações herdados da atual gestão e sem estourar as contas públicas.

Faltando mais de um mês para a posse de Lula, ninguém sabe ao certo como essa mudança de rumos na economia sairá do mundo abstrato das intenções de governo para virar realidade. “Enquanto não houver uma definição concreta da política econômica, não há como fazer qualquer prognóstico”, esquiva-se Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau. O mesmo vale para boa parte das promessas de campanha – ainda que o clima no país seja de otimismo, inclusive entre os empresários. Mesmo assim, é possível imaginar alguns caminhos a serem adotados pelo novo governo e, a partir disso, quais setores seriam beneficiados. Está claro, por exemplo, que a indústria como um todo ganha com a redefinição de prioridades na condução da política econômica. Os exportadores também devem ser favorecidos, uma vez que as vendas para o exterior tendem a ser uma obsessão daqui para frente. Outro setor que anda esquecido e, segundo o próprio Lula, volta a ser valorizado é o da construção civil. Engrossam a lista dos prováveis eleitos: transporte, tecnologia da informação, fundos de pensão, mercado de capitais e agronegócio. Independentemente do setor, o presidente petista promete ainda estimular as micro e pequenas empresas.

Dentro da indústria, há chances de que alguns segmentos sejam privilegiados, principalmente aqueles que mais empregam. “É óbvio que esses setores precisam ter uma política diferenciada”, argumenta Miguel Rossetto (PT), vice-governador do Rio Grande do Sul. Entrariam no bolo indústrias como têxtil, calçadista, moveleira, alimentícia e a agroindústria. A questão que ainda está longe de ser respondida é como funcionará a prometida política industrial. “Há muitas formas de fazê-la”, preocupa-se Ivoncy Ioschpe, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O programa de Lula fala da necessidade de privilegiar setores estratégicos, e a maioria dos economistas e empresários acredita que esse será o caminho. Mas não é nada simples colocar esse tipo de medida em prática. “Num país continental como o nosso, com tantas e tão variadas vocações econômicas, fica difícil admitir que alguns setores possam tornar-se o alvo preferencial”, afirmou recentemente, em artigo, Edson Vaz Musa, presidente da Fundação para o Prêmio Nacional da Qualidade. “Portanto, na prática é muito difícil definir, sem meios-termos e com tintas fortes, quais setores de produtos e serviços serão eleitos para sustentar e alavancar a economia brasileira”, conclui Musa. Mesmo assim, a opinião corrente é de que Lula vai enfrentar a bronca de selecionar alguns segmentos.

E, uma vez decidido que alguns ramos terão destaque, qual o critério para selecionar esse grupo de elite? Como já foi dito, as indústrias que mais empregam são candidatas naturais. Durante a campanha, Lula colocou como meta a criação de 10 milhões de empregos. E mesmo dentro de cada uma dessas cadeias alguns nichos podem se sobressair. “No setor têxtil, o vestuário demanda muito mais mão-de-obra do que a fiação, por exemplo”, observa Vicente Donini, presidente da Marisol. “Se a prioridade número um é geração de emprego, então é preciso valorizar as áreas da cadeia que mais empregam.” Outros segmentos estratégicos sempre lembrados quando se fala em política industrial são aqueles que importam muito, como eletroeletrônico e químico, donos de um enorme déficit comercial. O próprio programa de governo de Lula fala da necessidade de substituir importações para melhorar as contas externas e reduzir a dependência de tecnologia estrangeira. É provável que mereçam atenção especial, ainda, os segmentos que mais exportam.

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