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Eugênio
Esber e Sheila
Meyer

Em setembro, no início de mais um dia
de trabalho como pintor de paredes, o paulistano
Miguel dos Anjos Cardoso separou alguns jornais
para forrar o chão. Entre uma folha e outra,
que manuseava com cuidado para não deixar
falhas e correr o risco de pingar tinta no piso,
acabou deparando com um título que lhe
chamou a atenção. Projeto
quer suspender progressão continuada.
Era uma notícia do jornal O Estado de São
Paulo publicada em dezembro de 2001.
Mesmo sabendo que o jornal não era novo,
seu Miguel ficou surpreso com o que havia lido.
Não entendeu direito as explicações,
mas sabe que a tal da progressão continuada
garantiu o fim de um problema que lhe causava
angústia e tristeza a cada final de ano:
a repetência de um de seus filhos na escola.
Esse negócio de progressão
eu ainda não sei se é bom ou ruim.
O que sei é que meu filho não repetiu
mais, não se acha mais um burro e agora
bem que ele gosta de estudar, conta o pai,
preocupado com a possibilidade de enfrentar novamente
o desgosto de ver o filho fracassar na escola.
É provável que seu Miguel ainda
venha a entornar muita tinta em manchetes, artigos
e editoriais sobre o sistema de ciclos e de progressão
continuada. A grande novidade pedagógica
introduzida na educação pública
brasileira pela nova Lei de Diretrizes e Bases,
em 1996, será assunto cada vez mais freqüente
nos jornais. Sob a artilharia dos críticos,
o novo modelo será desafiado a mostrar
à sociedade que é possível,
sim, extirpar o câncer da repetência
sem que isso signifique carimbar o passaporte
de alunos que nada aprenderam.
| A última
estatística, de 1999, mostrava que
quatro em cada dez brasileirinhos matriculados
na 1ª série voltavam para casa,
em dezembro, com o carimbo de reprovados.
Na média das oito séries, a
repetência atingia 30% |
A progressão continuada é uma linha
pedagógica que evita a repe-tência.
É aplicada com a divisão do tempo
escolar em ciclos de aprendizado que substituem
a divisão dos alunos por séries
(1ª, 2ª, 3ª etc). Cada um desses
ciclos terá duração de três
ou quatro anos, conforme os critérios adotados
pela rede pública de cada Estado. As formas
de avaliação não são
provas, nem notas. Ao final do ano, o aluno não
passa de uma série para outra pela
simples razão de que não há
série. O que ele não
aprende será objeto da aplicação
de outras meto-dologias de ensino como laboratórios
e aulas de reforço, geralmente no turno
inverso, em classes de poucos alunos organizados
por disciplina. É assim até o fim
do ciclo.
Inspirada em experiências de países
como a Espanha, a introdução desse
sistema foi uma resposta de educadores brasileiros
aos números escandalosos do fracasso escolar
no país. A última estatística
disponível no Brasil mostra que, em 1999,
quatro em cada dez brasileirinhos matriculados
na 1ª série voltavam para casa, em
dezembro, com o carimbo de reprovados. Na média
das oito séries, a repetência estigmatizava
30% dos estudantes e não é
difícil imaginar o reflexo dessa situação
sobre a auto-estima de 1 milhão e 978 mil
crianças. Quem não desistiu de estudar,
após dois ou três insucessos, teve
de carregar sentimentos de culpa e rejeição
no caminho entre a casa e a sala de aula. Se
a reprovação fragiliza uma criança
com boa estrutura familiar, no caso das crianças
de classe A e B, imagine os efeitos que gera numa
criança de classe social humilde, onde
ocorre a maioria dos casos de repe-tência,
compara Maria Ângela Carneiro, psicóloga
e professora de Políticas Públicas
de Ensino na PUC-SP. No mínimo, é
o início da formação de um
adulto incapaz de resolver seus próprios
problemas, sustenta.
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