|
|
 |
| As transformações
do mundo corporativo exigem uma nova postura dos presidentes
e líderes empresariais. Acredite: será preciso
muita humildade para encarar os novos tormentos do poder. |
|
Como qualquer empresário, o catarinense Udo Döhler
foi pego de surpresa pela crise na Argentina. Uma péssima
surpresa, já que um terço das exportações
da Döhler S.A. eram endereçadas ao vizinho portenho.
Sem demora, os acionistas começaram a pressioná-lo
para que se livrasse das operações no Prata o
mais rápido possível. Queriam evitar a possibilidade
de calote generalizado dos hermanos, o que deixaria os cofres
da empresa em apuros. Mas o presidente da Döhler S.A. resistiu.
Algo dizia que, se saíssemos muito rápido
desse mercado, perderíamos várias oportunidades
de negócios, lembra. Estava certo. Enquanto orquestrava
a saída da empresa da Argentina, Döhler ainda fechou
algumas vendas naquele país, sem maiores problemas. Ao
mesmo tempo, articulou uma aproximação com outros
mercados, esforço que hoje é recompensado com
as exportações crescentes de sua fábrica
de tecidos de Joinville para os Estados Unidos e o Oriente Médio.
A história de Döhler retrata com bastante nitidez
a rotina de presidentes e donos de empresas. Acostumados à
pressão de grandes decisões e responsabilidades,
esses caciques corporativos vivem entre o céu e o inferno.
Num dia, encaram todos os tipos de tormentos e cobranças
para defender convicções que, não raro,
são meramente intuitivas. No outro, deliciam-se ao ver
suas manobras de gestão publicadas nas editorias de economia.
A dualidade pode parecer empolgante quem nunca desejou
ter o prestígio e uma agenda tão lotada quanto
a de grandes empresários, como Jorge Gerdau Johannpeter,
Luiz Fernando Furlan ou Antônio Ermírio de Moraes?
Muitas vezes, no entanto, a badalação oculta um
sério problema: a solidão. A responsabilidade
de tomar a decisão final faz parte do dia-a-dia, mas
gera muita pressão e ansiedade. Com freqüência,
somos obrigados a resolver a questão sozinhos,
indica José Galló, presidente da Lojas Renner.
Mas há outros motivos além da pressão de
dar a última palavra que explicam o isolamento psicológico
a que os líderes são submetidos. Um deles é
a história pessoal desses empresários. Em geral,
eles desenvolveram sozinhos os seus empreendimentos. Muitos
tiveram uma infância difícil e trabalharam duro
até ganhar algum dinheiro. Quando finalmente conseguiram,
porém, depararam-se com uma sensação estranha:
a de que seriam capazes de fazer qualquer coisa sem a ajuda
de ninguém. Inconscientemente, eles passaram a
agir e a pensar como se fossem super-homens: especiais e imortais,
avalia Cláudia Tondo, diretora técnica do Centro
para Empresas Familiares, em Porto Alegre. É por esse
motivo, diz ela, que os dirigentes resistem tanto em tomar medidas
aparentemente banais, como pedir ajuda quando necessário,
ausentar-se do trabalho ou simplesmente reconhecer que precisam
ir ao médico em caso de doença. Muitas vezes,
a teimosia só reforça o isolamento desses líderes.
Não é só isso. Quase a totalidade dos presidentes
de empresa trabalha muito. Um estudo do Grupo Catho mostra que
são eles que passam mais tempo no escritório:
média de 56 horas semanais contra apenas 47 do pessoal
da baixa gerência. O distanciamento da família
e de amigos se torna inevitável. Hoje em dia, a
gente vê muitos empresários com problemas de casamento,
observa o paranaense Eriodes Batistela, presidente do Grupo
Apaba Batistela. Assim não funciona. É preciso
dedicar alguns momentos à família, pelo menos
para poder contar com aquele ombro amigo depois de um dia exaustivo
de trabalho. Caso contrário, o sujeito não consegue
descansar, aconselha.
É por essas e outras razões que alguns especialistas
em gestão têm defendido a tese de que empresários
devem tentar ser mais humildes. Ou ao menos conter um pouco
do estilo super-homem de liderança. Um estudo
do antropólogo e psicanalista norte-americano Michael
Maccoby, publicado pela Harvard Business Review, sustenta que
presidentes narcisistas centralizadores e auto-suficientes,
e que adoram se exibir em livros, entrevistas, palestras etc
estão condenados ao isolamento. A conclusão
é que esses tipos são demasiadamente sensíveis
a críticas, ouvem pouco as pessoas e perdem a capacidade
de tratá-las com empatia, embora também tenham
grande poder de mobilização e uma ampla visão
de negócios. Os narcisistas são bons para
empresas que necessitam de coragem para implementar grandes
mudanças e seguir novas direções. Mas a
longo prazo eles podem trazer problemas por se recusarem a ouvir
os conselhos e advertências de seus gerentes, descreve
Maccoby, no livro O Que Faz um Líder (Editora Campus,189
páginas). Tudo isso, arremata, tende a se intensificar
na medida em que esses dirigentes se tornam mais bem-sucedidos. |
  |
|
|
 |