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      Edição 179 - Julho de 2002
 

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As transformações do mundo corporativo exigem uma nova postura dos presidentes e líderes empresariais. Acredite: será preciso muita humildade para encarar os novos tormentos do poder.

Andreas Müller

Como qualquer empresário, o catarinense Udo Döhler foi pego de surpresa pela crise na Argentina. Uma péssima surpresa, já que um terço das exportações da Döhler S.A. eram endereçadas ao vizinho portenho. Sem demora, os acionistas começaram a pressioná-lo para que se livrasse das operações no Prata o mais rápido possível. Queriam evitar a possibilidade de calote generalizado dos hermanos, o que deixaria os cofres da empresa em apuros. Mas o presidente da Döhler S.A. resistiu. “Algo dizia que, se saíssemos muito rápido desse mercado, perderíamos várias oportunidades de negócios”, lembra. Estava certo. Enquanto orquestrava a saída da empresa da Argentina, Döhler ainda fechou algumas vendas naquele país, sem maiores problemas. Ao mesmo tempo, articulou uma aproximação com outros mercados, esforço que hoje é recompensado com as exportações crescentes de sua fábrica de tecidos de Joinville para os Estados Unidos e o Oriente Médio.

A história de Döhler retrata com bastante nitidez a rotina de presidentes e donos de empresas. Acostumados à pressão de grandes decisões e responsabilidades, esses caciques corporativos vivem entre o céu e o inferno. Num dia, encaram todos os tipos de tormentos e cobranças para defender convicções que, não raro, são meramente intuitivas. No outro, deliciam-se ao ver suas manobras de gestão publicadas nas editorias de economia. A dualidade pode parecer empolgante – quem nunca desejou ter o prestígio e uma agenda tão lotada quanto a de grandes empresários, como Jorge Gerdau Johannpeter, Luiz Fernando Furlan ou Antônio Ermírio de Moraes? Muitas vezes, no entanto, a badalação oculta um sério problema: a solidão. “A responsabilidade de tomar a decisão final faz parte do dia-a-dia, mas gera muita pressão e ansiedade. Com freqüência, somos obrigados a resolver a questão sozinhos”, indica José Galló, presidente da Lojas Renner.

Mas há outros motivos além da pressão de dar a última palavra que explicam o isolamento psicológico a que os líderes são submetidos. Um deles é a história pessoal desses empresários. Em geral, eles desenvolveram sozinhos os seus empreendimentos. Muitos tiveram uma infância difícil e trabalharam duro até ganhar algum dinheiro. Quando finalmente conseguiram, porém, depararam-se com uma sensação estranha: a de que seriam capazes de fazer qualquer coisa sem a ajuda de ninguém. “Inconscientemente, eles passaram a agir e a pensar como se fossem super-homens: especiais e imortais”, avalia Cláudia Tondo, diretora técnica do Centro para Empresas Familiares, em Porto Alegre. É por esse motivo, diz ela, que os dirigentes resistem tanto em tomar medidas aparentemente banais, como pedir ajuda quando necessário, ausentar-se do trabalho ou simplesmente reconhecer que precisam ir ao médico em caso de doença. Muitas vezes, a teimosia só reforça o isolamento desses líderes.

Não é só isso. Quase a totalidade dos presidentes de empresa trabalha muito. Um estudo do Grupo Catho mostra que são eles que passam mais tempo no escritório: média de 56 horas semanais contra apenas 47 do pessoal da baixa gerência. O distanciamento da família e de amigos se torna inevitável. “Hoje em dia, a gente vê muitos empresários com problemas de casamento”, observa o paranaense Eriodes Batistela, presidente do Grupo Apaba Batistela. “Assim não funciona. É preciso dedicar alguns momentos à família, pelo menos para poder contar com aquele ombro amigo depois de um dia exaustivo de trabalho. Caso contrário, o sujeito não consegue descansar”, aconselha.

É por essas e outras razões que alguns especialistas em gestão têm defendido a tese de que empresários devem tentar ser mais humildes. Ou ao menos conter um pouco do estilo “super-homem” de liderança. Um estudo do antropólogo e psicanalista norte-americano Michael Maccoby, publicado pela Harvard Business Review, sustenta que presidentes narcisistas – centralizadores e auto-suficientes, e que adoram se exibir em livros, entrevistas, palestras etc – estão condenados ao isolamento. A conclusão é que esses tipos são demasiadamente sensíveis a críticas, ouvem pouco as pessoas e perdem a capacidade de tratá-las com empatia, embora também tenham grande poder de mobilização e uma ampla visão de negócios. “Os narcisistas são bons para empresas que necessitam de coragem para implementar grandes mudanças e seguir novas direções. Mas a longo prazo eles podem trazer problemas por se recusarem a ouvir os conselhos e advertências de seus gerentes”, descreve Maccoby, no livro O Que Faz um Líder (Editora Campus,189 páginas). Tudo isso, arremata, tende a se intensificar na medida em que esses dirigentes se tornam mais bem-sucedidos.

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      • Vida longa aos humildes
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