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Um dos mais respeitados economistas de sua geração,
o carioca Paulo Rabello de Castro se serve do
jargão do futebol para demonstrar qual
deve ser a meta do Brasil nos próximos
anos e que obstáculos terá
de superar. Já se vão mais de dez
anos desde que Rabello liderou o Instituto Atlântico
na confecção do Plano de Estabilização
com Crescimento, o PEC. O estudo, que recebeu
o misterioso nome de Plano K, sumiu
na fumaça dos derradeiros dias do governo.
O diretor da agência de risco SR Rating
diz que o desafio, desde 1991, continua o mesmo:
ir além da estabilidade e fazer o país
crescer, mas sem trazer de volta a inflação
e, especialmente, sem ceder à nostalgia
de modelos que, segundo ele, seduzem diferentes
propostas de Serra a Lula.
Como o senhor avalia o desempenho do governo nestes
oito anos de Plano Real?
O balanço é positivo, porque o Fernando
Henrique Cardoso entregou o produto que prometeu,
a estabilidade. A que custo, todos nós
sabemos. Houve até excesso de rigor, porque
ele endossou tudo aquilo que a equipe econômica
apontava. Fernando Henrique pode ser comparado
a um enfermo, representando o Brasil doente de
inflação. Ele fez o papel de um
doente muito bem comportado e cumpriu tudo o que
a junta médica mandou. Um exemplo foi a
âncora cambial até o final de 1998,
defendida por um segmento da equipe econômica
que insistia na queda de braço com os especuladores.
Na realidade, aquela queda de braço estava
nos dando uma acumulação de déficit
externo, deixando clara a nossa vulnerabilidade.
Outro ponto positivo foi a limpa expressiva nas
áreas estadual, municipal e bancária,
com renegociação e federalização
de dívidas. Também acho que foi
absolutamente heróica a flexibilização
dos monopólios, que teve resultados expressivos.
Na época, foram intensas as reações
das viúvas do regime estatal. Ainda hoje
se ouvem manifestações como a de
João Sayad, que achou por bem dizer que
a privatização só desarranjou
os quadros técnicos dessas empresas. Ou
seja, ainda tem gente que acha que a privatização
não valeu.
Qual a sua avaliação sobre o
processo de privatização?
Ela teve erros, claro. Foi a privatização
mais excludente que o mundo já viu. Praticamente
ninguém do grande público participou.
Foi o grande erro do Fernando Henrique. Ele queria
maximizar a receita, e dá mais trabalho
movimentar gente. Mas, às vezes, é
preciso ir pelo caminho mais longo. As receitas
das teles foram essenciais para superar a crise
externa de 1999, mas veja que isso não
mitigou a nossa vulnerabilidade. Nós hoje
temos um mercado de capitais cada vez mais acanhado,
e o público sem mecanismos novos para realizar
sua poupança de longo prazo. Deveria ter
havido povo na privatização, e o
uso do FGTS na compra das ações
da Petrobras e depois na Vale do Rio Doce mostra
como esse potencial existe.
Perdeu-se a oportunidade de fundar um mercado
de capitais...
Se o Malan estivesse ouvindo, ele diria, mas
você não sabe o que tivemos de fazer
para fechar as contas das finanças públicas
utilizando esses recursos. Eu retrucaria
dizendo: Você não queria fazer
o duro corte da despesa pública que nunca
foi feito no Brasil. A mídia só
fala de arrocho, mas os números mostram
inequivocadamente que a despesa pública
no Brasil cresceu três vezes mais rápido
do que o PIB nos períodos mais recentes.
Em parte, isso tem a ver com os juros, mas você
olha a conta sem os juros e vê que a despesa
continua crescendo duas vezes mais rápido
que o PIB. O governo não se reorganizou
para gastar realmente menos. Se você faz
subir a dívida pública de um país,
à base de juros altos e um crescente endividamento,
você está empurrando para a sarjeta
a atividade produtiva. Não é de
se espantar o baixo crescimento do período.
Quando o Instituto Atlântico lançou
o Programa de Estabilização com
Crescimento (PEC), em 1992, já falávamos
na necessidade de aliar as duas coisas. O problema
é que hoje não se tem engajamento
com a segunda parte do binômio, o crescimento.
Organizar o país para ter juros compatíveis
com a necessidade de expansão econômica
implica uma série de medidas mais fortes,
a começar por um choque na despesa pública.
O dilema inflação e crescimento
está de volta...
O dilema existe, mas, no caso brasileiro, ele
não se aplica exatamente. Isso porque o
Brasil possui uma meta inflacionária de
suíço num país de vulnerabilidade
moreninha. Além disso, as eventuais
flutuações de câmbio e a vulnerabilidade
fiscal decorrente da rolagem da dívida
provocam impactos não-previsíveis
no curso da inflação. Obviamente,
uma meta na faixa de 7% a 10% é muito mais
fácil de ser atingida, embora seja também
uma marca a ser administrada. O que isso tem a
ver com crescimento? É que, à medida
que as taxas de juros queiram forçar uma
inflação de 3,5%, muitos preços
da economia têm de estar com variações
negativas. E, para que se cause uma deflação
na economia, os juros precisam estar extremamente
elevados.
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