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      Edição 179 - Julho de 2002
 

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Para o economista Paulo Rabello de Castro, o Brasil só vai vestir a camisa do crescimento quando tiver as mesmas virtudes do time do Felipão: autoconfiança, disciplina – e a recusa de práticas nostálgicas
Eugênio Esber

Um dos mais respeitados economistas de sua geração, o carioca Paulo Rabello de Castro se serve do jargão do futebol para demonstrar qual deve ser a meta do Brasil nos próximos anos – e que obstáculos terá de superar. Já se vão mais de dez anos desde que Rabello liderou o Instituto Atlântico na confecção do Plano de Estabilização com Crescimento, o PEC. O estudo, que recebeu o misterioso nome de “Plano K”, sumiu na fumaça dos derradeiros dias do governo. O diretor da agência de risco SR Rating diz que o desafio, desde 1991, continua o mesmo: ir além da estabilidade e fazer o país crescer, mas sem trazer de volta a inflação e, especialmente, sem ceder à nostalgia de modelos que, segundo ele, seduzem diferentes propostas – de Serra a Lula.

Como o senhor avalia o desempenho do governo nestes oito anos de Plano Real?

O balanço é positivo, porque o Fernando Henrique Cardoso entregou o produto que prometeu, a estabilidade. A que custo, todos nós sabemos. Houve até excesso de rigor, porque ele endossou tudo aquilo que a equipe econômica apontava. Fernando Henrique pode ser comparado a um enfermo, representando o Brasil doente de inflação. Ele fez o papel de um doente muito bem comportado e cumpriu tudo o que a junta médica mandou. Um exemplo foi a âncora cambial até o final de 1998, defendida por um segmento da equipe econômica que insistia na queda de braço com os especuladores. Na realidade, aquela queda de braço estava nos dando uma acumulação de déficit externo, deixando clara a nossa vulnerabilidade. Outro ponto positivo foi a limpa expressiva nas áreas estadual, municipal e bancária, com renegociação e federalização de dívidas. Também acho que foi absolutamente heróica a flexibilização dos monopólios, que teve resultados expressivos. Na época, foram intensas as reações das viúvas do regime estatal. Ainda hoje se ouvem manifestações como a de João Sayad, que achou por bem dizer que a privatização só desarranjou os quadros técnicos dessas empresas. Ou seja, ainda tem gente que acha que a privatização não valeu.

Qual a sua avaliação sobre o processo de privatização?
Ela teve erros, claro. Foi a privatização mais excludente que o mundo já viu. Praticamente ninguém do grande público participou. Foi o grande erro do Fernando Henrique. Ele queria maximizar a receita, e dá mais trabalho movimentar gente. Mas, às vezes, é preciso ir pelo caminho mais longo. As receitas das teles foram essenciais para superar a crise externa de 1999, mas veja que isso não mitigou a nossa vulnerabilidade. Nós hoje temos um mercado de capitais cada vez mais acanhado, e o público sem mecanismos novos para realizar sua poupança de longo prazo. Deveria ter havido povo na privatização, e o uso do FGTS na compra das ações da Petrobras e depois na Vale do Rio Doce mostra como esse potencial existe.

Perdeu-se a oportunidade de fundar um mercado de capitais...
Se o Malan estivesse ouvindo, ele diria, “mas você não sabe o que tivemos de fazer para fechar as contas das finanças públicas utilizando esses recursos”. Eu retrucaria dizendo: “Você não queria fazer o duro corte da despesa pública que nunca foi feito no Brasil”. A mídia só fala de arrocho, mas os números mostram inequivocadamente que a despesa pública no Brasil cresceu três vezes mais rápido do que o PIB nos períodos mais recentes. Em parte, isso tem a ver com os juros, mas você olha a conta sem os juros e vê que a despesa continua crescendo duas vezes mais rápido que o PIB. O governo não se reorganizou para gastar realmente menos. Se você faz subir a dívida pública de um país, à base de juros altos e um crescente endividamento, você está empurrando para a sarjeta a atividade produtiva. Não é de se espantar o baixo crescimento do período. Quando o Instituto Atlântico lançou o Programa de Estabilização com Crescimento (PEC), em 1992, já falávamos na necessidade de aliar as duas coisas. O problema é que hoje não se tem engajamento com a segunda parte do binômio, o crescimento. Organizar o país para ter juros compatíveis com a necessidade de expansão econômica implica uma série de medidas mais fortes, a começar por um choque na despesa pública.

O dilema inflação e crescimento está de volta...
O dilema existe, mas, no caso brasileiro, ele não se aplica exatamente. Isso porque o Brasil possui uma meta inflacionária de suíço num país de vulnerabilidade “moreninha”. Além disso, as eventuais flutuações de câmbio e a vulnerabilidade fiscal decorrente da rolagem da dívida provocam impactos não-previsíveis no curso da inflação. Obviamente, uma meta na faixa de 7% a 10% é muito mais fácil de ser atingida, embora seja também uma marca a ser administrada. O que isso tem a ver com crescimento? É que, à medida que as taxas de juros queiram forçar uma inflação de 3,5%, muitos preços da economia têm de estar com variações negativas. E, para que se cause uma deflação na economia, os juros precisam estar extremamente elevados.

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