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      Edição 175 - Março de 2002
 

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NICOLA MINERVINI
Consultor de comércio exterior, criador do programa “Export Check-up”
  Nicola Minervini nunca pegou numa enxada, mas se reconheceu na italianada da novela Terra Nostra. Quando desembarcou em São Paulo, em 1968, como imigrante, tinha apenas 21 anos e um diploma de técnico em eletrônica. “O começo foi duro”, conta o ex-hóspede do Serviço de Imigração, no bairro do Brás. Mas Minervini não tem queixas do Brasil. Ao contrário. Nos 23 anos que viveu aqui, diplomou-se em Economia na USP, trabalhou em empresas do porte da Light e da Pirelli, especializou-se em Comércio Exterior e lançou o primeiro de seus vários livros sobre esse tema: O Exportador, em 1991, pela Makron Books. A partir daí, voltou para a Itália e passou a prestar consultoria em comércio exterior em governos e entidades empresariais de vários países – inclusive o Brasil. Aqui, seu mais recente projeto foi o desenvolvimento de um programa para a Abimaq, intitulado “Export Check-up” – espécie de teste para que as empresas façam um autodiagnóstico de sua competitividade internacional. Admirador do futebol brasileiro (“torço para que não dê Brasil x Itália na final da Copa”), Minervini aponta, a seguir, algumas dicas para que, no jogo do comércio internacional, o Brasil saia da retranca.
Eugênio Esber


O empresário brasileiro tem uma cabeça internacional, uma visão global de negócios?

Pela dimensão e pelas taxas de crescimento do mercado interno, o empresário brasileiro está mais voltado para dentro do país. Prova disso é a reduzida participação do Brasil no mercado internacional. Muitas vezes, quando há uma visão internacional, ela se restringe à América Latina. Além de tudo, a exportação, por definição, requer uma visão de médio e longo prazos. E os brasileiros, por serem latinos, e pela história inflacionária, tendem a ter uma visão de mais curto prazo. Mas eu não queria, com isso, generalizar. Há excelentes exemplos de empresas com visão mundial, desde uma Sadia até uma Papaiz, Mangels ou Weg, entre muitas outras.

“Exportar exige muito mais que um câmbio favorável. A empresa brasileira precisa se preparar melhor. Quantas têm
um especialista em design?”

Por que o Brasil não consegue exportar mais do que 7% de seu PIB?

De fato, a economia brasileira é das mais fechadas da América Latina. No México, por exemplo, o comércio exterior representa 65% do PIB (muito em razão da presença de empresas maquiadoras, que montam componentes e reexportam). Acredito que contribuiu muito para este fechamento a famosa política de substituições de importações, época em que, no Brasil, importar era pecado. Portanto, fechava-se o canal das importações e, por meio de uma enxurrada de incentivos, procurava-se exportar. Faltava-nos, porém, o confronto, a comparação com produtos estrangeiros que brigassem no mercado interno. Tivemos uma quantidade razoável de produtos obsoletos e caros. Resultado: mais inflação e falta de competitividade dos produtos. A situação mudou com a abertura do mercado nos anos 90.

Reduziram-se investimentos em papéis financeiros e se aumentaram investimentos em qualificação de pessoal, em tecnologia e em alianças estratégicas. O resultado está aí: hoje, o Brasil exporta de aviões a máquinas, de cerâmica a confecções. Mas não será fácil, agora, alcançar países que abriram suas economias há mais tempo que o Brasil. Um desafio que temos é o de não apenas exportar mais volume, mas vender mais valor agregado. Vender por quilo mais do que por tonelada. Para isso, será necessário investir em tecnologia, qualidade, serviço, design.
Quantas de nossas empresas têm um especialista em design?

No Brasil, as exportações estão concentradas em poucas empresas com escala de operações muito grande. Tamanha concentração não está em desacordo com o padrão de comércio exterior das nações mais avançadas?

Na América Latina e especificamente no Brasil, as pequenas empresas não significam mais do que 10% do total exportado. Em um país como a Itália, 75% da exportação é realizada por pequenas empresas. Isso mostra o quanto o Brasil está longe dos patamares dos países mais avançados. No caso da Itália, a grande alavanca para a exportação das pequenas e médias empresas são os distritos industriais, ou clusters, assunto que no Brasil está sendo cada vez mais comentado, e também os consórcios de promoção de exportações. Na Itália, há um total de 330 consórcios. Eles garantem 20% de tudo o que o país exporta.

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