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  Edição 172 - Novembro de 2001  

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A semente do voluntariado – A caridade faz parte da história do brasileiro. Mas o voluntariado é um fenômeno dos anos 90. “Houve o impacto da democratização, da abertura do país, da globalização e da Campanha Ação da Cidadania contra a Fome”, lembra Natalie Beghin, coordenadora adjunta da pesquisa “A Ação Social das Empresas”, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O marco do trabalho voluntário foi mesmo a Campanha contra a Fome. Naquele momento, a semente do voluntariado era plantada pelo sociólogo mineiro Herbert de Souza.

Mesmo debilitado por uma série de doenças, Betinho, como é mais conhecido, tornou-se o líder de uma campanha que mobiliza o país desde 1993. Hoje, a Ação da Cidadania se espalhou. São 1.500 comitês no Brasil. “Com a ausência de Betinho, que morreu em 1997, multiplicou-se a responsabilidade de manter viva a idéia dele, de não ter fome no Brasil”, destaca Maurício Andrade, coordenador-geral da ONG. Uma das ações da organização é o Natal Sem Fome, iniciativa que distribuiu um milhão de cestas básicas para populações carentes. Mas Betinho não queria saber de doações por telefone. Queria que as pessoas fossem até os comitês, que vissem a realidade.

Assim também é “O Dia de Fazer a Diferença”. Criado há dez anos pela jornalista americana Marcia Bullard, editora da revista USA Weekend, o projeto levou 200 mil pessoas a praticar ações voluntárias em sua terceira edição no Brasil, em 28 de outubro deste ano. “Mais de 6 mil pessoas participaram de ações de cultura, saúde e esporte na Fundação Gol de Letra, dos jogadores de futebol Raí e Leonardo”, exemplifica Roberto Murakani, diretor executivo do Dia de Fazer a Diferença e representante da Sife, organização universitária que trouxe a campanha para o país.

Pode parecer uma ação isolada, mas não é. Iniciativas como essa geram melhorias efe tivas. Foi o que ocorreu em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. No ano passado, a população foi chamada para recuperar uma fonte de água, em uma área particular, onde havia lixo e desmatamento. Sensibilizado, o dono da fazenda acabou doando a área para a cidade, que irá transformá-la num parque.

Sociólogo mineiro Betinho plantou a semente do voluntariado no Brasil.

Novo pacto social– O conceito de voluntariado surgiu depois da Grande Depressão de 30. Até então, acreditava-se que os problemas sociais eram responsabilidade exclusiva do Estado. A percepção se modificou. “Mais de 60% do que as pessoas ganham vai para o governo. E nunca houve tanta exclusão social quanto hoje”, indigna-se Stephen Kanitz, diretor do Filantropia.org.br, o portal que congrega vários sites sobre otema. “O governo deveria ocupar o espaço de políticas sociais. É ele quem deve garantir o direito à saúde e à alimentação”, afirma Patrícia Ashley, coordenadora da obra “Ética e Responsabilidade Social nos Negócios”. Os próprios voluntários compartilham dessa idéia. “Mais de 75% acreditam que, se o governo cumprisse com suas obrigações, não seriam necessárias tantas doações e trabalho voluntário”, acrescenta a antropóloga Leilah, com base em pesquisa realizada em 1998, em todo o país. “É preciso um novo pacto social, onde o Estado reduza significativamente os impostos em troca do uso do dinheiro em iniciativas sociais”, propõe Kanitz.

Criado em 1995, o Conselho do Comunidade Solidária é composto por lideranças da sociedade e do governo. Um dos programas mais conhecidos é o “Alfabetização Solidária”, que em quatro anos alfabetizou quase 2 milhões de brasileiros.

A bandeira da alfabetização também é erguida pelo Banco do Brasil. Com o trabalho voluntário, o BB Educar já ensinou mais de 65 mil pessoas em todo o país a ler e a escrever. A história do programa é a seguinte: em 1991, trabalhos como serviços gerais, motoristas e pintores seriam extintos. Para garantir o emprego, os funcionários teriam de passar por um concurso interno. Muitos nem sabiam ler. Foi então que um grupo de colegas decidiu ajudá-los e montou o Programa de Escolarização do Banco do Brasil. No primeiro ano, 110 pessoas foram alfabetizadas. O banco acabou assumindo o programa. Mais de 8,5 mil voluntários foram treinados para ensinar a ler e a escrever. “Já dei aula em vilas, em penitenciárias, em comunidades de índios”, relata Alair Negri, um dos criadores do BB Educar. Mesmo aposentado, Negri, de 53 anos, continua formando instrutores. “O banco me deu espaço para montar uma grande rede nacional”, orgulha-se.

As empresas têm papel fundamental na disseminação da solidariedade. “Elas não detêm simplesmente o dinheiro: têm conhecimento técnico, inúmeros recursos ociosos e, sobretudo, pessoas. E essas pessoas estão prontas para exercitar sua cidadania”, argumenta Ruth Cardoso, presidente do Conselho da Comunidade Solidária. Um bom exemplo é o da C&A que, há dez anos, criou um instituto para incentivar o voluntariado. Com a participação dos funcionários, mais de 13 mil crianças e 8,5 mil adolescentes se beneficiaram com atividades e cursos promovidos pela rede de lojas.

A iniciativa da C&A não é isolada. No Brasil, há cerca de 100 projetos semelhantes. “Os empresários que faziam doações se sentiam realizados, mas não viam para onde o dinheiro ia”, recorda Léo Voigt, vice-presidente do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) e diretor da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho. “Com o tempo, esses empresários viram que investimento social não era bem a praia deles. Optaram por criar institutos contratando profissionais da área de políticas públicas”, explica Voigt. A comunidade e os próprios funcionários agradecem. “O ambiente da empresa fica melhor e se desenvolvem competências como trabalho em equipe”, destaca Valdemar de Oliveira Neto, superintendente do Instituto Ethos.

Empresário cidadão – A melhor forma de difundir o sentimento voluntário no empresariado é pelo exemplo. Max Mangels sabe muito bem disso. Hoje, aposentado e membro do conselho de administração da Mangels, uma grande metalúrgica de São Paulo, ele sempre conciliou as obrigações sociais com as responsabilidades de empresário. Foi voluntário em orfanatos, creches e escolas. Está na diretoria da Associação Cristã de Moços, de São Paulo, há 37 anos. Aos 77 anos, Mangels continua em busca de donativos para a instituição. “Me sinto extremamente realizado pela motivação desse pessoal”, alegra-se.

Usar a própria vocação a serviço da comunidade é uma tendência. “Não é preciso fazer uma ação voluntária, basta cumprir seu papel de forma ética e responsável”, destaca Oded Grajev, presidente do Instituto Ethos. Assim, médicos podem atender gratuitamente populações carentes, engenheiros podem ajudar a construir casas e jornalistas podem difundir o tema na mídia. Já estão fazendo isso. “Em cinco anos, houve um crescimento de mais de 500% nas reportagens publicadas sobre infância e adolescência”, revela Marcus Fuchs, diretor adjunto da Agência de Notí- cias dos Direitos da Infância (Andi). Também os Doutores da Alegria servem de exemplo. Ao contrário do que se pensa, eles não são médicos, nem voluntários. São atores que contam com o patrocínio da Telemar e do Tylenol. No Brasil, mais de 200 mil crianças já foram visitadas pelos “besteirologistas”. “É um privilégio poder substitiuir, por alguns inesquecíveis momentos, a tensão do ambiente pela descontração do riso”, diz Wellington Nogueira, ator que trouxe o programa para o Brasil.

 

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