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A semente do voluntariado A caridade faz parte da
história do brasileiro. Mas o voluntariado é
um fenômeno dos anos 90. Houve o impacto da democratização,
da abertura do país, da globalização
e da Campanha Ação da Cidadania contra a Fome,
lembra Natalie Beghin, coordenadora adjunta da pesquisa A
Ação Social das Empresas, realizada pelo
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O marco
do trabalho voluntário foi mesmo a Campanha contra
a Fome. Naquele momento, a semente do voluntariado era plantada
pelo sociólogo mineiro Herbert de Souza.
Mesmo debilitado por uma série de doenças,
Betinho, como é mais conhecido, tornou-se o líder
de uma campanha que mobiliza o país desde 1993. Hoje,
a Ação da Cidadania se espalhou. São
1.500 comitês no Brasil. Com a ausência
de Betinho, que morreu em 1997, multiplicou-se a responsabilidade
de manter viva a idéia dele, de não ter fome
no Brasil, destaca Maurício Andrade, coordenador-geral
da ONG. Uma das ações da organização
é o Natal Sem Fome, iniciativa que distribuiu um milhão
de cestas básicas para populações carentes.
Mas Betinho não queria saber de doações
por telefone. Queria que as pessoas fossem até os comitês,
que vissem a realidade.
Assim também é O Dia de Fazer a Diferença.
Criado há dez anos pela jornalista americana Marcia
Bullard, editora da revista USA Weekend, o projeto levou 200
mil pessoas a praticar ações voluntárias
em sua terceira edição no Brasil, em 28 de outubro
deste ano. Mais de 6 mil pessoas participaram de ações
de cultura, saúde e esporte na Fundação
Gol de Letra, dos jogadores de futebol Raí e Leonardo,
exemplifica Roberto Murakani, diretor executivo do Dia de
Fazer a Diferença e representante da Sife, organização
universitária que trouxe a campanha para o país.
Pode parecer uma ação isolada, mas não
é. Iniciativas como essa geram melhorias efe tivas.
Foi o que ocorreu em Colombo, na Região Metropolitana
de Curitiba. No ano passado, a população foi
chamada para recuperar uma fonte de água, em uma área
particular, onde havia lixo e desmatamento. Sensibilizado,
o dono da fazenda acabou doando a área para a cidade,
que irá transformá-la num parque.
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Sociólogo mineiro Betinho plantou
a semente do voluntariado no Brasil.
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Novo pacto social O conceito
de voluntariado surgiu depois da Grande Depressão de
30. Até então, acreditava-se que os problemas
sociais eram responsabilidade exclusiva do Estado. A percepção
se modificou. Mais de 60% do que as pessoas ganham vai
para o governo. E nunca houve tanta exclusão social
quanto hoje, indigna-se Stephen Kanitz, diretor
do Filantropia.org.br, o portal que congrega vários
sites sobre otema. O governo deveria ocupar o espaço
de políticas sociais. É ele quem deve garantir
o direito à saúde e à alimentação,
afirma Patrícia Ashley, coordenadora da obra Ética
e Responsabilidade Social nos Negócios. Os próprios
voluntários compartilham dessa idéia. Mais
de 75% acreditam que, se o governo cumprisse com suas obrigações,
não seriam necessárias tantas doações
e trabalho voluntário, acrescenta a antropóloga
Leilah, com base em pesquisa realizada em 1998, em todo o
país. É preciso um novo pacto social,
onde o Estado reduza significativamente os impostos em troca
do uso do dinheiro em iniciativas sociais, propõe
Kanitz.
Criado em 1995, o Conselho do Comunidade Solidária
é composto por lideranças da sociedade e do
governo. Um dos programas mais conhecidos é o Alfabetização
Solidária, que em quatro anos alfabetizou quase
2 milhões de brasileiros.
A bandeira da alfabetização também é
erguida pelo Banco do Brasil. Com o trabalho voluntário,
o BB Educar já ensinou mais de 65 mil pessoas em todo
o país a ler e a escrever. A história do programa
é a seguinte: em 1991, trabalhos como serviços
gerais, motoristas e pintores seriam extintos. Para garantir
o emprego, os funcionários teriam de passar por um
concurso interno. Muitos nem sabiam ler. Foi então
que um grupo de colegas decidiu ajudá-los e montou
o Programa de Escolarização do Banco do Brasil.
No primeiro ano, 110 pessoas foram alfabetizadas. O banco
acabou assumindo o programa. Mais de 8,5 mil voluntários
foram treinados para ensinar a ler e a escrever. Já
dei aula em vilas, em penitenciárias, em comunidades
de índios, relata Alair Negri, um dos criadores
do BB Educar. Mesmo aposentado, Negri, de 53 anos, continua
formando instrutores. O banco me deu espaço para
montar uma grande rede nacional, orgulha-se.
As empresas têm papel fundamental na disseminação
da solidariedade. Elas não detêm simplesmente
o dinheiro: têm conhecimento técnico, inúmeros
recursos ociosos e, sobretudo, pessoas. E essas pessoas estão
prontas para exercitar sua cidadania, argumenta Ruth
Cardoso, presidente do Conselho da Comunidade Solidária.
Um bom exemplo é o da C&A que, há dez anos,
criou um instituto para incentivar o voluntariado. Com a participação
dos funcionários, mais de 13 mil crianças e
8,5 mil adolescentes se beneficiaram com atividades e cursos
promovidos pela rede de lojas.
A iniciativa da C&A não é isolada. No Brasil,
há cerca de 100 projetos semelhantes. Os empresários
que faziam doações se sentiam realizados, mas
não viam para onde o dinheiro ia, recorda Léo
Voigt, vice-presidente do Grupo de Institutos, Fundações
e Empresas (Gife) e diretor da Fundação Maurício
Sirotsky Sobrinho. Com o tempo, esses empresários
viram que investimento social não era bem a praia deles.
Optaram por criar institutos contratando profissionais da
área de políticas públicas, explica
Voigt. A comunidade e os próprios funcionários
agradecem. O ambiente da empresa fica melhor e se desenvolvem
competências como trabalho em equipe, destaca
Valdemar de Oliveira Neto, superintendente do Instituto Ethos.
Empresário cidadão A melhor forma
de difundir o sentimento voluntário no empresariado
é pelo exemplo. Max Mangels sabe muito bem disso. Hoje,
aposentado e membro do conselho de administração
da Mangels, uma grande metalúrgica de São Paulo,
ele sempre conciliou as obrigações sociais com
as responsabilidades de empresário. Foi voluntário
em orfanatos, creches e escolas. Está na diretoria
da Associação Cristã de Moços,
de São Paulo, há 37 anos. Aos 77 anos, Mangels
continua em busca de donativos para a instituição.
Me sinto extremamente realizado pela motivação
desse pessoal, alegra-se.
Usar a própria vocação a serviço
da comunidade é uma tendência. Não
é preciso fazer uma ação voluntária,
basta cumprir seu papel de forma ética e responsável,
destaca Oded Grajev, presidente do Instituto Ethos. Assim,
médicos podem atender gratuitamente populações
carentes, engenheiros podem ajudar a construir casas e jornalistas
podem difundir o tema na mídia. Já estão
fazendo isso. Em cinco anos, houve um crescimento de
mais de 500% nas reportagens publicadas sobre infância
e adolescência, revela Marcus Fuchs, diretor adjunto
da Agência de Notí- cias dos Direitos da Infância
(Andi). Também os Doutores da Alegria servem de exemplo.
Ao contrário do que se pensa, eles não são
médicos, nem voluntários. São atores
que contam com o patrocínio da Telemar e do Tylenol.
No Brasil, mais de 200 mil crianças já foram
visitadas pelos besteirologistas. É
um privilégio poder substitiuir, por alguns inesquecíveis
momentos, a tensão do ambiente pela descontração
do riso, diz Wellington Nogueira, ator que trouxe o
programa para o Brasil.
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