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  Edição 172 - Novembro de 2001  

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Mais de 70 milhões de brasileiros formam um exército de solidariedade e
colocam o país em quinto lugar no ranking mundial do voluntariado
Tatiana Csordas*

A população quer transformar o país e está fazendo sua parte – e, de quebra, cumpre algumas funções típicas do governo. Basta observar a multidão de pessoas que ajuda os outros sem receber um único tostão em troca. Uma pesquisa realizada em setembro pelo Instituto Datafolha mostrou que pelo menos 28% dos brasileiros já participaram, ou continuam participando, de algum trabalho voluntário. E mais: 75% estão dispostos a doar seu tempo para alguma atividade social. Esse verdadeiro exército se soma a uma legião de mais de 1,6 bilhão de pessoas no mundo que praticam alguma ação em benefício de pessoas mais necessitadas.

Em 2001, essas iniciativas ganharam fôlego. “Estamos conseguindo alcançar nosso principal objetivo, que é multiplicar os bons exemplos”, comemora Milu Vilella, presidente do Comitê Brasileiro para o Ano Internacional do Voluntário. Pelo menos metade dos adultos do país faz doações em dinheiro ou bens para instituições. Se contados aqueles que contribuem diretamente a pessoas, a participação aumenta. “Mais de 70 milhões de brasileiros doam algo para alguma entidade ou para alguém”, revela o livro Doações e Trabalho Voluntário no Brasil, elaborado a partir de um estudo das pesquisadoras Leilah Landim e Maria Celi Scalon.

No entanto, o volume de brasileiros que literalmente põe a mão na massa cresce devagar. Em 1995, 54% dos jovens queriam ser voluntários, mas apenas 6% eram. Passados seis anos, esse contingente aumentou apenas um ponto percentual, para 7%. Nos Estados Unidos, a participação da juventude vai a 62%. Mesmo assim, só no website www.voluntarios.com.br, há uma fila de 16 mil pessoas interessadas em colocar seu espírito voluntário em prática. “Um em cada cinco brasileiros adultos participa de iniciativas sociais. Essa proporção coloca o Brasil em quinto lugar no ranking mundial do voluntariado”, calcula a jornalista Camila Gino Almeida, na monografia “Jornalismo, Educação e Trabalho Voluntário”, defendida este ano na pós-graduação de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná.

As atividades sociais de Maria da Conceição, como a que ela realiza no Hospital Erasto Gaertner, serviram de exemplo para a família. Todos trabalham como voluntários

Exemplo de família - A própria história de Camila mostra o quanto a solidariedade é contagiante. Tudo começou com os bisavós da jornalista. Ligados à Igreja Católica, eles iam a asilos e levavam alimentos para famílias carentes. Aos 48 anos, a mãe de Camila, Maria da Conceição – ou Tatá, como é conhecida – participa da Liga Feminina de Combate ao Câncer. Duas vezes por semana, veste seu avental cor-de-rosa e vai à luta com outras 200 voluntárias para dedicar um pouquinho de seu tempo aos doentes do Hospital Erasto Gaertner, de Curitiba.


Referência no tratamento contra o câncer, o hospital carrega histórias de sofrimento e dor que são amenizadas com o toque carinhoso das voluntárias. “É um trabalho que dignifica. É um trabalho de amor”, emociona-se Alberto Joaquim Koslowski, 37 anos, internado há um ano. “Eu converso com eles. Alguns só querem segurar a minha mão”, descreve Tatá. “Nós chegamos aqui deprimidas, mas elas são como anjos”, conta a paciente Cezina Vaz Stingelin, de 51 anos.

O marido de Tatá, o engenheiro Manoel Messias Almeida, trabalhou com escoteiros. Também foi dessa forma que os filhos começaram no voluntariado. “Havia a ‘Atividade de Amar’, que era o dia de fazer alguma ação social, como visitar asilos e creches”, recorda Camila, “A semente ficou dentro de mim. Hoje é impossível viver sem fazer algo pelos outros”, reconhece a jornalista. Até pouco tempo atrás, ela e a irmã Marcela davam aulas de alfabetização para adultos. Os outros irmãos também são voluntários. Gabriel, 21 anos, quer trabalhar em organizações não-governamentais ligadas ao meio ambiente. Felipe, de 19 anos, gostaria de trabalhar com ginástica para a Terceira Idade. “Somos felizes. Não fazemos por eles. Eles é que fazem por nós”, acredita Tatá.


* Colaborou Kerley Tolpolar
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