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  Edição 172 - Novembro de 2001  

    Matéria de Capa
    Especial 1
    Entrevista
    Especial 2



 
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O empresário brasileiro ainda encara uma operação de fusão ou aquisição como uma espécie de capitulação? Ou já começa a buscar, ele próprio, o capital estrangeiro, por uma razão estratégica?
São muito poucos os que adotam esse tipo de postura como estratégia de crescimento. A maioria capitula... É raro ver alguém implantando uma estratégia como a do Pão de Açúcar, por exemplo. O grupo vendeu 25% do capital para uma cadeia de supermercados francesa que é fortíssima, com o objetivo de ganhar mais força no mercado brasileiro, onde já enfrenta a concorrência de um outro francês, o Carrefour. A lógica do Pão de Açúcar foi a de abrir mão de uma parte do capital para se fortalecer e crescer. Mas grande parte das empresas não tem essa visão.

“A maioria ainda vê fusões e aquisições como capitulação. Casos como o do Pão de Açúcar são raros“
O Pão de Açúcar não é uma exceção?
O investidor de fora se satisfaz com uma
participação de 25%?
O mais comum, sem dúvida, é a venda do controle, 50% mais um. O estrangeiro dificilmente entra em um negócio como minoritário. Há exceções, claro, e
o caso Pão de Açúcar é uma delas.  

Quais são as dificuldades mais comuns para levar até o fim esses processos
de fusões e aquisições?

O que mais gera quebra ou rompimento de negócios é o que nós chamamos de “contingências” fiscais, trabalhistas e ambientais. É o grande entrave. Numa aquisição
de empresa, você está comprando aquilo que você vê, como prédios, equipamentos, funcionários, clientes e tudo o que está registrado na contabilidade. E você também compra aquilo que não vê. Esse é o maior problema. Você está comprando aquilo que a empresa pratica no dia-a-dia, mas não registra na contabilidade. Ou por má-fé ou porque ela não sabe. A legislação fiscal é tão complexa que, mesmo querendo ser séria, a empresa muitas vezes acaba escapando de determinados procedimentos, e isso gera
o que a gente chama de contingências fiscais, irregularidades que mais tarde podem
dar margem a autuações. A mesma coisa pode acontecer na área trabalhista e na ambiental. São os esqueletos... Normalmente, os esqueletos são descobertos numa fase do processo em que o comprador, antes de fechar o negócio, faz uma verificação, uma auditoria na empresa. É aí que a compra muitas vezes acaba frustrada. O comprador
pode não querer assumir, ou então rediscutir o preço, e então está criado o impasse.

Na grande parte dos casos, a empresa é familiar. Essa circustância dificulta muito a negociação?
Nem sempre é fácil. Há alguns passos para evitar complicações. A primeira regra é: todos os acionistas têm de tomar a decisão de vender. Uma vez que se consegue isso, o resto é mais simples. O problema é que muitas vezes não se obtém o consenso. E, enquanto não se solucionam as diferenças familiares, é impossível ir em frente. Normalmente, nem começo um processo se eu não tiver a certeza de que todos estão de acordo em vender – ou pelo menos os detentores do controle. Se o acionista que tiver 20% não quiser vender, nenhum problema. Mas os controladores têm de estar firmes e unidos na disposição de fazer o negócio.

Consenso na família? É possível contar com isso?
Bem, aí entra o trabalho dos assessores. A gente já conhece o sentimento das empresas, das pessoas que lideram as organizações. E sabemos que, se há uma dificuldade que pode aparecer lá na frente, você tem de se antecipar exatamente
para que, quando o problema surgir, já exista uma definição a respeito, entende? Valor, por exemplo. Cada um pensa em um valor. O primeiro passo, então, é fazer uma avaliação. Enquanto todos não concordarem com esse valor, não dá para seguir adiante.

É mais fácil negociar a venda quando o comando está com a segunda ou a terceira geração?
Depende. É sempre melhor negociar com quem manda. Pode ser a nova geração ou a antiga, é indiferente. Fundamental é que quem esteja negociando tenha de fato autorização para isso.

“A hora de assinar a venda é delicada psicologicamente.
É como se fosse a venda de um filho”
Há casos de arrependimento na hora H, entre as empresas que estão sendo vendidas?
Há, sim, e é por isso que, no momento crítico da negociação, é importante estarmos bem próximos do cliente. Nessa hora, o assessor precisa estar junto dos vendedores e dar um forte apoio psicológico. A gente sabe como uma negociação começa, mas nunca como ela vai terminar. E há um período crítico lá na frente, que é o de diligência. É quando tudo aquilo que foi falado para o comprador no início da negociação passa a ser verificado. Nessa fase é que afloram as divergências, e os ânimos podem ficar realmente acirrados. Por isso, o assessor deve se antecipar e ir avisando o comitê de acionistas, o chamado comitê da venda, desde o início: “Olha, a diligência é uma fase complicada, podem acontecer divergências. É preciso estar preparado”.

O “apoio psicológico” ao vendedor da empresa implica conselhos sobre o que fazer no dia seguinte ao fechamento do negócio e como tocar a vida?
Freqüentemente, nós temos de lidar com essa situação. Nem todos têm uma visão clara sobre o que fazer depois de vender a empresa. Por isso, o momento de fechar o negócio é delicado. Normalmente, no momento em que vai assinar o contrato, o vendedor faz um discurso, especialmente quando se trata de uma pessoa que devotou a maior parte da vida àquele empreendimento. E aí são freqüentes alusões do tipo: “Não estou vendendo uma empresa, mas um filho”. O que mostra o abalo sofrido pelo empreendedor durante um processo desses. Olha, realmente é preciso ter o maior cuidado e a maior atenção nesses casos para dar suporte ao acionista, de modo de que não sofra um sentimento de... (pausa)

De culpa?
É. Mas, felizmente, na maioria dos casos as pessoas já pegam o dinheiro sabendo o que pretendem fazer depois. Normalmente, elas continuam empreendendo. Abrem negócio em outro ramo de atividade, na área imobiliária, no ramo de serviços de saúde e encaram bem esta nova fase da vida.

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