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  Edição 172 - Novembro de 2001  

    Matéria de Capa
    Especial 1
    Entrevista
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André Castello Branco
sócio-diretor da KMPG no Brasil
Um dos negócios da KPMG, consultoria que fatura mais de US$ 14 bilhões no mundo, é o de assessorar casamentos de empresas. Este ano, a companhia voltou a ouvir altos executivos brasileiros e perguntou a eles se as operações de fusões e aquisições tendem a crescer nos próximos cinco anos. A resposta deles soou como melodia para a KPMG: praticamente nove entre dez executivos apostam que sim.
Detalhe: a pesquisa foi realizada antes que as esperanças de recuperação da economia mundial ruíssem com as torres do World Trade Center. “Na medid
a em que se agravam as dificuldades, a resistência dos empresários em atrair um sócio ou vender a empresa diminuem”, constata o sócio do Departamento de Corporate Finance da KPMG, André Castello Branco. Graduado em Economia pela PUC do Rio e com passagem pela Arthur Andersen, Castello Branco tem, aos 37 anos, a missão de coordenar a expansão de sua área de negócios na KPMG, por toda a América do Sul. Nesta entrevista a AMANHÃ, o executivo que a KPMG burilou nos escritórios de Londres e Bruxelas dá seu testemunho sobre os bastidores de um tipo de operação que conhece bem –o tenso e desconfiado flerte entre duas empresas.
Eugênio Esber

Num cenário de incertezas, como o de 2002, as empresas brasileiras estarão mais abertas a propostas de fusões e aquisições?
Eu tenho visto muita gente interessada em passar o negócio, até porque este é o meu dia-a-dia. Percebo que existe, sim, um interesse em fazer negociações, em buscar um sócio para diminuir o risco. É difícil para mim dizer se essa é a situação da grande maioria das empresas, ou não. Mas eu acredito que a tendência geral entre os empresários é de tentar construir parcerias e minimizar seu risco. Muitos deles se sentem sozinhos... É aquela batalha diária, a concorrência em cima... É a hora em que se precisa contar com alguém. E de preferência alguém que tenha mais fôlego.

As empresas brasileiras se tornaram uma pechincha?
Pechincha, não. Mas elas estão mais baratas, sim, em função da desvalorização do câmbio. Acho que seu valor em dólar caiu em torno de 20% de um ano para cá. Agora, é preciso ter em conta que empresas não compram outras empresas porque estão mais baratas. O preço não é a única razão. E muitas vezes não é nem a mais importante. Elas compram quando acham que isso é estrategicamente importante, ponto. Pelo menos na grande maioria dos casos. E o mercado de fusões e aquisições se movimenta por decisões estratégicas e não financeiras.

Mas um desconto de 20% pesa...
É claro que a desvalorização cambial ajuda. Não se espere, no entanto, que haja uma enxurrada de empresas estrangeiras querendo comprar firmas brasileiras porque estão mais baratas. Ninguém compra nada se não estiver precisando. Ninguém compra nada que não seja bom. Em primeiro lugar vem a qualidade dos ativos. Em segundo, a necessidade de comprar. Em terceiro lugar é que vem o preço. É óbvio que o valor conta. Se eu chegar com uma coisa muito boa, mas de valor alto, o cara não compra.

Especialmente numa época de crise...
Exato. Agora, é preciso considerar o raciocínio de quem compra. Num primeiro momento, ele percebe que a desvalorização cambial leva a uma redução de preço em dólar. Mas, por outro lado, a situação do câmbio gera um desconforto em quem está comprando. Ele pensa: o que vai acontecer daí pra frente? A oscilação do câmbio gera incerteza. E a incerteza é muito mais relevante na decisão do investidor que qualquer abatimento de preço. Porque ele percebe que o futuro do país não está claro, e se afasta. E depois tem outra coisa: o processo de fusão e aquisição é longo, não começa de uma hora para outra. Demora seis, oito meses para se concretizar. Às vezes, mais de um ano. Se você tomou uma decisão lá atrás com base num câmbio favorável, como saber que ao longo de todo o processo não vai haver um novo movimento em sentido contrário ao de seus interesses?

“Tenho visto muito empresário interessado em passar o negócio ou buscar um sócio.
Na crise, todos querem reduzir o risco e ganhar fôlego”
O cenário de crise na economia mundial favorece ou prejudica o Brasil na atração de investimentos?
Favorece na medida em que o Brasil é bem visto do ponto de vista
de sua estabiidade política e do baixo risco de ações terroristas por aqui. Acho, porém, que há um efeito negativo, e ele predomina.
É que o investidor fica tão preocupado com o cenário de crise e incerteza em seu próprio país que se retrai. Os americanos, por exemplo, que têm os investimentos mais significativos no Brasil, acabam tão preocupados com o que vai acontecer no mercado deles, no ambiente local, que provavelmente não vão abrir seu foco e dar prioridade à expansão geográfica. A tendência deles é atacar seu próprio mercado e consertar a casa antes de se jogar numa expansão. Os investidores europeus também se mostram receosos, mas com menos intensidade. Já os americanos... Eles estão abalados até psicologicamente.

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