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Num cenário de incertezas,
como o de 2002, as empresas brasileiras estarão
mais abertas a propostas de fusões e aquisições?
Eu tenho visto muita gente interessada em passar
o negócio, até porque este é
o meu dia-a-dia. Percebo que existe, sim, um interesse
em fazer negociações, em buscar
um sócio para diminuir o risco. É
difícil para mim dizer se essa é
a situação da grande maioria das
empresas, ou não. Mas eu acredito que a
tendência geral entre os empresários
é de tentar construir parcerias e minimizar
seu risco. Muitos deles se sentem sozinhos...
É aquela batalha diária, a concorrência
em cima... É a hora em que se precisa contar
com alguém. E de preferência alguém
que tenha mais fôlego.
As empresas brasileiras se tornaram uma pechincha?
Pechincha, não. Mas elas estão mais
baratas, sim, em função da desvalorização
do câmbio. Acho que seu valor em dólar
caiu em torno de 20% de um ano para cá.
Agora, é preciso ter em conta que empresas
não compram outras empresas porque estão
mais baratas. O preço não é
a única razão. E muitas vezes não
é nem a mais importante. Elas compram quando
acham que isso é estrategicamente importante,
ponto. Pelo menos na grande maioria dos casos.
E o mercado de fusões e aquisições
se movimenta por decisões estratégicas
e não financeiras.
Mas um desconto de 20% pesa...
É claro que a desvalorização
cambial ajuda. Não se espere, no entanto,
que haja uma enxurrada de empresas estrangeiras
querendo comprar firmas brasileiras porque estão
mais baratas. Ninguém compra nada se não
estiver precisando. Ninguém compra nada
que não seja bom. Em primeiro lugar vem
a qualidade dos ativos. Em segundo, a necessidade
de comprar. Em terceiro lugar é que vem
o preço. É óbvio que o valor
conta. Se eu chegar com uma coisa muito boa, mas
de valor alto, o cara não compra.
Especialmente numa época de crise...
Exato. Agora, é preciso considerar o raciocínio
de quem compra. Num primeiro momento, ele percebe
que a desvalorização cambial leva
a uma redução de preço em
dólar. Mas, por outro lado, a situação
do câmbio gera um desconforto em quem está
comprando. Ele pensa: o que vai acontecer daí
pra frente? A oscilação do câmbio
gera incerteza. E a incerteza é muito mais
relevante na decisão do investidor que
qualquer abatimento de preço. Porque ele
percebe que o futuro do país não
está claro, e se afasta. E depois tem outra
coisa: o processo de fusão e aquisição
é longo, não começa de uma
hora para outra. Demora seis, oito meses para
se concretizar. Às vezes, mais de um ano.
Se você tomou uma decisão lá
atrás com base num câmbio favorável,
como saber que ao longo de todo o processo não
vai haver um novo movimento em sentido contrário
ao de seus interesses?
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Tenho
visto muito empresário interessado
em passar o negócio ou buscar um
sócio.
Na crise, todos querem reduzir o risco e
ganhar fôlego
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O cenário de crise na economia mundial
favorece ou prejudica o Brasil na atração
de
investimentos?
Favorece na medida em que o Brasil é bem
visto do ponto de vista
de sua estabiidade política e do baixo risco
de ações terroristas por aqui. Acho,
porém, que há um efeito negativo,
e ele predomina.
É que o investidor fica tão preocupado
com o cenário de crise e incerteza em seu
próprio país que se retrai. Os americanos,
por exemplo, que têm os investimentos mais
significativos no Brasil, acabam tão preocupados
com o que vai acontecer no mercado deles, no ambiente
local, que provavelmente não vão abrir
seu foco e dar prioridade à expansão
geográfica. A tendência deles é
atacar seu próprio mercado e consertar a
casa antes de se jogar numa expansão. Os
investidores europeus também se mostram receosos,
mas com menos intensidade. Já os americanos...
Eles estão abalados até psicologicamente.
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