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  Edição 171 - Outubro de 2001  

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O consultor de comércio exterior Fernando Dourado analisa o choque cultural entre Ocidente e Oriente
No ano passado, o pernambucano de Garanhuns Fernando Dourado, 43, relacionou culturas e negócios no livro Ao Redor do Mundo. Poderia ser o título de uma autobiografia. Só ao Japão ele já foi mais de 40 vezes. Visitou mais de 120 países até hoje, está no 17º passaporte e todo ano põe os pés nos cinco continentes. Quase metade do ano Fernando passa no exterior, ritmo que impede namoros duradouros e peso abaixo dos 120 quilos. “É difícil manter a boca fechada em tantas latitudes deliciosas deste mundo”, diz. Fluente em seis idiomas, Fernando viaja a negócios – é consultor de comércio exterior – e também para entender melhor “o software dos povos”. Apaixonado por antropologia cultural, Fernando antecipa a seguir algumas das percepções que pretende esmiuçar no livro Os Nortes da Bússola, que deve lançar em março. A crise, segundo este globe-troter.
Eugênio Esber

Estamos caminhando para um confronto de civilizações?
É possível que sim. Mesmo antes da eclosão desses atentados, eu já me referia ao livro do Samuel Huntington, O Choque das Civilizações, como uma leitura extremamente atual e pertinente. E não é à toa que essa obra voltou a ter grande procura nas livrarias de Londres, Paris e de muitos outros lugares. Huntington atropela a noção de Estado-nação e define a história como uma guerra sucessiva de blocos civilizacionais. Tem a civilização ocidental, a muçulmana, a budista, a hindu, a chinesa, a japonesa, a cristã-ortodoxa, a latino-americana e a africana. Vez por outra, da mesma forma com que o desencontro das placas tectônicas provoca terremotos, as civilizações entram em choque e acontecem as guerras. A Iugoslávia é um caso típico. Ortodoxos, católicos romanos e muçulmanos reduziram o país a pó por conta de uma convivência artificial, baseada em fronteiras estabelecidas por grandes potências. É uma tese interessante e uma forma de ler a história que eu esposo.

Quais as diferenças culturais mais importantes entre orientais e ocidentais?
Ocidente e Oriente travam um diálogo de surdos. O asiático médio se acha moralmente superior a seu par ocidental. E esse, por sua vez, crê piamente que a civilização ocidental triunfou. Que lhe importa uma possível inferioridade moral se suas necessidades materiais básicas estão satisfeitas? Assim, o ocidental médio acha que reações como a que vimos só refletem ódio, ignorância, obscurantismo e inveja. Na verdade, se olhássemos para o interior dessa cebola, feita de tantas camadas, encontraríamos explicações mais adequadas às duas posturas, do Ocidente e do Oriente. Pois é aí que vivem normas e valores.

Quem são os muçulmanos de hoje?
Os núcleos de população muçulmana abraçam o globo. No Marrocos, a apenas quatro horas de vôo de Recife, veja só, eles já são muitos. Assim como estão a não mais do que três horas de vôo do Havaí. Só os dois maiores oceanos do mundo detiveram a fé islâmica.

“Há um choque de valores entre as duas civilizações, agravada pelo etnocentrismo ocidental”

Há unidade no mundo islâmico?
Não. A divergência faz parte do Islã. Se Jesus Cristo era um homem de paz, se Buda era um homem de paz, Maomé era um guerreiro. Hoje, vejo alguns líderes islâmicos um pouco preocupados em esclarecer que sua religião é eminentemente pacifista. Não vou dizer que não seja. No fundo, é pacifista, sim. Mas foi forjada por um guerreiro e tem por símbolo uma espada. A expansão que trouxe os muçulmanos até aqui, na Península Ibérica, e que os leva, do outro lado, a estar a apenas três horas do Havaí, no último arquipélago indonésio, deu-se à força da espada. Acredito que essa belicosidade faça parte do Islã. Tanto é que eles nunca conseguiram uma grande unidade política – muito pelo contrário. O que está fazendo com que eles comecem a se unir, agora, é o fato de identificarem um inimigo comum. Mas, na verdade, a fé islâmica é um mero aglutinador de povos muito diversos, cujo traço comum é a exclusão social e a falta de fé no futuro.

Quais são os elementos de tensão na relação entre Ocidente e Oriente hoje?

Há uma disparidade muito grande de valores entre um bloco e outro. Eu vejo os Estados Unidos, e o Ocidente como um todo, muito mal ferramentados para entender o que se passa do outro lado do mundo. Isso se manifesta em evidências que vão desde o analfabetismo internacional de Bush até o despreparo de empresários e de profissionais que se lançam ao mercado internacional despreparados para decifrar esses códigos orientais e entender como funciona a cabeça, o software dos povos. O etnocentrismo ocidental e especialmente o norte-americano é muito grande. Nos filmes de Hollywood, sempre pontificam os wasps (sigla em inglês para brancos, anglo-saxões e protestantes) esmurrando ditadores africanos corruptos, traficantes latino-americanos, membros da Yakuza japonesa ou das máfias chinesas... Veja que até pasta de amendoim o governo americano jogou para os afegãos como donativo, o que revela uma visão tremendamente etnocêntrica. Manteiga de amendoim, eu acho que só os americanos comem.


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