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Estamos caminhando para um confronto
de civilizações?
É possível que sim. Mesmo antes
da eclosão desses atentados, eu já
me referia ao livro do Samuel Huntington, O Choque
das Civilizações, como uma leitura
extremamente atual e pertinente. E não
é à toa que essa obra voltou a ter
grande procura nas livrarias de Londres, Paris
e de muitos outros lugares. Huntington atropela
a noção de Estado-nação
e define a história como uma guerra sucessiva
de blocos civilizacionais. Tem a civilização
ocidental, a muçulmana, a budista, a hindu,
a chinesa, a japonesa, a cristã-ortodoxa,
a latino-americana e a africana. Vez por outra,
da mesma forma com que o desencontro das placas
tectônicas provoca terremotos, as civilizações
entram em choque e acontecem as guerras. A Iugoslávia
é um caso típico. Ortodoxos, católicos
romanos e muçulmanos reduziram o país
a pó por conta de uma convivência
artificial, baseada em fronteiras estabelecidas
por grandes potências. É uma tese
interessante e uma forma de ler a história
que eu esposo.
Quais as diferenças culturais
mais importantes entre orientais e ocidentais?
Ocidente e Oriente travam um diálogo de
surdos. O asiático médio se acha
moralmente superior a seu par ocidental. E esse,
por sua vez, crê piamente que a civilização
ocidental triunfou. Que lhe importa uma possível
inferioridade moral se suas necessidades materiais
básicas estão satisfeitas? Assim,
o ocidental médio acha que reações
como a que vimos só refletem ódio,
ignorância, obscurantismo e inveja. Na verdade,
se olhássemos para o interior dessa cebola,
feita de tantas camadas, encontraríamos
explicações mais adequadas às
duas posturas, do Ocidente e do Oriente. Pois
é aí que vivem normas e valores.
Quem são os muçulmanos de hoje?
Os núcleos de população muçulmana
abraçam o globo. No Marrocos, a apenas
quatro horas de vôo de Recife, veja só,
eles já são muitos. Assim como estão
a não mais do que três horas de vôo
do Havaí. Só os dois maiores oceanos
do mundo detiveram a fé islâmica.
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Há
um choque de valores entre as duas civilizações,
agravada pelo etnocentrismo ocidental
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Há unidade no mundo islâmico?
Não. A divergência faz parte do Islã.
Se Jesus Cristo era um homem de paz, se Buda era
um homem de paz, Maomé era um guerreiro.
Hoje, vejo alguns líderes islâmicos
um pouco preocupados em esclarecer que sua religião
é eminentemente pacifista. Não vou
dizer que não seja. No fundo, é
pacifista, sim. Mas foi forjada por um guerreiro
e tem por símbolo uma espada. A expansão
que trouxe os muçulmanos até aqui,
na Península Ibérica, e que os leva,
do outro lado, a estar a apenas três horas
do Havaí, no último arquipélago
indonésio, deu-se à força
da espada. Acredito que essa belicosidade faça
parte do Islã. Tanto é que eles
nunca conseguiram uma grande unidade política
muito pelo contrário. O que está
fazendo com que eles comecem a se unir, agora,
é o fato de identificarem um inimigo comum.
Mas, na verdade, a fé islâmica é
um mero aglutinador de povos muito diversos, cujo
traço comum é a exclusão
social e a falta de fé no futuro.
Quais são os elementos de tensão
na relação entre Ocidente e Oriente
hoje?
Há uma disparidade muito grande de valores
entre um bloco e outro. Eu vejo os Estados Unidos,
e o Ocidente como um todo, muito mal ferramentados
para entender o que se passa do outro lado do
mundo. Isso se manifesta em evidências que
vão desde o analfabetismo internacional
de Bush até o despreparo de empresários
e de profissionais que se lançam ao mercado
internacional despreparados para decifrar esses
códigos orientais e entender como funciona
a cabeça, o software dos povos. O etnocentrismo
ocidental e especialmente o norte-americano é
muito grande. Nos filmes de Hollywood, sempre
pontificam os wasps (sigla em inglês para
brancos, anglo-saxões e protestantes) esmurrando
ditadores africanos corruptos, traficantes latino-americanos,
membros da Yakuza japonesa ou das máfias
chinesas... Veja que até pasta de amendoim
o governo americano jogou para os afegãos
como donativo, o que revela uma visão tremendamente
etnocêntrica. Manteiga de amendoim, eu acho
que só os americanos comem.
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