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  Edição 171 - Outubro de 2001  

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“Tudo vai depender da atitude do consumidor americano”, condiciona o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da consultoria Tendências. Até os atentados, era o cartão de crédito da população dos Estados Unidos que vinha afastando o risco de recessão por lá, e, caso o trauma leve a uma suspensão nas compras, a situação pode ficar mais complicada. Uma notícia ruim: os números de setembro não foram nada animadores. As vendas no varejo despencaram 2,3% – muito acima da expectativa do mercado, que era de 0,8% – e atingiram o nível mais baixo desde 1992, quando esse índice começou a ser computado. Mas é preciso ter em mente que o mês passado foi o setembro negro, e é absolutamente normal que os americanos tenham ido menos às lojas, principalmente logo após a tragédia. “Com o tempo, o astral do consumidor melhora naturalmente”, acredita Gustavo Franco. É claro que uma nova paranóia, como a instaurada pelo bioterrorismo, complica mais as coisas.

Os Estados Unidos representam quase um terço da economia mundial e, seja lá o que acontecer com ela daqui para a frente, respinga em todo o resto do planeta. Apesar da cautela, em geral os economistas brasileiros estão otimistas e prevêem uma retomada relativamente rápida nos EUA, motivada pela injeção de capital do governo e pelos sucessivos cortes nas taxas de juros, provavelmente a partir da metade do próximo ano. “A recuperação vem mais rápido do que podemos imaginar”, prognostica Antônio Fraquelli, economista Fundação de Economia e Estatística (FEE), do Rio Grande do Sul.

O otimismo some quando o assunto é Argentina, que enfrenta uma crise profunda. “Ela perdeu muitas posições na escala de prioridades dos Estados Unidos e dos outros países desenvolvidos”, lembra Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC no Brasil. Ninguém sabe ao certo qual será o caminho que o país vizinho vai tomar. A aposta é que, em algum momento, o governo terá de desvalorizar o peso em relação ao dólar. Não há consenso, no entanto, de quão doloroso seria esse ajuste cambial. Para Maílson da Nóbrega, o abandono de um regime de paridade cambial sempre é complicado e gera empobrecimento e inflação – até por isso, o ex-ministro é dos poucos a duvidar que o governo de Fernando De la Rua opte pela desvalorização.

Na Argentina, a situação é ainda mais complicada do que era no Brasil, antes da crise cambial, já que as dívidas das empresas e das pessoas físicas estão todas em dólar. “O ajuste do peso vai gerar um movimento de especulação de curtíssimo prazo. Depois, com os fundamentos econômicos equilibrados, a Argentina pode voltar a crescer”, entende Gilmar Mendes Lourenço, coordenador do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).

O fato é que a situação incômoda do vizinho tem sérios reflexos aqui dentro – e não é só porque a Argentina é um dos principais mercados para os exportadores brasileiros. Os percalços dos hermanos vêm piorando a imagem de toda a região. Uma prova disso é o aumento substancial no risco-país desde os atentados terroristas – o Brasil foi a nação que teve o maior crescimento na taxa nos primeiros dias após o 11 de setembro. “Dois países foram os mais prejudicados pela reação aos atentados: o Afeganistão e o Brasil”, ironiza Guido Mantega, economista, professor da Fundação Getúlio Vargas e assessor econômico do PT. É claro que a culpa não é só da Argentina. O Brasil depende muito dos investimentos de fora para fechar o balanço das contas externas e, automaticamente, sofre bastante com uma redução no fluxo de capitais. É por isso que o mercado externo não vem enxergando o Brasil com bons olhos e, quando a situação complica, prefere aplicar seu dinheiro em países menos vulneráveis – fenômeno que pode se intensificar desta vez. Como assinala Maílson da Nobrega: “O ineditismo do atentado exacerba o medo e reduz o apetite pelo risco”.

Alguns exemplos práticos mostram como os investimentos externos devem cair. “Estamos em contato com uma grande empresa americana interessada em se instalar no Rio Grande do Sul que, devido aos atentados, deve demorar mais tempo para definir se vem ou não”, conta Anton Karl Biedermann, presidente da Agência Pólo-RS de atração de investimentos. No caso das empresas estrangeiras que estavam em contato com o governo gaúcho, as negociações também esfriaram desde os atentados, segundo José Carlos Moraes, secretário de Desenvolvimento. Já se esperava uma redução nos investimentos externos no país, neste ano, de US$ 30 bilhões para cerca de US$ 20 bilhões. Para o ano que vem, as projeções estão todas na casa de US$ 15 bilhões.

 
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