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Tudo vai depender da atitude do consumidor americano,
condiciona o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega,
sócio da consultoria Tendências. Até os
atentados, era o cartão de crédito da população
dos Estados Unidos que vinha afastando o risco de recessão
por lá, e, caso o trauma leve a uma suspensão
nas compras, a situação pode ficar mais complicada.
Uma notícia ruim: os números de setembro não
foram nada animadores. As vendas no varejo despencaram 2,3%
muito acima da expectativa do mercado, que era de 0,8%
e atingiram o nível mais baixo desde 1992, quando
esse índice começou a ser computado. Mas é
preciso ter em mente que o mês passado foi o setembro
negro, e é absolutamente normal que os americanos tenham
ido menos às lojas, principalmente logo após
a tragédia. Com o tempo, o astral do consumidor
melhora naturalmente, acredita Gustavo Franco. É
claro que uma nova paranóia, como a instaurada pelo
bioterrorismo, complica mais as coisas.
Os Estados Unidos representam quase um terço da economia
mundial e, seja lá o que acontecer com ela daqui para
a frente, respinga em todo o resto do planeta. Apesar da cautela,
em geral os economistas brasileiros estão otimistas
e prevêem uma retomada relativamente rápida nos
EUA, motivada pela injeção de capital do governo
e pelos sucessivos cortes nas taxas de juros, provavelmente
a partir da metade do próximo ano. A recuperação
vem mais rápido do que podemos imaginar, prognostica
Antônio Fraquelli, economista Fundação
de Economia e Estatística (FEE), do Rio Grande do Sul.
O otimismo some quando o assunto é Argentina, que enfrenta
uma crise profunda. Ela perdeu muitas posições
na escala de prioridades dos Estados Unidos e dos outros países
desenvolvidos, lembra Alexandre Bassoli, economista-chefe
do HSBC no Brasil. Ninguém sabe ao certo qual será
o caminho que o país vizinho vai tomar. A aposta é
que, em algum momento, o governo terá de desvalorizar
o peso em relação ao dólar. Não
há consenso, no entanto, de quão doloroso seria
esse ajuste cambial. Para Maílson da Nóbrega,
o abandono de um regime de paridade cambial sempre é
complicado e gera empobrecimento e inflação
até por isso, o ex-ministro é dos poucos
a duvidar que o governo de Fernando De la Rua opte pela desvalorização.
Na Argentina, a situação é ainda mais
complicada do que era no Brasil, antes da crise cambial, já
que as dívidas das empresas e das pessoas físicas
estão todas em dólar. O ajuste do peso
vai gerar um movimento de especulação de curtíssimo
prazo. Depois, com os fundamentos econômicos equilibrados,
a Argentina pode voltar a crescer, entende Gilmar Mendes
Lourenço, coordenador do Instituto Paranaense de Desenvolvimento
Econômico e Social (Ipardes).
O fato é que a situação incômoda
do vizinho tem sérios reflexos aqui dentro e
não é só porque a Argentina é
um dos principais mercados para os exportadores brasileiros.
Os percalços dos hermanos vêm piorando a imagem
de toda a região. Uma prova disso é o aumento
substancial no risco-país desde os atentados terroristas
o Brasil foi a nação que teve o maior
crescimento na taxa nos primeiros dias após o 11 de
setembro. Dois países foram os mais prejudicados
pela reação aos atentados: o Afeganistão
e o Brasil, ironiza Guido Mantega, economista, professor
da Fundação Getúlio Vargas e assessor
econômico do PT. É claro que a culpa não
é só da Argentina. O Brasil depende muito dos
investimentos de fora para fechar o balanço das contas
externas e, automaticamente, sofre bastante com uma redução
no fluxo de capitais. É por isso que o mercado externo
não vem enxergando o Brasil com bons olhos e, quando
a situação complica, prefere aplicar seu dinheiro
em países menos vulneráveis fenômeno
que pode se intensificar desta vez. Como assinala Maílson
da Nobrega: O ineditismo do atentado exacerba o medo
e reduz o apetite pelo risco.
Alguns exemplos práticos mostram como os investimentos
externos devem cair. Estamos em contato com uma grande
empresa americana interessada em se instalar no Rio Grande
do Sul que, devido aos atentados, deve demorar mais tempo
para definir se vem ou não, conta Anton Karl
Biedermann, presidente da Agência Pólo-RS de
atração de investimentos. No caso das empresas
estrangeiras que estavam em contato com o governo gaúcho,
as negociações também esfriaram desde
os atentados, segundo José Carlos Moraes, secretário
de Desenvolvimento. Já se esperava uma redução
nos investimentos externos no país, neste ano, de US$
30 bilhões para cerca de US$ 20 bilhões. Para
o ano que vem, as projeções estão todas
na casa de US$ 15 bilhões.
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