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  Edição 171 - Outubro de 2001  

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Medo, receio, insegurança, angústia, incerteza, pessimismo... Passados mais de 30 dias desde o maior atentado terrorista da história, continua impossível escapar de termos essencialmente negativos ao acompanhar o noticiário. E não é para menos. As imagens espetaculares de dois boeings se espatifando contra o World Trade Center e o posterior desmoronamento das torres do maior símbolo do capitalismo seguem vivas na cabeça de todo o mundo.

Para piorar, ainda não se sabe ao certo quão duradoura e abrangente será a contra-ofensiva americana e de seus aliados, nem se haverá outros ataques terroristas nos Estados Unidos ou em qualquer outro canto do planeta – o temor agora é o bioterrorismo. “Incerteza é exatamente o nome que se dá para esse processo onde não se trata de atribuir uma probabilidade para um evento, mas de não saber que evento pode ocorrer”, observa o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco.

Se existe uma área que esse cenário incerto afeta é a economia. É impossível saber o tamanho do estrago que a guerra vai causar no bolso da população mundial. Mesmo assim, em linhas gerais, já é possível retirar algumas conclusões:

– A turbulência mundial inaugurada pelos atentados vai agravar ainda mais uma situação de desaquecimento econômico nos Estados Unidos.
– A União Européia, cuja economia já vinha cambaleando, e o Japão, que há anos amarga desempenhos pífios no PIB, devem crescer ainda menos do que se esperava neste ano. No caso nipônico, é provável que haja decréscimo.
– A Argentina, cada vez mais dependente de capital externo e da boa vontade dos países desenvolvidos e dos organismos internacionais, corre sérios riscos de quebrar de vez, principalmente depois da derrota do governo nas eleições legislativas.
– O Brasil deve ter baixo crescimento econômico neste ano e no próximo. Os juros se manterão perto dos níveis atuais, e o real dificilmente vai apresentar uma valorização significativa diante do dólar.

Cientes de que os próximos meses serão de aperto, as empresas brasileiras e do Sul do país vivem a sua própria guerra, que ocorre a milhares de quilômetros de distância do Afeganistão e não envolve bombas, nem porta-aviões. Mas não deixa de ser uma batalha diária para evitar que a turbulência mundial faça os negócios ruírem. No fundo, há a esperança de que o futuro não seja tão negro quanto parece em alguns momentos e a idéia de que há boas oportunidades para se agarrar e, quem sabe, escapar da crise. A mais visível é a exportação, favorecida pela forte desvalorização do real em relação ao dólar ao longo deste ano. Além disso, o governo sinaliza que finalmente vai dar a devida atenção às vendas externas.

Pé no freio – Muitas batalhas da outra guerra, a das empresas, já vinham sendo travadas bem antes dos atentados nos Estados Unidos. Desde que a crise da energia e o desmoronamento argentino geraram uma enorme inversão de expectativas na economia brasileira e catapultaram a cotação do dólar diante do real, as companhias vêm revendo investimentos e cortando custos. Também já era possível sentir no Brasil os efeitos da desaceleração econômica mundial, especialmente dos EUA, com queda de investimentos externos e de pedidos de exportação. Sob essa ótica, os ataques terroristas foram a gota d’água. “Esses eventos apenas apressaram um período negativo no ciclo econômico mundial”, acredita o economista Paulo Rabello de Castro, da RC Consultoria. A dúvida é o tamanho dessa gota.

 

O que dizem os especialistas

Gustavo Franco

Ex-Presidente do Banco Central

Maílson da Nóbrega

Economista e ex-ministro da Fazenda

Paulo Rabello de Castro

Economista e sócio da RC Consultoria
"Eu não estou otimista com relação ao ano que vem. Haverá muita incerteza em torno dos rumos futuros da política econômica e também dúvidas sobre a capacidade do governo de manter os mesmos princípios que nortearam a sua política no último ano. A tendência é os juros subirem.” “As previsões estão excessivamente pessimistas. Vejo elementos positivos na crise: a rapidez dos bancos centrais para reduzirem os juros e o aumento dos gastos públicos. Isso deve reanimar a economia americana logo. No Brasil, a minha projeção é de crescimento de 2% do PIB neste ano e 2,5% no próximo.” “O ano que vem será particularmente difícil. As exportações precisariam crescer de 15% a 20% para equilibrar as contas externas, mas não devem aumentar mais que 6%. O dólar deve chegar a R$ 3, e o PIB deve crescer 1,7%. Os juros vão se manter próximos dos níveis atuais.”
Com reportagem de Felipe Polydoro, Márcio Fernandes e Marcelo Träsel
 
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