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Edição 170 - Setembro de 2001  

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Jório Dauster
Economista e ex-embaixador do Brasil na Comunidade Européia
“Sei que estou na contracorrente”, sorriu o embaixador Jório Dauster, 63, ao comentar a entrevista que acabara de conceder a AMANHÃ, quatro dias depois dos atentados aos EUA. Em uma hora de conversa, o ex-embaixador do Brasil junto às Comunidades Européias e ex-negociador da dívida externa destoou do timbre pessimista de muitas previsões para a economia do Brasil e do mundo. “Posso estar enganado, mas não compartilho de muito do que está sendo dito. Sou assim mesmo, sou de correr riscos”, definiu-se o economista que até bem pouco tempo presidia a poderosa Vale do Rio Doce. Riscos parecem, mesmo, não assustar Jório, que, além de se lançar (com reconhecido êxito) à missão de traduzir J.D. Salinger e Nabokov, juntou-se a um fundo que vai buscar recursos no exterior para investir em empresas brasileiras. Uma tarefa que, depois deste setembro negro, ficará possivelmente mais difícil.
Eugênio Esber


A cena de Nova Iorque em chamas, justamente quando o sr. está lançando um fundo destinado a atrair investidores externos para empresas brasileiras, não lhe deixou seriamente preocupado?
Aqueles eventos foram chocantes e abalaram a todos nós. Mas acho que a gente tende a exagerar um pouco. É claro que foi brutal, foi um evento histórico... No entanto, note bem, a bolsa americana recomeça, a economia não pára com esse choque, a marcha dos capitais terá de continuar. Eu não acredito que, a longo prazo, haja efeito mais sério na economia mundial. Na política, sim, é possível um impacto maior.

Muitos analistas prevêem uma elevação da taxa de juros no mundo.
Não sei por quê. Não vejo nenhuma razão para que os fundamentos sejam alterados. Se você tivesse o grande risco, então sim. Mas o único grande evento capaz de mexer com toda a economia mundial, em larga escala, seria algum incidente que viesse a atingir a produção de petróleo no Oriente Médio. E isso não está em jogo. Se há alguém que entende de petróleo no mundo é Bush e essa turma que está no governo americano. É claro que vai haver, e com toda a razão, uma caça dos EUA às origens do terrorismo. Mas não acho que algum país árabe acobertará os terroristas, até porque sabem muito bem que não podem hostilizar os Estados Unidos. Assim, o risco do petróleo, para mim, não está colocado.

“Por algum tempo, vai ser CNN o dia inteiro... a reação americana contra o terror... Agora, não dá para discutir Alca, por exemplo. Mas depois tudo terá de voltar ao normal”

Mas há a questão do abalo na confiança dos mercados.
Esse impacto existe, evidentemente. A questão é medir o abalo psicológico do consumidor americano. Isso é quase impossível de se saber ainda. Antes dos atentados, o país estava caminhando para uma possível recessão. A curto prazo, vejo um efeito mais concreto na indústria do turismo, que deve perder negócios – especialmente em razão da variável psicológica. Nada, no entanto, que possa abalar o setor. É bem possível uma certa desvalorização do dólar frente ao euro e ao iene, mas isso também era algo previsível porque os Estados Unidos estão com um déficit de conta corrente que só é comparável ao do Brasil. Em ambos, está na casa dos 4% do PIB. Na visão de muita gente, um certo enfraquecimento do dólar, hoje, poderia até gerar um novo calor na economia americana, com o estímulo às exportações.

O problema é que a economia mundial já vinha em desaceleração...
De fato, no Brasil, a gente imaginava uma situação muito favorável, com crescimento de 4% a 4,5% – e vamos acabar com uma coisa medíocre da ordem de 2%. No mundo todo ocorre algo parecido. A freada americana foi Maior do que muita gente esperava. O Japão não consegue escapar. A Europa tem um desempenho um pouco frustrante. Mas nesse cenário há oportunidades. E uma das coisas que a gente tem de fazer, especialmente em fundos que vão captar recursos no exterior, é saber explicar melhor o Brasil. É preciso ter um trabalho permanente. Temos de fazer um corpo a corpo com as agências de rating. Não esqueçamos que países como o Brasil têm ótimas oportunidades. Porque não existem – ou são raríssimas – as possibilidades de um retorno de 20% ao ano, nos Estados Unidos. É por isso que existem investimentos fora dos EUA. Porque se o país tivesse todas as possibilidades, aí os investidores nao iam sair nunca de lá. O dinheiro é preguiçoso.

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