As razões são as mais diversas: sonho de autonomia,
desemprego na meia-idade, dificuldade de ingressar no mercado
de trabalho, adesão a algum programa de demissão
voluntária. Formal ou informalmente, um batalhão
de brasileiros tem se aventurado numa atividade independente.
Os números estão aí para provar: de cada
oito adultos, um começa um negócio próprio
taxa altíssima ante os padrões mundiais.
A pesquisa que colocou o Brasil no pódio do empreendedorismo
foi realizada no ano passado, em 11 países, pela Babson
College e pela London Business School duas instituições
de ensino, uma norte-americana, a outra inglesa. O resultado
mostra que, nos Estados Unidos, por exemplo, a proporção
é de um empreendimento para cada dez adultos. Na Alemanha,
o índice cai para apenas um em 25. Nesse contexto, a
revolução do empreendedorismo deveria ser uma
boa notícia de como o famoso jeitinho brasileiro
subverteu a falta de oportunidades. Não é.
Um estudo coordenado por Marco Aurélio Bedê, gerente
de pesquisas do Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), traça
um panorama desolador. No primeiro ano de vida, 35% das empresas
fecham as portas, índice que sobe para 46% no segundo
ano e atinge 56% no terceiro. As razões para o fracasso
do negócio também foram questionadas na pesquisa
do Sebrae. As principais: falta de demanda (30%), falta de crédito
e capital de giro (25%) e problemas pessoais (16%). Ou seja:
nada que três meses de curso, uma boa assessoria ou um
investimento extra não pudessem solucionar.
Crédito, eis a questão O problema
é, justamente, conseguir o investimento extra.
Aí, começa o martírio de muitos empresários,
ou candidatos a empresários (veja texto Onde buscar
e conseguir capital). No ano passado, foram
liberados no país R$ 10 bilhões em créditos,
três vezes mais do que em 1999 mesmo assim, foi
insuficiente. Estima-se que a necessidade de financiamentos
ultrapasse os R$ 40 bilhões. Para contribuir com essa
distribuição de renda, operam no Brasil
50 microbancos comunitários que dão financiamentos
de até R$ 10 mil.
O Banco do Povo, uma organização que opera em
diversas cidades, é um deles. Em Santo André,
na Grande São Paulo, por meio de uma parceria entre prefeitura,
sindicatos e a Associação Comercial e Industrial
do ABC paulista, a instituição concedeu empréstimos
para 184 empresários, em 1998, no valor total de R$ 420
mil. Só até maio deste ano, já havia emprestado
R$ 3,1 milhões para 1,3 mil empreendedores. Para ter
acesso aos créditos, que vão de R$ 300 a R$ 10
mil, é só comprovar que o candidato mantém
um empreendimento em atividade, formal ou não. Antes
de emprestar recursos, fazemos um levantamento sobre o potencial
de resultados da empresa, explica Almir da Corte Pereira,
gerente executivo da agência de Santo André.
*Colaboraram: Gilson Camargo, Guilherme Diefenthaeler e Irene
Zischler (da Suíça) |