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A questão agrícola vai ser resolvida
nesta nova rodada da OMC?
Não sou otimista. Primeiro, será
necessário incluir essas questões
todas de uma forma adequada, com um mandato claro
indicando que todos os mecanismos de distorção
devem ser suprimidos. E isso ainda não
se obteve. No momento, há uma negociação
na agricultura, que começou no ano passado,
em decorrência de um mandato que vem da
Rodada do Uruguai em 1994. Esse mandato é
limitado, porque diz apenas que o objetivo é
a liberalização gradual do comércio
agrícola. É pouco. Numa negociação
satisfatória, você deveria ter claramente
como alvo a supressão de todos os mecanismos,
que são de três ordens: os subsídios
internos à produção, as barreiras
de acesso dos produtos agrícolas aos mercados
de todos os tipos, inclusive com tarifas
muito elevadas, que chegam a 500% e os
subsídios à exportação
de produtos agrícolas dos países
ricos. Isso tem de ser dito claramente. Até
agora, não foi. Países como Brasil
e Argentina advogam que, se a OMC quer lançar
uma nova rodada, se ela não se satisfaz
apenas com o prosseguimento das atuais negociações
e se o argumento é de que se deve ampliar
o escopo, seria preciso que a negociação
agrícola tivesse o seu objetivo ampliado.
Mas essa pretensão não foi aceita
até agora pela União Européia,
pelo Japão, pela Coréia do Sul,
e há sinais de que os norte-americanos
também estejam se afastando dessa posição.
Para resumir, não há nenhuma certeza,
nesse momento, de que se logre ampliar o foco
na questão agrícola.
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Brasil precisaria de um sistema mais ágil
(nas negociações junto à
OMC). Nossas estruturas burocráticas
são muito lentas e muito pesadas
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As negociações do Mercosul com
a União Européia podem facilitar
uma ampliação do alcance de acordos
entre os dois blocos?
Espero que sim. No caso do Mercosul com a União
Européia, sempre houve essasdificuldades
com a agricultura. Espero que, dessa vez, possa
se encontrar uma maneira de contornar o problema.
Minha impressão é que, na negociação
com a Europa, o problema vem mais dos produtos
argentinos e uruguaios que dos brasileiros. No
entanto, é preciso ver um quadro mais geral
que possibilidades existem de um acordo
do Mercosul com a Europa, que possa ao menos liberalizar
as áreas em que isso é viável,
deixando para depois, talvez, os pontos mais difíceis.
No último encontro dos dois blocos,
em março, a União Européia
se mostrou disposta a avançar nas negociações
exatamente na área agrícola, o que
deixou os negociadores do Mercosul muito satisfeitos.
Eles são capazes disso?
Limitadamente, sim. A União Européia
tem razões próprias para querer
aos poucos evoluir em matéria agrícola,
porque eles já estão gastando praticamente
metade do seu orçamento com os subsídios
à agricultura. E isso vai se agravar muito
com as negociações para a ampliação
da UE com seis novos países, dos quais
um, a Polônia, é grande produtor
agrícola. E todos vão querer participar
dos subsídios. Então, é óbvio
que a UE terá de mudar essa postura. Mas
não é de uma hora para outra. Vai
demorar, porque ainda hoje muitos setores em todos
os países europeus, sobretudo na França,
dependem da agricultura. Seria ingenuidade pensar
que possa haver alguma evolução
revolucionária nessa área .
Como o sr. encara as negociações
da União Européia com o Mercosul
para a formação de uma associação
birregional?
Acho positivo. E isso não tem nada de incompatível
com outras iniciativas, como a Alca. Prova é
que o México, que já faz parte do
Nafta, também assinou um acordo de livre
comércio com a Europa. O México,
aliás, tem perto de 20 acordos de livre
comércio com os mais diferentes países.
Uma zona de livre comércio é apenas
a eliminação das barreiras tarifárias
ou não-tarifárias em cerca de 85%
do intercâmbio. Sempre fica de fora uma
parte.
Negociando ao mesmo tempo com a União Européia
e com a Alca, o Mercosul pode tirar vantagem,
jogando um contra o outro?
É perfeitamente possível explorar
o interesse que têm, tanto os Estados Unidos
quanto a Europa, numa zona de livre comércio
com o Mercosul, e daí extrair concessões.
A própria negociação com
a Europa se tornou mais dinâmica desde que
se verificou que a Alca estava caminhando. Isso
já é um sinal de que ninguém
quer ficar excluído de um mercado como
o do Mercosul, com esse potencial de desenvolvimento.
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