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Edição 168 - Julho de 2001  

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Rubens Ricupero
Secretário-geral da Unctad
É toma lá, dá cá. Se for confirmada uma nova rodada de negociações arbitrada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil deve ser cauteloso na hora de falar em concessões. “Você só deve discutir interesses alheios, se os outros países, proporcionalmente, aceitarem os seus”, defende o brasileiro Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e, hoje, secretário-geral da UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Fundada nos anos 60, a entidade cuida de estratégias para o desenvolvimento de países periféricos. Numa tarde ensolarada da primavera suíça, Ricupero recebeu AMANHÃ para uma entrevista. Do seu escritório, no 9o andar de um dos prédios que compõem o Palais des Nations, sede da ONU em Genebra, é possível avistar a sede da OMC, a Organização Mundial do Comércio. E a geografia permite que, pelo menos no plano físico, a organização que auxilia os países mais pobres fique no topo do morro – e olhe de cima a instituição controladora do megacomércio internacional à beira do lago. Nessa conversa, o ex-ministro fala sobre a OMC, as negociações do Mercosul com outros blocos econômicos e dá a sua receita para a economia brasileira, fundada no reforço às exportações.
Irene Zwetsch, de Genebra


É grande a expectativa ante uma nova rodada da OMC. Que bandeiras o Brasil deverá levantar? O sr. acredita que essa nova rodada sai?

Há otimismo de que ela possa se realizar. O problema é saber com que temas e em que nível de ambição. Muitas questões ainda não estão resolvidas. Por exemplo: investimentos e competição, áreas propriamente comerciais, deveriam ou não ser incluídos nas discussões? Os europeus querem isso, os japoneses também, os americanos não têm muito entusiasmo e há países em desenvolvimento que são contrários, como Índia, Malásia e Egito. Nessas áreas, não é possível, no momento, fazer prognósticos. Mas, se a rodada sair, é importante que o Brasil faça duas coisas. De um lado, coloque na mesa propostas em todos os campos que são do seu interesse prático, como os subsídios dos países ricos à agricultura, o problema da aplicação do antidumping ao aço e das medidas compensatórias contra o subsídio, que os americanos têm utilizado nesse caso. Sobretudo agora, que há indícios de uma exacerbação do protecionismo americano. É preciso que o Brasil procure discutir as barreiras sanitárias e fitossanitárias, como essas que foram aplicadas contra nós, injustamente, no caso da carne. Quer dizer, devemos apresentar um conjunto amplo de propostas, cobrindo todas as áreas em que temos acesso difícil ao mercado. E a segunda dimensão é de que o Brasil tente adequar o que considerar relevante nas negociações ao que efetivamente puder conquistar. Por exemplo, se não conseguir uma ampliação nos objetivos em agricultura, deve pensar duas vezes antes de aceitar a inclusão de temas propostos pelos europeus. Do contrário, a negociação fica desequilibrada. A indústria americana tem agora uma coalizão poderosa, que está pleiteando a eliminação de todas as tarifas para uma série de produtos industrializados. São dez ou 12 setores, de brinquedos a químicos. No entanto, os mesmos Estados Unidos acabaram de abrir essa nova frente contra o aço, que o Brasil exporta e que também é um produto industrializado. Não teria sentido o Brasil aceitar a inclusão de negociações sobre setores nos quais não está em condição tão boa quanto os americanos, ao mesmo tempo em que os americanos, na área em que somos competitivos – produzimos um dos aços mais baratos do mundo –, estão nos ameaçando. Enfim, você só deve aceitar a discussão de interesses alheios, se eles, proporcionalmente, aceitarem os seus. Não se deve fazer nenhuma concessão que não seja compensada por uma concessão equivalente.

“Se não conseguir um avanço na agricultura,
o Brasil deve pensar duas vezes antes de aceitar
a inclusão de temas
propostos pelos europeus”

Há uma série de outras polêmicas que, certamente, virão à tona. O Brasil tem uma equipe negociadora em condições de colocar tudo isso na mesa?
Sempre tivemos uma das melhores delegações. O que falta, às vezes, é uma estrutura administrativa que permita um apoio técnico permanente em Genebra. Eu testemunhei isso quando era o embaixador aqui, na Rodada doUruguai, e só consegui por alguns meses um economista do Ministério da Agricultura. O Brasil precisaria de um sistema mais ágil, mas flexível, para que em cada área técnica – como agricultura, serviços, problemas financeiros, propriedade intelectual – fosse possível, no momento em que uma negociação sensível estivesse ocorrendo, contar com o apoio permanente de técnicos competentes, economistas, juristas... As estruturas burocráticas brasileiras são muito pesadas e muito lentas nesses momentos. Também acho que é preciso melhorar o contato e a colaboração com o setor privado. Eu nunca recebi aqui uma delegação empresarial brasileira.

 
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