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É grande a expectativa ante uma nova rodada
da OMC. Que bandeiras o Brasil deverá levantar?
O sr. acredita que essa nova rodada sai?
Há otimismo de que ela possa se realizar.
O problema é saber com que temas e em que
nível de ambição. Muitas
questões ainda não estão
resolvidas. Por exemplo: investimentos e competição,
áreas propriamente comerciais, deveriam
ou não ser incluídos nas discussões?
Os europeus querem isso, os japoneses também,
os americanos não têm muito entusiasmo
e há países em desenvolvimento que
são contrários, como Índia,
Malásia e Egito. Nessas áreas, não
é possível, no momento, fazer prognósticos.
Mas, se a rodada sair, é importante que
o Brasil faça duas coisas. De um lado,
coloque na mesa propostas em todos os campos que
são do seu interesse prático, como
os subsídios dos países ricos à
agricultura, o problema da aplicação
do antidumping ao aço e das medidas compensatórias
contra o subsídio, que os americanos têm
utilizado nesse caso. Sobretudo agora, que há
indícios de uma exacerbação
do protecionismo americano. É preciso que
o Brasil procure discutir as barreiras sanitárias
e fitossanitárias, como essas que foram
aplicadas contra nós, injustamente, no
caso da carne. Quer dizer, devemos apresentar
um conjunto amplo de propostas, cobrindo todas
as áreas em que temos acesso difícil
ao mercado. E a segunda dimensão é
de que o Brasil tente adequar o que considerar
relevante nas negociações ao que
efetivamente puder conquistar. Por exemplo, se
não conseguir uma ampliação
nos objetivos em agricultura, deve pensar duas
vezes antes de aceitar a inclusão de temas
propostos pelos europeus. Do contrário,
a negociação fica desequilibrada.
A indústria americana tem agora uma coalizão
poderosa, que está pleiteando a eliminação
de todas as tarifas para uma série de produtos
industrializados. São dez ou 12 setores,
de brinquedos a químicos. No entanto, os
mesmos Estados Unidos acabaram de abrir essa nova
frente contra o aço, que o Brasil exporta
e que também é um produto industrializado.
Não teria sentido o Brasil aceitar a inclusão
de negociações sobre setores nos
quais não está em condição
tão boa quanto os americanos, ao mesmo
tempo em que os americanos, na área em
que somos competitivos produzimos um dos
aços mais baratos do mundo , estão
nos ameaçando. Enfim, você só
deve aceitar a discussão de interesses
alheios, se eles, proporcionalmente, aceitarem
os seus. Não se deve fazer nenhuma concessão
que não seja compensada por uma concessão
equivalente.
Se
não conseguir um avanço na agricultura,
o Brasil deve pensar duas vezes antes de aceitar
a inclusão de temas
propostos pelos europeus |
Há uma série de
outras polêmicas que, certamente, virão
à tona. O Brasil tem uma equipe negociadora
em condições de colocar tudo isso
na mesa?
Sempre tivemos uma das melhores delegações.
O que falta, às vezes, é uma estrutura
administrativa que permita um apoio técnico
permanente em Genebra. Eu testemunhei isso quando
era o embaixador aqui, na Rodada doUruguai, e
só consegui por alguns meses um economista
do Ministério da Agricultura. O Brasil
precisaria de um sistema mais ágil, mas
flexível, para que em cada área
técnica como agricultura, serviços,
problemas financeiros, propriedade intelectual
fosse possível, no momento em que
uma negociação sensível estivesse
ocorrendo, contar com o apoio permanente de técnicos
competentes, economistas, juristas... As estruturas
burocráticas brasileiras são muito
pesadas e muito lentas nesses momentos. Também
acho que é preciso melhorar o contato e
a colaboração com o setor privado.
Eu nunca recebi aqui uma delegação
empresarial brasileira.
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