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Edição 166 -Maio de 2001  

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Romeu de Bruns Neto e Consuelo Bassanesi

Uma sala de meditação. Pequena, apenas seis lugares, mas com espaço suficiente para você se sentir confortável, relaxar a mente e os músculos. Da janela, dá para se ver o lago com chafariz e o jardim. A cor azul das paredes e a decoração com motivos orientais inspiram tranqüilidade. Para reforçar a atmosfera calma, é possível escolher entre CDs e vídeos com técnicas de relaxamento. Não, esse não é um mosteiro moderno, ou algum tipo de spa mental. O recanto em questão fica no departamento mais “nervoso” da indústria de perfumes e cosméticos O Boticário, do Paraná.

Os 58 funcionários dos dois call-centers (o Serviço de Atendimento ao Consumidor e o Serviço de Atendimento à Franquia) vivem sob condições estressantes. Isso porque, além do desgaste natural no trato com o público, o atendente deve alcançar metas de produtividade. Passa cinco horas e meia por dia falando ao telefone com clientes e com franqueados. “Nessa área, há muita pressão, mesmo que a pessoa do outro lado da linha não esteja brava”, explica a coordenadora do Serviço de Atendimento à Franquia de O Boticário, Sandra Gnatta.

A Sala de Harmonização, como foi batizado o ambiente inaugurado em janeiro passado, veio para aliviar a tensão. A idéia surgiu a partir de uma visita à paulista Atento, uma das maiores operadoras brasileiras de call-center. O custo de implantação foi pequeno: cerca de R$ 2 mil. O fisioterapeuta de O Boticário acompanhou o projeto, que incluiu o treinamento dos funcionários sobre como tirar o melhor proveito do lugar.

“É difícil mensurar os resultados. Mas a gente percebe que o retorno é muito positivo. Às vezes, cinco minutos na sala são suficientes para recarregar as energias”, afirma Sandra. Um detalhe curioso: logo que entra na Sala de Harmonização, o funcionário se depara com um espelho. É para que ele veja como chegou e compare com a maneira como retorna para o trabalho.

Espiritualidade – No mundo corporativo moderno, não são apenas as pessoas que começam a se “enxergar”. Depois de duas décadas envoltas em programas de downsizing e reengenharia, as organizações dão os primeiros passos na redescoberta dos seres humanos que transitam por seus corredores. Não por bondade apenas. Nos Estados Unidos, estima-se que as perdas da indústria com o estresse cheguem aos US$ 300 bilhões anuais. É muito. Lá, entre 75% e 78% da população sofrem de estresse profissional, índice que no Brasil já chega a 70%.

“Há uma tendência crescente de incorporar a espiritualidade ao local de trabalho”, afirma, em entrevista a AMANHÃ, o médico e psiquiatra Paul Rosch, presidente do Instituto Americano de Estresse e uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Entenda-se, claro, a espiritualidade em seu sentido mais amplo, como uma forma de autoconhecimento, e não o vínculo a alguma religião. Uma série de estudos coordenados por Rosch, nos Estados Unidos, avaliando a maneira com que se lida com o estresse, detectou que 93% das pessoas que adotam alguma prática espiritual apresentam melhora no quadro clínico. “O estresse é conseqüência inevitável da condição humana. O truque é aprender a distinguir o positivo do negativo, de forma a usar seu tempo e seu talento da melhor maneira possível, em vez de sair por aí como Dom Quixote, enfrentando moinhos de vento”, filosofa Rosh.

Discípulo do pesquisador que cunhou o termo estresse – o fisiologista Hans Selye, em 1936 –, Rosch vai estar em junho, em Porto Alegre, participando do primeiro congresso mundial da International Stress Management Association (Isma). Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos, presente em 13 países, que tem como principal objetivo “tornar o mundo um local menos estressante“, como define sua presidente no Brasil, Ana Maria Rossi.

A missão não é nada fácil. Segundo o pioneiro Selye, estresse decorre de qualquer mudança provocada nas rotinas ou no ambiente e que exige adaptação da pessoa. Dessa forma, pode ser bom ou ruim, dependendo do temperamento. Falar em público, por exemplo, é encarado por alguns como um desafio estimulante e por outros como uma experiência aterrorizante.

Foi pensando nos diferentes impactos que as mudanças podem ter sobre a vida profissional que o psiquiatra norte-americano Richard Rahe desenvolveu o teste que vai mostrar no congresso da capital gaúcha. A sondagem de Rahe procura apontar por que certos indivíduos conseguem manter o equilíbrio e a concentração sob níveis altíssimos de estresse, enquanto outros perdem a compostura diante de situações corriqueiras. “O que torna esse teste especial é que ele permite conhecer as estratégias com que se deve lidar com o estresse”, adianta Ana Maria.

A principal causa para o impacto negativo ou positivo do estresse profissional está na escolha da carreira, entende Victor Martínez, diretor da Thomas International, multinacional que analisa perfis de executivos. É por isso, justifica ele, que há os que despendem 12 horas por dia no escritório sem se cansar. “É comum encontrarmos pessoas estressadas porque não estão na área para a qual têm mais aptidão”, afirma Martínez. Na área de vendas, por exemplo, a Thomas detecta que apenas 50% dos profissionais têm perfil vendedor.
 
 
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