Uma sala de meditação. Pequena, apenas seis
lugares, mas com espaço suficiente para você se
sentir confortável, relaxar a mente e os músculos.
Da janela, dá para se ver o lago com chafariz e o jardim.
A cor azul das paredes e a decoração com motivos
orientais inspiram tranqüilidade. Para reforçar
a atmosfera calma, é possível escolher entre CDs
e vídeos com técnicas de relaxamento. Não,
esse não é um mosteiro moderno, ou algum tipo
de spa mental. O recanto em questão fica no departamento
mais nervoso da indústria de perfumes e cosméticos
O Boticário, do Paraná.
Os 58 funcionários dos dois call-centers (o Serviço
de Atendimento ao Consumidor e o Serviço de Atendimento
à Franquia) vivem sob condições estressantes.
Isso porque, além do desgaste natural no trato com o
público, o atendente deve alcançar metas de produtividade.
Passa cinco horas e meia por dia falando ao telefone com clientes
e com franqueados. Nessa área, há muita
pressão, mesmo que a pessoa do outro lado da linha não
esteja brava, explica a coordenadora do Serviço
de Atendimento à Franquia de O Boticário, Sandra
Gnatta.
A Sala de Harmonização, como foi batizado o ambiente
inaugurado em janeiro passado, veio para aliviar a tensão.
A idéia surgiu a partir de uma visita à paulista
Atento, uma das maiores operadoras brasileiras de call-center.
O custo de implantação foi pequeno: cerca de R$
2 mil. O fisioterapeuta de O Boticário acompanhou o projeto,
que incluiu o treinamento dos funcionários sobre como
tirar o melhor proveito do lugar.
É difícil mensurar os resultados. Mas a
gente percebe que o retorno é muito positivo. Às
vezes, cinco minutos na sala são suficientes para recarregar
as energias, afirma Sandra. Um detalhe curioso: logo que
entra na Sala de Harmonização, o funcionário
se depara com um espelho. É para que ele veja como chegou
e compare com a maneira como retorna para o trabalho.
Espiritualidade No mundo corporativo moderno,
não são apenas as pessoas que começam a
se enxergar. Depois de duas décadas envoltas
em programas de downsizing e reengenharia, as organizações
dão os primeiros passos na redescoberta dos seres humanos
que transitam por seus corredores. Não por bondade apenas.
Nos Estados Unidos, estima-se que as perdas da indústria
com o estresse cheguem aos US$ 300 bilhões anuais. É
muito. Lá, entre 75% e 78% da população
sofrem de estresse profissional, índice que no Brasil
já chega a 70%.
Há uma tendência crescente de incorporar
a espiritualidade ao local de trabalho, afirma, em entrevista
a AMANHÃ, o médico e psiquiatra Paul Rosch, presidente
do Instituto Americano de Estresse e uma das maiores autoridades
mundiais no assunto. Entenda-se, claro, a espiritualidade em
seu sentido mais amplo, como uma forma de autoconhecimento,
e não o vínculo a alguma religião. Uma
série de estudos coordenados por Rosch, nos Estados Unidos,
avaliando a maneira com que se lida com o estresse, detectou
que 93% das pessoas que adotam alguma prática espiritual
apresentam melhora no quadro clínico. O estresse
é conseqüência inevitável da condição
humana. O truque é aprender a distinguir o positivo do
negativo, de forma a usar seu tempo e seu talento da melhor
maneira possível, em vez de sair por aí como Dom
Quixote, enfrentando moinhos de vento, filosofa Rosh.
Discípulo do pesquisador que cunhou o termo estresse
o fisiologista Hans Selye, em 1936 , Rosch vai
estar em junho, em Porto Alegre, participando do primeiro congresso
mundial da International Stress Management Association (Isma).
Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos, presente em 13
países, que tem como principal objetivo tornar
o mundo um local menos estressante, como define sua presidente
no Brasil, Ana Maria Rossi.
A missão não é nada fácil. Segundo
o pioneiro Selye, estresse decorre de qualquer mudança
provocada nas rotinas ou no ambiente e que exige adaptação
da pessoa. Dessa forma, pode ser bom ou ruim, dependendo do
temperamento. Falar em público, por exemplo, é
encarado por alguns como um desafio estimulante e por outros
como uma experiência aterrorizante.
Foi pensando nos diferentes impactos que as mudanças
podem ter sobre a vida profissional que o psiquiatra norte-americano
Richard Rahe desenvolveu o teste que vai mostrar no congresso
da capital gaúcha. A sondagem de Rahe procura apontar
por que certos indivíduos conseguem manter o equilíbrio
e a concentração sob níveis altíssimos
de estresse, enquanto outros perdem a compostura diante de situações
corriqueiras. O que torna esse teste especial é
que ele permite conhecer as estratégias com que se deve
lidar com o estresse, adianta Ana Maria.
A principal causa para o impacto negativo ou positivo do estresse
profissional está na escolha da carreira, entende Victor
Martínez, diretor da Thomas International, multinacional
que analisa perfis de executivos. É por isso, justifica
ele, que há os que despendem 12 horas por dia no escritório
sem se cansar. É comum encontrarmos pessoas estressadas
porque não estão na área para a qual têm
mais aptidão, afirma Martínez. Na área
de vendas, por exemplo, a Thomas detecta que apenas 50% dos
profissionais têm perfil vendedor. |