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Como o trabalho será
visto no novo milênio?
Estamos passando de uma fase na qual o trabalho
era um dever para outra em que ele é um
direito. As pessoas têm o direito de trabalhar
e de ter trabalho digno. A sociedade está
saindo de uma época dominada pelas forças
do mercado, que se mostraram insuficientes para
atender às necessidades do cidadão.
A insegurança ronda o mundo, ninguém
está tranqüilo em seu trabalho, as
desigualdades vêm se agravando. O mundo
se fragmentou entre uns poucos (e grandes) vencedores
e muitas pessoas que estão perdendo. Nesse
contexto, a Terceira Via apareceu como uma maneira
de aumentar a responsabilidade social das democracias.
Mas é um conceito paternalista. É
o que mostro em meu livro, Global Labour Flexibility.
O Brasil está se aproximando da Terceira
Via?
Sim, o Brasil parece mesmo estar flertando com
a Terceira Via, e vejo que há algum paternalismo
no pensamento vigente. A Terceira Via reflete
uma resposta social-democrata à crise de
insegurança e injustiça. Mas ela
será apenas uma fase, já que sua
mecânica de integração social
cria novas formas de insegurança e injustiça.
Acredito que precisamos organizar boas sociedades
baseadas em sistemas mais fortes de distribuição
de renda, que reduzam ainda mais a remuneração
inaceitável e a imensa desigualdade.
Como
o sr. vê a situação do Brasil?
O país tem desigualdades sociais incrivelmente
grandes e que atrapalham o crescimento econômico.
E tem condições de diminuir essas
desigualdades, a partir da redistribuição
de riquezas. Pode fazer isso com ações
do governo e iniciativas da sociedade. O retorno
do capital está seguindo cada vez mais
para o topo da pirâmide. É preciso
mudar os mecanismos de ganho. Eles têm de
ser bem distribuídos, para que circule
mais capital em todos os setores. O governo poderia
criar um imposto que funcionasse como um fundo
de investimento social. A partir daí, o
capital chegará a setores que hoje não
se beneficiam dele. O segundo ponto, que já
está sendo realizado pelo poder público,
é a renda mínima. É uma iniciativa
que pode efetivamente reduzir a pobreza, diminuir
as desigualdades e aumentar o número de
crianças na escola. O programa de renda
mínima deve ter abrangência nacional.
De quanto deve ser o valor concedido a cada
família pelo programa de renda mínima?
É importante que cada cidade tenha um valor
de renda mínima adequado à sua realidade.
Essa forma de aplicar recursos está sendo
extremamente bem-sucedida no Brasil, porque faz
o dinheiro, o lucro da produção
capitalista, chegar às pessoas pobres.
Mas é muito importante, repito, que o esquema
não se torne paternalista, que não
seja apenas um trunfo nas mãos de políticos
locais. O programa de renda mínima deve
ser gerido pelo governo federal e administrado
com transparência. Deve ir realmente para
quem precisa, em vez de acabar em outros bolsos.
O
sr. tocou na questão da administração
de recursos públicos e da corrupção.
Como vê esse problema no Brasil?
Quanto mais local for o sistema, maior o risco
de corrupção, porque isso aumenta
o poder de quem dá o trabalho, abrindo
espaço para o paternalismo e o clientelismo.
Qualquer sistema que se sustente num esquema altamente
descentralizado está fadado a ter problemas
do gênero. E combater o clientelismo é,
afinal de contas, um desafio conhecido no Brasil.
A política clientelista se reflete na própria
história do país. Nações
com essa característica estãotendendo
a descentralizar sua política social, o
que infelizmente fortalece o poder local e dá
oportunidade aos governantes para tomar decisões
arbitrárias. Também permite que
fundos financeiros do poder federal passem para
as mãos de poderosos grupos locais, incluindo
as chamadas organizações religiosas,
que são numerosas nos regimes democráticos.
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