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A indústria têxtil brasileira já
se recuperou do tombo que levou com a invasão
dos produtos asiáticos?
Eu diria que ela está fazendo a lição
de casa. E faz um trabalho silencioso, mas muito
importante. O Brasil tem forte vocação
para a área têxtil, particularmente
para o segmento da moda. Porque o brasileiro é
muito criativo. Estamos começando a ser
percebidos por mercados muito desenvolvidos no
alto circuito da moda. Nova Iorque, Milão,
Paris, Londres já vêem a moda brasileira
como produto consistente. Não que o volume
de negócios no vestuário seja muito
elevado. Mas, pelas perspectivas que oferece,
dá sinais claros de que estão nos
olhando como a bola da vez, um supridor confiável
de qualidade. A empresa brasileira se preparou
e vai ocupar lugar de destaque na indústria
têxtil mundial. Claro que há problemas
para resolver. No passado, conseguimos responder
por 1% do comércio internacional de têxteis.
É um número pequeno, mas mais significativo
do que o atual. Por falta de condições
de competição, o setor se recolheu.
E não é que falte habilidade às
nossas fábricas. O diabo é que exportamos
muitos impostos. Enquanto não houver uma
reforma tributária que elimine essa incidência
de tributos em cascata, que afeta os preços
exportados, teremos dificuldades de crescer como
poderíamos.

Como o sr. avaliou a agilidade do governo
em proteger a empresa nacional?
Vale dizer que só vencemos a invasão
dos asiáticos porque o governo foi eficiente
e tomou uma série de medidas que não
servem para proteger uma eventual incapacidade
nossa, mas para coibir os abusos que existiam.
Somos extremamente favoráveis à
abertura de fronteiras, mas queremos que se coíbam
práticas desleais de comércio, como
acontecia com os têxteis. No Brasil, houve
muito contrabando, e muita coisa foi importada
com subfaturamento. O governo tornou as fronteiras
mais rigorosas e estabeleceu preços de
referência, que são os preços
mínimos com os quais o produto pode entrar
no país. São, aliás, os mesmos
preços que os países que exportavam
para o Brasil praticavam em outros mercados. Mas
não era só o exportador de outro
país que agia de má-fé. O
importador daqui foi conivente. E havia muita
gente equivocada que, no afã de trazer
artigos importados, não teve o cuidado
de fazer uma seleção de qualidade.
Os produtos entravam no país com preços
muito baixos, mas não valiam nada. E os
consumidores rejeitaram.
Que medidas serão necessárias
para garantir um incremento real das exportações
de têxteis?
Três questões afetam o desenvolvimento
dos nossos negócios. A primeira é
a reforma tributária. É preciso
desonerar a produção. O governo
deve ter a sua arrecadação, tributar
o consumo, a renda, mas o que não pode
é tributar a produção. Agindo
assim, ele inibe a nossa capacidade de gerar empregos.
Segundo aspecto: temos o dinheiro mais caro do
mundo. Quando precisamos fazer um investimento,
os financiamentos são caríssimos.
E isso encarece o produto. O custo do capital
é muito alto. Com isso, é cerceada
a possibilidade de criar empregos. O terceiro
ponto é fazer um esforço para melhorar
a geração de renda. Geramos muita
riqueza no país, é verdade, mas
ela é mal distribuída. Assim, restringimos
o nosso próprio poder de compra. Se nos
tornarmos mais competitivos, teremos uma demanda
maior por nossos produtos e ampliaremos a nossa
capacidade de investimento, de geração
de postos de trabalho. Outro aspecto importante
é uma reforma da legislação
trabalhista. As pessoas ganham relativamente pouco
e custam muito caro para a empresa. Deve se fazer
uma reforma que flexibilize as relações
de trabalho e diminua os encargos sociais para
que as empresas possam pagar mais para as pessoas
sem que isso custe tanto. Ajudaria a expandir
o tamanho da nossa economia.

De que maneira a falta dessas reformas afeta
o setor?
Para se ter uma idéia, a mesma massa de
produtos que vendíamos em 1995 por US$
100, hoje vale US$ 40. Esse foi o tamanho do decréscimo
do valor do nosso produto medido em dólar.
É verdade que os custos não cresceram
na mesma proporção da paridade cambial,
mas houve uma redução real do preço
dos produtos. Por tudo isso, a cada dia, temos
de reinventar a forma de fazer as coisas, oferecendo
produtos melhores e por preços do tamanho
do bolso do cidadão brasileiro. Esse é
o grande desafio.
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