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Edição 165 - Abril de 2001  

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VICENTE DONINI
Diretor-Presidente da Marisol

Recuperada da invasão de artigos asiáticos, que derrubou muita gente boa, a indústria têxtil brasileira está se preparando para “ocupar lugar de destaque” no cenário internacional. É a previsão do homem que detonou uma reviravolta na catarinense Marisol, a líder nacional em malhas para a criançada. Vicente Donini, presidente da companhia, percebeu em tempo que a concorrência com os importados iria se acirrar – e abandonou produtos com baixo valor agregado para apostar em linhas mais elaboradas. Deu certo: a Marisol, que espera faturar R$ 345 milhões em 2001, avançou de um lucro de R$ 3 milhões para os R$ 18 milhões exibidos no ano passado. “A natureza do negócio está em viver perigosamente”, gosta de dizer o empresário, que falou a AMANHÃ sobre soluções para a economia brasileira, capital estrangeiro e sindicalismo.

Guilherme Diefenthaeler, de Jaraguá do Sul (SC)


A indústria têxtil brasileira já se recuperou do tombo que levou com a invasão dos produtos asiáticos?

Eu diria que ela está fazendo a lição de casa. E faz um trabalho silencioso, mas muito importante. O Brasil tem forte vocação para a área têxtil, particularmente para o segmento da moda. Porque o brasileiro é muito criativo. Estamos começando a ser percebidos por mercados muito desenvolvidos no alto circuito da moda. Nova Iorque, Milão, Paris, Londres já vêem a moda brasileira como produto consistente. Não que o volume de negócios no vestuário seja muito elevado. Mas, pelas perspectivas que oferece, dá sinais claros de que estão nos olhando como a bola da vez, um supridor confiável de qualidade. A empresa brasileira se preparou e vai ocupar lugar de destaque na indústria têxtil mundial. Claro que há problemas para resolver. No passado, conseguimos responder por 1% do comércio internacional de têxteis. É um número pequeno, mas mais significativo do que o atual. Por falta de condições de competição, o setor se recolheu. E não é que falte habilidade às nossas fábricas. O diabo é que exportamos muitos impostos. Enquanto não houver uma reforma tributária que elimine essa incidência de tributos em cascata, que afeta os preços exportados, teremos dificuldades de crescer como poderíamos.

Como o sr. avaliou a agilidade do governo em proteger a empresa nacional?
Vale dizer que só vencemos a invasão dos asiáticos porque o governo foi eficiente e tomou uma série de medidas que não servem para proteger uma eventual incapacidade nossa, mas para coibir os abusos que existiam. Somos extremamente favoráveis à abertura de fronteiras, mas queremos que se coíbam práticas desleais de comércio, como acontecia com os têxteis. No Brasil, houve muito contrabando, e muita coisa foi importada com subfaturamento. O governo tornou as fronteiras mais rigorosas e estabeleceu preços de referência, que são os preços mínimos com os quais o produto pode entrar no país. São, aliás, os mesmos preços que os países que exportavam para o Brasil praticavam em outros mercados. Mas não era só o exportador de outro país que agia de má-fé. O importador daqui foi conivente. E havia muita gente equivocada que, no afã de trazer artigos importados, não teve o cuidado de fazer uma seleção de qualidade. Os produtos entravam no país com preços muito baixos, mas não valiam nada. E os consumidores rejeitaram.

Que medidas serão necessárias para garantir um incremento real das exportações de têxteis?
Três questões afetam o desenvolvimento dos nossos negócios. A primeira é a reforma tributária. É preciso desonerar a produção. O governo deve ter a sua arrecadação, tributar o consumo, a renda, mas o que não pode é tributar a produção. Agindo assim, ele inibe a nossa capacidade de gerar empregos. Segundo aspecto: temos o dinheiro mais caro do mundo. Quando precisamos fazer um investimento, os financiamentos são caríssimos. E isso encarece o produto. O custo do capital é muito alto. Com isso, é cerceada a possibilidade de criar empregos. O terceiro ponto é fazer um esforço para melhorar a geração de renda. Geramos muita riqueza no país, é verdade, mas ela é mal distribuída. Assim, restringimos o nosso próprio poder de compra. Se nos tornarmos mais competitivos, teremos uma demanda maior por nossos produtos e ampliaremos a nossa capacidade de investimento, de geração de postos de trabalho. Outro aspecto importante é uma reforma da legislação trabalhista. As pessoas ganham relativamente pouco e custam muito caro para a empresa. Deve se fazer uma reforma que flexibilize as relações de trabalho e diminua os encargos sociais para que as empresas possam pagar mais para as pessoas sem que isso custe tanto. Ajudaria a expandir o tamanho da nossa economia.

De que maneira a falta dessas reformas afeta o setor?
Para se ter uma idéia, a mesma massa de produtos que vendíamos em 1995 por US$ 100, hoje vale US$ 40. Esse foi o tamanho do decréscimo do valor do nosso produto medido em dólar. É verdade que os custos não cresceram na mesma proporção da paridade cambial, mas houve uma redução real do preço dos produtos. Por tudo isso, a cada dia, temos de reinventar a forma de fazer as coisas, oferecendo produtos melhores e por preços do tamanho do bolso do cidadão brasileiro. Esse é o grande desafio.

 
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