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É
de graça Longe das querelas político-ideológicas,
o que causou espécie foi a fórmula para a concessão
dos serviços prescrita no projeto de lei. Diferente
do mecanismo que orientou as privatizações das
teles e de algumas distribuidoras de energia, a intenção,
agora, é entregar a outorga, sem cobrar um centavo
sequer, à candidata que aparecer com a melhor promessa
em volume de investimentos, operação
de serviços, redução de tarifas e universalização
do atendimento. (Outra novidade é que, desta vez, o
desenlace interessa dramaticamente a todo o mundo você
pode não ter telefone, mas água corrente, limpa
e barata é fundamental.)
Se o projeto não entrar pelo cano, estima-se que 500
municípios brasileiros perderão a concessão
dos serviços de saneamento. É uma atitude
irresponsável deste governo neoliberal, que só
quer desmontar o atual sistema, dispara Carlos Atílio
Todeschini, diretor-geral do Departamento Municipal de Águas
e Esgotos (DMAE), de Porto Alegre, que aproveita para desafiar
qualquer concorrente privado a vencer a eficiência
do órgão (99,5% das residências têm
água regular).
Para barrar o processo, a oposição se muniu
de um arsenal jurídico. A transferência
da titularidade para os Estados implica em mudar a Constituição,
o que requer emenda constitucional, e não projeto de
lei, advoga o engenheiro sanitarista Abelardo de Oliveira
Filho, da Federação Nacional dos Urbanitários.
(Em tempo: titularidade é o poder de decidir como será
o regime de prestação do serviço.) Nem
os executivos das empresas interessadas em ver essa carruagem
deslanchar se convenceram totalmente da atitude do governo.
Não se pode incluir, em um mesmo projeto, propostas
de regulamentação e transferência de titularidade.
São coisas separadas. Primeiro vem a regulamentação,
depois a titularidade, analisa José Carlos Sussekind,
presidente da portuguesa Águas do Brasil, que toca
o saneamento em Paranaguá (PR).
A Associação Brasileira das Concessionárias
de Serviços Públicos de Água e Esgoto
(Abcon), a Associação Brasileira de Infra-Estrutura
e Indústria de Base (Abdib), a Câmara Brasileira
da Indústria da Construção (CBIC) e o
Sindicato Nacional da Indústria da Construção
Pesada (Sincon) engrossam o coro. Em documento enviado aos
parlamentares, o quarteto de entidades reiterou que é
necessária a separação das questões
de regulação e de titularidade. Elas recomendam
que, para evitar ações de inconstitucionalidade,
a questão seja reapresentada como emenda constitucional
ou lei complementar.
Superpoderes Além de torcer o nariz das associações
de classe e da esquerda ambiental, o projeto de lei despertou
a ira da gaúcha Corsan. Segundo a estatal de água
e esgoto, que serve 347 dos 497 municípios do Estado,
a proposta traz mais prejuízos do que benefícios
ao saneamento. Uma das principais críticas é
que a lei estaria ferindo os preceitos federativos, ao limitar
a concessão de crédito para obras de saneamento
aos Estados e municípios que aceitarem a privatização.
Mais: a Corsan contesta os superpoderes concedidos
à Agência Nacional das Águas (ANA) e alerta
para a criação de novas taxas e custos extras
que salgariam a conta para o consumidor.
Prestes a se tornar a primeira das 27 companhias estaduais
de saneamento a experimentar gestão privada, a baiana
Embasa não parece preocupada com essa discussão.
Nem ela, nem as três co-irmãs que navegam na
mesma trilha. O BNDES espera concluir, em 2001, o processo
de desestatização da pernambucana Compesa e,
no ano que vem, programa-se para fazer o mesmo com a Caern,
do Rio Grande do Norte, e com a Cesan, do Espírito
Santo.
O prefeito de Recife, João Paulo (PT), está
ansioso para ver no que isso vai dar. Ainda neste mês,
o prefeito encaminha à Câmara de Vereadores uma
proposta para assumir, ele mesmo, o gerenciamento dos sistemas
de abastecimento e esgoto na capital. Uma autarquia deve ser
criada para administrar os serviços de distribuição
de água, implantação e coleta de esgotos
em áreas consideradas de interesse social. Recife responde
por 38% do faturamento da Compesa, que no ano passado foi
de aproximadamente R$ 200 milhões.
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