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Está escrito na agenda de privatizações
formulada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) para os próximos dois anos. O Estado
se prepara para saltar fora de uma dúzia de distribuidoras
e geradoras de energia elétrica, seis bancos estaduais
e quatro companhias de água e saneamento. Desse tripé,
a desestatização do saneamento é a mudança
que deve causar maior impacto. Nem tanto pelo mercado em si
da água ou do esgoto diga-se que boa parte das
operadoras anda mal das pernas , e mais pela relação
estreita da atividade com a saúde pública. O
saneamento é um grande filão social, qualifica
Armando Castelar Pinheiro, chefe do departamento de economia
do BNDES.
De fato. Um terço das bacias fluviais, ou 13% da água
doce que banha a Terra, jorra no Brasil, mas ter o líquido
tratado escorrendo nas torneiras de casa ainda é coisa
para privilegiado. Segundo o IBGE, dos 70% da população
que possui residência, um quarto não conta com
água potável e quase metade não
é servida por redes de esgoto. Poucos dias antes do
Carnaval, o governo remeteu ao Congresso um projeto de lei
carimbado com o número 4.147 e alimentou uma guerra
travada há tempo, entre estatais, governo e empresas
privadas envolvidas no nicho da água: quem é
o dono dela, afinal?
Assinado pelo deputado federal Wellington Moreira Franco
(PMDB/RJ), o projeto 4.147 transfere as rédeas dos
serviços de água e saneamento tocados pelos
municípios para as companhias estaduais. Em bom português,
significa que os Estados terão liberdade para negociar
as concessões como bem entenderem. O mercado interpretou
a medida como uma forma de afrouxar as pernas da gestão
pública, abrindo a guarda para a completa desestatização.
O barulho aumentou quando o Planalto tentou acelerar a votação,
via regime de urgência. Em Brasília, a proposta
levou bomba durante a Marcha dos Prefeitos, no início
de abril. Algumas estatais promoveram campanhas de protesto,
e houve até abaixo-assinados argumentando que saneamento
é área pública estratégica, dadas
as perspectivas sinistras sobre o esgotamento dos recursos
hídricos do planeta etc. etc. A reação
foi tão estridente que o texto de Moreira Franco acabou
voltando ao seu trânsito normal na calmaria burocrática
da Câmara.
De certa maneira, toda essa novela pode ser vista como uma
curiosa briga pela água. Daqui para frente, se a bacia
hidrográfica onde a concessionária vai buscar
água for municipal, o responsável deverá
ser o município. Se for estadual, o dono será
o Estado, e assim por diante.
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