|
|
|

MIKE
MOORE
Diretor-geral da Organização Mundial
do Comércio |
|
Ex-primeiro-ministro
da Nova Zelândia, com uma carreira marcada por passagens
em diversas mesas de negociação da economia internacional,
Mike Moore parece à vontade em seu papel de diretor-geral
da Organização Mundial do Comércio (OMC). Bem-humorado,
ele apresenta a instituição mais como uma “prestadora
de serviços” do que como o poderoso órgão controlador
das relações comerciais entre os países – e fala abertamente
do que considera os fracos do trabalho. Para receber
a reportagem de AMANHÃ, na antiga e imponente construção
que abriga a OMC, situada no centro nervoso de Genebra,
a única ressalva foi: “Não abordaremos casos que estão
em disputa”. Nem por isso, como se verá, a conversa
foi monocórdia ou careceu de opiniões fortes. Entre
elas, uma confessa autocrítica: “A OMC poderia ser mais
aberta. Ainda estamos baseados numa cultura de 30 países,
sempre com o mesmo conhecimento e as experiências comuns.
E veja que já somos 140 membros”. Nascido em Whakatane,
na Nova Zelândia, Moore fez um pouco de tudo. Foi pintor,
trabalhou na construção civil, no mercado de carne,
em serviços sociais e como pesquisador para um sindicato
de comércio. Sua carreira política, que começou em 1972,
quando ele se tornou o mais jovem membro eleito para
o Parlamento de seu país, inclui a liderança do Partido
dos Trabalhadores e um tour por diversos ministérios.
Nesta entrevista, concedida em um dia de neve forte,
no gabinete central da OMC, com vista para o belo lago
de Genebra, o diretor-geral reconhece a urgência de
uma nova rodada de negociações no comércio, fala sobre
globalizaçao, formação de blocos regionais e a iminente
entrada da China na organização.
|
| Irene Zischler, de Genebra |
 |
Qual o papel da OMC?
Dar assistência aos governos e facilitar negociações
comerciais. Uma vez que os governos se entendam, essas
decisões são ratificadas pelos parlamentos
ou pelos congressos. Quando os governos discordam na
interpretação de acordos, intermediamos
a solução de disputas. Esse sistema de
disputas é formado por grupos de trabalho e por
um órgão de apelação. Estamos
aqui para assistir os governos em suas questões
com outros governos. Não dizemos a ninguém
o que fazer. Apenas facilitamos o relacionamento. Quando
entram em acordo, temos um sistema para executar o que
foi acertado. Há grandes discussões sobre
as dificuldades transatlânticas, na América,
na União Européia, com disputas que cobrem
menos de 2% do comércio. Mas estamos construindo
a organização, à medida que mais
países participam. Contamos com 140 membros,
30 em fase de negociação. A China está
bem próxima, a Arábia Saudita trabalha
nessa direção. Todos querem fazer parte,
porque esse é um sistema baseado em regras abertamente
negociadas por nações soberanas. É
a forma civilizada de lidar com as diferenças.

O que o comércio mundial ganhou com a substituição
do GATT pela OMC?
Bem, a OMC está se tornando uma verdadeira organização
global. Desde a última rodada, temos cerca de
70 novos membros. Antes, era uma organização
dos países prósperos. Agora, mudou a natureza.
Por que os países em desenvolvimento querem fazer
parte, por que os países menos desenvolvidos
querem entrar? Porque eles desejam ter acesso a regras
com as quais acreditam que podem negociar a abertura
comercial. E a história mostra que as economias
abertas têm melhores resultados. Há 30
anos, Gana tinha o mesmo padrão de vida que a
Coréia. Hoje, o padrão da Coréia
é equivalente ao de Portugal. E veja como Portugal
se desenvolveu desde que entrou na União Européia.
Isso não é tudo. Nós mencionamos
apenas o comércio. Mas há países
com problemas profundos de infra-estrutura, e nós
não podemos capacitá-los. Contudo, podemos
oferecer a oportunidade para alguém exportar
tomates, fornecer meios para plantar sementes, construir
geladeiras ou aeronaves. É uma questão
de oportunidade. No Brasil, você pode ver a oportunidade:
14 milhões de acres de terra sem ter de cortar
uma só árvore. O Brasil sempre enviou
à OMC representantes de alto nível, embaixadores
altamente respeitados. E, no cenário mundial,
o país é um grande ator.
Grande em função do seu tamanho?
Do tamanho, mas também da qualidade dos recursos
humanos. Veja o Rubens Ricupero, que ocupou este cargo
antes de mim. Ricupero foi uma figura muito significativa
no comércio mundial. Eu costumava ligar muito
para ele, para pedir conselhos.
|
|
|
|
|