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Edição 164 - Março de 2001  

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MIKE MOORE
Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio

Ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia, com uma carreira marcada por passagens em diversas mesas de negociação da economia internacional, Mike Moore parece à vontade em seu papel de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Bem-humorado, ele apresenta a instituição mais como uma “prestadora de serviços” do que como o poderoso órgão controlador das relações comerciais entre os países – e fala abertamente do que considera os fracos do trabalho. Para receber a reportagem de AMANHÃ, na antiga e imponente construção que abriga a OMC, situada no centro nervoso de Genebra, a única ressalva foi: “Não abordaremos casos que estão em disputa”. Nem por isso, como se verá, a conversa foi monocórdia ou careceu de opiniões fortes. Entre elas, uma confessa autocrítica: “A OMC poderia ser mais aberta. Ainda estamos baseados numa cultura de 30 países, sempre com o mesmo conhecimento e as experiências comuns. E veja que já somos 140 membros”. Nascido em Whakatane, na Nova Zelândia, Moore fez um pouco de tudo. Foi pintor, trabalhou na construção civil, no mercado de carne, em serviços sociais e como pesquisador para um sindicato de comércio. Sua carreira política, que começou em 1972, quando ele se tornou o mais jovem membro eleito para o Parlamento de seu país, inclui a liderança do Partido dos Trabalhadores e um tour por diversos ministérios. Nesta entrevista, concedida em um dia de neve forte, no gabinete central da OMC, com vista para o belo lago de Genebra, o diretor-geral reconhece a urgência de uma nova rodada de negociações no comércio, fala sobre globalizaçao, formação de blocos regionais e a iminente entrada da China na organização.

Irene Zischler, de Genebra

Qual o papel da OMC?
Dar assistência aos governos e facilitar negociações comerciais. Uma vez que os governos se entendam, essas decisões são ratificadas pelos parlamentos ou pelos congressos. Quando os governos discordam na interpretação de acordos, intermediamos a solução de disputas. Esse sistema de disputas é formado por grupos de trabalho e por um órgão de apelação. Estamos aqui para assistir os governos em suas questões com outros governos. Não dizemos a ninguém o que fazer. Apenas facilitamos o relacionamento. Quando entram em acordo, temos um sistema para executar o que foi acertado. Há grandes discussões sobre as dificuldades transatlânticas, na América, na União Européia, com disputas que cobrem menos de 2% do comércio. Mas estamos construindo a organização, à medida que mais países participam. Contamos com 140 membros, 30 em fase de negociação. A China está bem próxima, a Arábia Saudita trabalha nessa direção. Todos querem fazer parte, porque esse é um sistema baseado em regras abertamente negociadas por nações soberanas. É a forma civilizada de lidar com as diferenças.

O que o comércio mundial ganhou com a substituição do GATT pela OMC?
Bem, a OMC está se tornando uma verdadeira organização global. Desde a última rodada, temos cerca de 70 novos membros. Antes, era uma organização dos países prósperos. Agora, mudou a natureza. Por que os países em desenvolvimento querem fazer parte, por que os países menos desenvolvidos querem entrar? Porque eles desejam ter acesso a regras com as quais acreditam que podem negociar a abertura comercial. E a história mostra que as economias abertas têm melhores resultados. Há 30 anos, Gana tinha o mesmo padrão de vida que a Coréia. Hoje, o padrão da Coréia é equivalente ao de Portugal. E veja como Portugal se desenvolveu desde que entrou na União Européia. Isso não é tudo. Nós mencionamos apenas o comércio. Mas há países com problemas profundos de infra-estrutura, e nós não podemos capacitá-los. Contudo, podemos oferecer a oportunidade para alguém exportar tomates, fornecer meios para plantar sementes, construir geladeiras ou aeronaves. É uma questão de oportunidade. No Brasil, você pode ver a oportunidade: 14 milhões de acres de terra sem ter de cortar uma só árvore. O Brasil sempre enviou à OMC representantes de alto nível, embaixadores altamente respeitados. E, no cenário mundial, o país é um grande ator.

Grande em função do seu tamanho?
Do tamanho, mas também da qualidade dos recursos humanos. Veja o Rubens Ricupero, que ocupou este cargo antes de mim. Ricupero foi uma figura muito significativa no comércio mundial. Eu costumava ligar muito para ele, para pedir conselhos.

 
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