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Há mais de 20 anos, a indústria de software é
uma máquina de ganhar dinheiro. Em primeiro lugar, vende
programas a preços salgados. Com o agravante de que, a cada
um ou dois anos, coloca no mercado uma outra versão, um pouco
mais evoluída - e igualmente cara. Nessa fórmula,
baseada no que os especialistas chamam de "sistema proprietário",
o fabricante é o dono, o único dono, do produto. Isto
é, guarda a sete chaves o código-fonte do programa,
como se fosse a fórmula da Coca-Cola. Embora tenha pago pelo
software, o comprador não tem o direito de dar ou emprestar
uma cópia a ninguém. Se o irmão, a mãe
ou o melhor amigo quiserem copiar, que paguem para ter sua própria
licença de uso. É assim, na base do "cada cabeça,
uma licença", que empresas como a Microsoft se tornaram
tão poderosas. Mas, como sempre acontece, tinha de surgir
um desmancha-prazeres. O nome do inconveniente é GNU/Linux.
Ou, simplesmente, Linux. Acostume-se com esse nome e com o pingüim
que é a marca registrada deste software. Afinal, por tudo
o que se vai mostrar agora, é bem possível que, em
casa ou na empresa, você ainda venha a ter um.
O Linux é um sistema operacional - ou seja, aquele programa
indispensável que faz seu computador funcionar. Ora, o que
o faria se tornar uma ameaça ao Windows, o sistema operacional
que hoje equipa mais de 90% dos computadores mundiais? A primeira
explicação é que o Linux não foi engendrado
para ser mais um produto a disputar mercado, e sim um conceito.
Empunhando a bandeira do software livre, o sistema operacional desenvolvido
pelo finlandês Linus Tornvalds tornou-se objeto de culto de
uma comunidade de pessoas e empresas que não pára
de crescer. Como seria diferente? Enquanto uma licença de
Windows sai por R$ 439, o Linux pode ser baixado de graça
via web e seu código-fonte não tem nenhum segredo,
o que permite ao usuário adaptar o programa a suas necessidades.
"O Linux é tão eficiente e fácil de usar
quanto o Windows", atesta Paulo Fernandes, coordenador da pós-graduação
em Ciência da Computação da PUC/RS.
Num
país como o Brasil, em que mais da metade dos usuários
de computador trabalha com programas contrabandeados para escapar
do custo das licenças, o Linux e os demais softwares livres
ganham um empurrãozinho das próprias gigantes do setor.
"Cada vez que há ameaça de multa por pirataria,
mais empresas resolvem se legalizar com o Linux", constata
Fernandes. "E ter um parque legalizado com Linux é muito
mais barato, além de nada dever em eficiência."
No meio corporativo, o GNU/Linux está sendo levado cada
vez mais a sério. É o que ficou claro no começo
deste ano. Primeiro, com o lançamento da nova versão
do núcleo do sistema operacional, com ferramentas que o colocarão
em áreas nas quais até então era visto com
reservas. Depois, com a realização do LinuxWorld,
em Nova Iorque, no início de fevereiro. O evento foi uma
demonstração da capacidade da plataforma, rodando
tanto em supercomputadores como em máquinas que cabem na
palma da mão. O próprio evento é termômetro
do crescimento do sistema operacional. Na primeira edição,
dois anos atrás, o número de visitantes foi de 11
mil. Neste ano, o LinuxWorld atraiu mais de 25 mil pessoas.
Ainda no início do ano, a Microsoft deu mostras claras de
sua preocupação. Procurada por AMANHÃ, a diretoria
da empresa no Brasil não quis falar sobre o assunto. "Não
há realmente muito valor no software livre", desdenhou
Doug Miller, diretor para assuntos estratégicos da corporação,
em entrevista à revista norte-americana Wired. Segundo ele,
o GNU/Linux vai entrar em declínio, e muitos distribuidores
quebrarão, seguindo o exemplo das inúmeras ponto-com
que fracassaram nos últimos 12 meses.
Essa visão, entretanto, não é unânime
na Microsoft. Em uma conferência no Arizona, o presidente
Steve Ballmer foi perguntado sobre qual seria o ranking de seus
principais competidores. Na frente da Oracle, da Sun e da AOL, Ballmer
elegeu o pingüim. "O fenômeno Linux é a ameaça
número um ao negócio do Windows", admitiu.
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