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Edição 164 - Março de 2001  

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Romeu de Bruns Neto 

Há mais de 20 anos, a indústria de software é uma máquina de ganhar dinheiro. Em primeiro lugar, vende programas a preços salgados. Com o agravante de que, a cada um ou dois anos, coloca no mercado uma outra versão, um pouco mais evoluída - e igualmente cara. Nessa fórmula, baseada no que os especialistas chamam de "sistema proprietário", o fabricante é o dono, o único dono, do produto. Isto é, guarda a sete chaves o código-fonte do programa, como se fosse a fórmula da Coca-Cola. Embora tenha pago pelo software, o comprador não tem o direito de dar ou emprestar uma cópia a ninguém. Se o irmão, a mãe ou o melhor amigo quiserem copiar, que paguem para ter sua própria licença de uso. É assim, na base do "cada cabeça, uma licença", que empresas como a Microsoft se tornaram tão poderosas. Mas, como sempre acontece, tinha de surgir um desmancha-prazeres. O nome do inconveniente é GNU/Linux. Ou, simplesmente, Linux. Acostume-se com esse nome e com o pingüim que é a marca registrada deste software. Afinal, por tudo o que se vai mostrar agora, é bem possível que, em casa ou na empresa, você ainda venha a ter um.

O Linux é um sistema operacional - ou seja, aquele programa indispensável que faz seu computador funcionar. Ora, o que o faria se tornar uma ameaça ao Windows, o sistema operacional que hoje equipa mais de 90% dos computadores mundiais? A primeira explicação é que o Linux não foi engendrado para ser mais um produto a disputar mercado, e sim um conceito. Empunhando a bandeira do software livre, o sistema operacional desenvolvido pelo finlandês Linus Tornvalds tornou-se objeto de culto de uma comunidade de pessoas e empresas que não pára de crescer. Como seria diferente? Enquanto uma licença de Windows sai por R$ 439, o Linux pode ser baixado de graça via web e seu código-fonte não tem nenhum segredo, o que permite ao usuário adaptar o programa a suas necessidades. "O Linux é tão eficiente e fácil de usar quanto o Windows", atesta Paulo Fernandes, coordenador da pós-graduação em Ciência da Computação da PUC/RS.

Num país como o Brasil, em que mais da metade dos usuários de computador trabalha com programas contrabandeados para escapar do custo das licenças, o Linux e os demais softwares livres ganham um empurrãozinho das próprias gigantes do setor. "Cada vez que há ameaça de multa por pirataria, mais empresas resolvem se legalizar com o Linux", constata Fernandes. "E ter um parque legalizado com Linux é muito mais barato, além de nada dever em eficiência."

No meio corporativo, o GNU/Linux está sendo levado cada vez mais a sério. É o que ficou claro no começo deste ano. Primeiro, com o lançamento da nova versão do núcleo do sistema operacional, com ferramentas que o colocarão em áreas nas quais até então era visto com reservas. Depois, com a realização do LinuxWorld, em Nova Iorque, no início de fevereiro. O evento foi uma demonstração da capacidade da plataforma, rodando tanto em supercomputadores como em máquinas que cabem na palma da mão. O próprio evento é termômetro do crescimento do sistema operacional. Na primeira edição, dois anos atrás, o número de visitantes foi de 11 mil. Neste ano, o LinuxWorld atraiu mais de 25 mil pessoas.

Ainda no início do ano, a Microsoft deu mostras claras de sua preocupação. Procurada por AMANHÃ, a diretoria da empresa no Brasil não quis falar sobre o assunto. "Não há realmente muito valor no software livre", desdenhou Doug Miller, diretor para assuntos estratégicos da corporação, em entrevista à revista norte-americana Wired. Segundo ele, o GNU/Linux vai entrar em declínio, e muitos distribuidores quebrarão, seguindo o exemplo das inúmeras ponto-com que fracassaram nos últimos 12 meses.

Essa visão, entretanto, não é unânime na Microsoft. Em uma conferência no Arizona, o presidente Steve Ballmer foi perguntado sobre qual seria o ranking de seus principais competidores. Na frente da Oracle, da Sun e da AOL, Ballmer elegeu o pingüim. "O fenômeno Linux é a ameaça número um ao negócio do Windows", admitiu.

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