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Edição 162 - Janeiro de 2001  

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Mas, para muitos, é a falta do fast-track que tem emperrado o andamento das negociações...
Não é verdade. A falta do fast-track não dificulta a negociação em si entre os países. Dificulta a aprovação do que foi negociado. Há um certo mito aí, e esse argumento vem sendo utilizado especialmente pela diplomacia brasileira como se fosse a razão central para não avançar na Alca. É um argumento falacioso.

Falando na Alca, como o sr. vê esta decisão do Chile de se afastar do Mercosul e se aproximar diretamente de um pacto com os EUA?
Lamento admitir, mas a mim isso não causou surpresa nem constrangimento. Essa estratégia do Brasil de formar uma “Alca” por aqui, um bloco paralelo para negociar com os EUA, eu sempre vi mais como o sonho de uma noite de verão do que como uma estratégia viável. Não tenho dúvida de que, se o Brasil conseguisse, por exemplo, negociar em conjunto com a Venezuela, com a Comunidade Andina, com o Chile, a Bolívia, isso aumentaria o poder de barganha da América Latina. Mas o Chile tem uma perspectiva de integração regional completamente diferente. As tarifas externas do Chile devem estar em torno de 5%, enquanto as do Brasil chegam a 12%. Fica difícil negociar a entrada do Chile no Mercosul com um nível tarifário tão díspare. É claro que o Chile tem interesse em obter maior resultado em menor tempo. É claro que o mercado norte-americano é mais atraente para o Chile, que não quer ficar atrelado a um bloco que não consegue definir o que pretende ser. Para mim, o Mercosul não tem cara. Porque nenhum bloco econômico pode permanecer como uma união aduaneira imperfeita para sempre. O Mercosul não é uma zona de livre comércio completa, não é uma união aduaneira completa e dificilmente será um mercado comum completo.

O afastamento do Chile é definitivo?
Nada impede que, mais tarde, o Mercosul venha a fazer um tratado de livre comércio com o Chile. O Chile participa de todos os mercados e processos de integração que pode. Tem um pé na Ásia, pela Apec. Está tentando se aproximar dos Estados Unidos, via Nafta ou Alca. Estava negociando com o Mercosul e, se puder, fará acordo com a União Européia. Então, o Chile é o Estado exemplar em termos de comércio internacional. Ele aproveita todas as oportunidades que aparecem.

Por que a decisão do Chile causou tanto impacto?
Porque o Brasil estava criando a falsa expectativa de que haveria uma grande integração latino-americana. Estavam certos de que todos os países latino-americanos se reuniriam para combater o nosso “inimigo”, o “irmão do Norte”, nas negociações da Alca. E não foi nada disso que aconteceu. Somando dois e dois, os países estão percebendo que é muito mais interessante participar da Alca que do Mercosul.

Na cúpula do Mercosul, em dezembro, o presidente do Chile disse que que, a longo prazo, prefere o Mercosul à Alca por ser o Mercosul um acordo político, e não apenas comercial. Existe mesmo essa diferença?
São palavras bonitas. Só que ele não faz o que diz, faz o contrário. Diz que o Mercosul é o mercado do sonho dele e vai negociar com os EUA na Alca ou no Nafta. É claro que o Chile tinha de fazer um discurso simpático, porque o que aconteceu foi um soco no Mercosul. O Chile implodiu o castelo que estava sendo criado, que era um castelo de sonhos.

A decisão do Chile e a crise na Argentina decretam o fim do Mercosul?
Não gosto de falar em fim. Nada impede que amanhã os presidentes se unam e relancem o Mercosul com outra característica. Mas eu não vejo esse processo de integração acontecer. Todas as tentativas de algum país do Mercosul de criar uma instituição internacional são barradas pelo Brasil, sob o argumento de que o país representa 70% do bloco.

 
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