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Mas, para muitos, é a falta do fast-track que tem
emperrado o andamento das negociações...
Não é verdade. A falta do fast-track não
dificulta a negociação em si entre os países.
Dificulta a aprovação do que foi negociado.
Há um certo mito aí, e esse argumento vem sendo
utilizado especialmente pela diplomacia brasileira como se
fosse a razão central para não avançar
na Alca. É um argumento falacioso.
Falando na Alca, como o sr. vê esta decisão
do Chile de se afastar do Mercosul e se aproximar diretamente
de um pacto com os EUA?
Lamento admitir, mas a mim isso não causou surpresa
nem constrangimento. Essa estratégia do Brasil de formar
uma Alca por aqui, um bloco paralelo para negociar
com os EUA, eu sempre vi mais como o sonho de uma noite de
verão do que como uma estratégia viável.
Não tenho dúvida de que, se o Brasil conseguisse,
por exemplo, negociar em conjunto com a Venezuela, com a Comunidade
Andina, com o Chile, a Bolívia, isso aumentaria o poder
de barganha da América Latina. Mas o Chile tem uma
perspectiva de integração regional completamente
diferente. As tarifas externas do Chile devem estar em torno
de 5%, enquanto as do Brasil chegam a 12%. Fica difícil
negociar a entrada do Chile no Mercosul com um nível
tarifário tão díspare. É claro
que o Chile tem interesse em obter maior resultado em menor
tempo. É claro que o mercado norte-americano é
mais atraente para o Chile, que não quer ficar atrelado
a um bloco que não consegue definir o que pretende
ser. Para mim, o Mercosul não tem cara. Porque nenhum
bloco econômico pode permanecer como uma união
aduaneira imperfeita para sempre. O Mercosul não é
uma zona de livre comércio completa, não é
uma união aduaneira completa e dificilmente será
um mercado comum completo.
O
afastamento do Chile é definitivo?
Nada impede que, mais tarde, o Mercosul venha a fazer um tratado
de livre comércio com o Chile. O Chile participa de
todos os mercados e processos de integração
que pode. Tem um pé na Ásia, pela Apec. Está
tentando se aproximar dos Estados Unidos, via Nafta ou Alca.
Estava negociando com o Mercosul e, se puder, fará
acordo com a União Européia. Então, o
Chile é o Estado exemplar em termos de comércio
internacional. Ele aproveita todas as oportunidades que aparecem.
Por que a decisão do Chile causou tanto impacto?
Porque o Brasil estava criando a falsa expectativa de que
haveria uma grande integração latino-americana.
Estavam certos de que todos os países latino-americanos
se reuniriam para combater o nosso inimigo, o
irmão do Norte, nas negociações
da Alca. E não foi nada disso que aconteceu. Somando
dois e dois, os países estão percebendo que
é muito mais interessante participar da Alca que do
Mercosul.
Na
cúpula do Mercosul, em dezembro, o presidente do Chile
disse que que, a longo prazo, prefere o Mercosul à
Alca por ser o Mercosul um acordo político, e não
apenas comercial. Existe mesmo essa diferença?
São palavras bonitas. Só que ele não
faz o que diz, faz o contrário. Diz que o Mercosul
é o mercado do sonho dele e vai negociar com os EUA
na Alca ou no Nafta. É claro que o Chile tinha de fazer
um discurso simpático, porque o que aconteceu foi um
soco no Mercosul. O Chile implodiu o castelo que estava sendo
criado, que era um castelo de sonhos.
A decisão do Chile e a crise na Argentina decretam
o fim do Mercosul?
Não gosto de falar em fim. Nada impede que amanhã
os presidentes se unam e relancem o Mercosul com outra característica.
Mas eu não vejo esse processo de integração
acontecer. Todas as tentativas de algum país do Mercosul
de criar uma instituição internacional são
barradas pelo Brasil, sob o argumento de que o país
representa 70% do bloco.
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