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Edição 162 - Janeiro de 2001  

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RICARDO WAHRENDORFF CALDAS
Economista, professor da UNB, Mestre em Relações Internacionais

O Mercosul entrou numa espécie de limbo – e o Brasil tem culpa no cartório. É o que pensa o economista Ricardo Wahrendorff Caldas, da UnB. Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Kent, no Reino Unido, autor de livros como “O Brasil e o Mito da Globalização”, Caldas afirma que o bloco dos vizinhos do Cone Sul padece de falta de identidade: “Não é uma zona de livre comércio ou uma união aduaneira completa e dificilmente vai-se tornar um mercado comum completo”. Com a alegação de que representa 70% do bloco, o Brasil estaria brecando o processo. Além de reagir com “posturas equivocadas”, por exemplo, ao advento da Alca.
Em entrevista a AMANHÃ, o professor defende a vinculação imediata do país
à área de livre comércio das Américas, diz que não estranhou a defecção do
Chile e analisa as conseqüências da eleição de George Bush para o Brasil.

 

 
Guilherme Diefenthaeler

O que significa a eleição de George Bush para os interesses do Brasil?
O país está perdendo inúmeras oportunidades. Hoje, responde por apenas 0,9% do comércio internacional – um índice muito limitado. Por esse prisma, vejo como positiva a eleição de Bush. Ele tem um comprometimento maior com o livre comércio. Sua proposta é mais liberal e internacionalista que a dos democratas. Uma administração de Al Gore seria mais protecionista e “militante” em favor dos grandes sindicatos do que será, espero, o governo Bush. Essa linha vai repercutir de uma maneira tal que o presidente americano deverá ter como prioridade a participação dos Estados Unidos na Alca.

Quando o Brasil começará a reverter essa tendência de perda de oportunidades que o sr. menciona?
Não acredito numa reversão a curto prazo. Não vejo nada sendo feito nesse sentido. A proposta do governo de dobrar as exportações até 2002, de modo que o Brasil atinja US$ 100 bilhões em vendas externas, é um discurso vazio. É triste. Tenho dito isso há dez anos e provavelmente vou repetir nos próximos cinco. O comércio internacional não é prioridade para nós. Quando o país acordar, o ambiente estará mais competitivo. Mas é o preço que teremos de pagar. Por outro lado, quando o comércio internacional ocupar um espaço primordial na política externa brasileira, nada impedirá que nos tornemos um exportador de sucesso.

Por que isso ainda não acontece?
Porque há uma infeliz aliança da maioria dos empresários brasileiros, que são acomodados e preferem produzir para o mercado interno em vez de batalhar por novos mercados no exterior. É mais cômodo e lucrativo produzir para o próprio Brasil do que ir para a Alemanha ou para os Estados Unidos. Essa é a lógica do empresário brasileiro. E o governo reforça essa lógica ao não estimular as exportações.

Voltando aos Estados Unidos: o presidente Bush vai conseguir o fast-track para negociar acordos comerciais com mais liberdade?
Acredito que sim. Se essa pergunta me fosse feita há dois ou três meses, eu diria que não haveria o menor problema. Mas, dadas as complicações em torno da eleição norte-americana, acredito que o presidente terá um pouco mais de dificuldade. Não podemos esquecer que o Senado norte-americano estará dividido: 50% democrata e 50% republicano. Isso será um empecilho para Bush. De qualquer modo, um dos seus pontos fortes é a capacidade de firmar alianças. Se ele conseguir atrair setores moderados ou conservadores do Partido Democrata, terá grandes possibilidades de obter o fast-track e evoluir nas negociações da Alca. Como Bush não terá os problemas que Clinton enfrentou – até em nível pessoal –, de uma forte crise de liderança conjugada a atropelos naturais no último período de mandato, acredito que vai querer acelerar o processo o máximo que puder. Tanto que já se discute a antecipação da Alca de 2005 para 2003. É importante lembrar, porém, que os americanos não precisam do fast-track para celebrar um acordo de integração regional. O fast-track é importante no final das conversações, porque aí você já tem o pacote quase pronto, e esse instrumento facilita a aprovação no Congresso do que foi tratado pelo Executivo.

 
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