Guilherme Diefenthaeler |
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O que significa a eleição
de George Bush para os interesses do Brasil?
O país está perdendo inúmeras oportunidades.
Hoje, responde por apenas 0,9% do comércio internacional
um índice muito limitado. Por esse prisma, vejo
como positiva a eleição de Bush. Ele tem um
comprometimento maior com o livre comércio. Sua proposta
é mais liberal e internacionalista que a dos democratas.
Uma administração de Al Gore seria mais protecionista
e militante em favor dos grandes sindicatos do
que será, espero, o governo Bush. Essa linha vai repercutir
de uma maneira tal que o presidente americano deverá
ter como prioridade a participação dos Estados
Unidos na Alca.
Quando o Brasil começará a reverter essa
tendência de perda de oportunidades que o sr. menciona?
Não acredito numa reversão a curto prazo. Não
vejo nada sendo feito nesse sentido. A proposta do governo
de dobrar as exportações até 2002, de
modo que o Brasil atinja US$ 100 bilhões em vendas
externas, é um discurso vazio. É triste. Tenho
dito isso há dez anos e provavelmente vou repetir nos
próximos cinco. O comércio internacional não
é prioridade para nós. Quando o país
acordar, o ambiente estará mais competitivo. Mas é
o preço que teremos de pagar. Por outro lado, quando
o comércio internacional ocupar um espaço primordial
na política externa brasileira, nada impedirá
que nos tornemos um exportador de sucesso.
Por que isso ainda não acontece?
Porque há uma infeliz aliança da maioria dos
empresários brasileiros, que são acomodados
e preferem produzir para o mercado interno em vez de batalhar
por novos mercados no exterior. É mais cômodo
e lucrativo produzir para o próprio Brasil do que ir
para a Alemanha ou para os Estados Unidos. Essa é a
lógica do empresário brasileiro. E o governo
reforça essa lógica ao não estimular
as exportações.
Voltando
aos Estados Unidos: o presidente Bush vai conseguir o fast-track
para negociar acordos comerciais com mais liberdade?
Acredito que sim. Se essa pergunta me fosse feita há
dois ou três meses, eu diria que não haveria
o menor problema. Mas, dadas as complicações
em torno da eleição norte-americana, acredito
que o presidente terá um pouco mais de dificuldade.
Não podemos esquecer que o Senado norte-americano estará
dividido: 50% democrata e 50% republicano. Isso será
um empecilho para Bush. De qualquer modo, um dos seus pontos
fortes é a capacidade de firmar alianças. Se
ele conseguir atrair setores moderados ou conservadores do
Partido Democrata, terá grandes possibilidades de obter
o fast-track e evoluir nas negociações da Alca.
Como Bush não terá os problemas que Clinton
enfrentou até em nível pessoal ,
de uma forte crise de liderança conjugada a atropelos
naturais no último período de mandato, acredito
que vai querer acelerar o processo o máximo que puder.
Tanto que já se discute a antecipação
da Alca de 2005 para 2003. É importante lembrar, porém,
que os americanos não precisam do fast-track para celebrar
um acordo de integração regional. O fast-track
é importante no final das conversações,
porque aí você já tem o pacote quase pronto,
e esse instrumento facilita a aprovação no Congresso
do que foi tratado pelo Executivo.
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