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Abismo digital Levar
a informática para milhares de brasileiros pode ser um grande
passo, mas há um abismo entre incluídos e excluídos
digitais. De acordo com a International Data Corporation (IDC),
somente 6 milhões de brasileiros têm acesso à
internet. É apenas 2,7% da população, contra
3,8% da Argentina e 44,4% dos Estados Unidos, com base nos dados
da IDC. Quando se observa o perfil desses internautas, fica evidente
o desequilíbrio mais de 70% ganham acima de dez salários
mínimos e apenas 5% recebem menos de cinco, segundo pesquisa
Cade?Ibope/2000.
| A
ESCALADA DA SOLIDARIEDADE |
| No ano passado, 60 mil brasileiros passaram
pelas escolas do CDI |
| |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
| Escolas |
11 |
31 |
54 |
117 |
200 |
| Estudantes |
2.500 |
8.080 |
17.800 |
38.860 |
60.000 |
| Educadores |
22 |
64 |
128 |
262 |
372 |
| Computadores |
70 |
136 |
315 |
863 |
930 |
| Estados |
2 |
4 |
7 |
13 |
17 |
|
A desigualdade na distribuição dos computadores também
faz com que o apartheid digital aumente. Segundo o Banco Mundial,
apenas 26 em cada mil brasileiros possuem computadores. Nos Estados
Unidos, a proporção é de 400 aparelhos por
mil pessoas. E não poderia ser diferente. Cerca de
66 milhões de brasileiros precisariam acumular a renda de
três a oito anos de trabalho para adquirir um micro,
calcula Eduardo Eugenio Gouvea Vieira, presidente da Federação
das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). A solução
pode estar na redução de impostos. No mês passado,
foi aprovada no Senado a Lei de Informática, que reduz o
IPI para computadores e periféricos. As alíquotas
podem cair de 15% a 20% para 2%.
O governo também acena com o Fundo de Universalização
dos Serviços de Telecomunicações. O Fust, formado
principalmente por 1% de todas as receitas das teles, deve proporcionar
o acesso às novas tecnologias para localidades com menos
de 100 habitantes. Uma verba que pode chegar a R$ 1, 27 bilhão
neste ano. A Caixa Econômica Federal também está
nessa empreitada. Em parceria com a Globo.com, a Caixa lançou
uma linha de crédito de R$ 1,6 bilhão para financiar
a compra de um milhão de equipamentos a juros subsidiados.
A Firjan quer uma solução mais drástica. Em
dezembro, encaminhou uma proposta para a criação do
Projeto Estratégico de Digitalização Acelerada.
A intenção é garantir a isenção
total de impostos, como ICMS e IPI, para equipamentos de informática.
Em contrapartida, as multinacionais reservariam 3% de suas receitas
de exportação para difundir a alfabetização
digital. Os recursos são estimados em US$ 800 milhões
em três anos.
A melhor ação social do governo seria eliminar
qualquer tipo de tributação para equipamentos de informática,
concorda John Mein, presidente da Câmara Americana de Comércio
de São Paulo (Amcham). Enquanto isso não acontece,
a própria Amcham resolveu se mexer. Em 2000, lançou
a campanha Megajuda a fim de arrecadar computadores para o CDI.
Conseguiu mais de 600 equipamentos. Neste ano, a entidade vai repetir
a dose e incrementar o projeto. Vamos motivar os funcionários
das empresas a se tornar instrutores voluntários de informática,
antecipa Mein.
Realmente, só computador não basta. Em vez
de adequar a máquina ao analfabeto, devemos educar o povo
para que ele possa utilizar a máquina adequadamente,
defende Antonio Sergio Fragomeni, secretário de Política
Tecnológica Empresarial do Ministério da Ciência
e Tecnologia. Para isso, o governo estruturou o maior projeto de
informatização do país. O Programa Nacional
de Informática na Educação (Proinfo), do Ministério
da Educação, quer enviar 100 mil computadores para
as escolas públicas e beneficiar 7,5 milhões de pessoas.
Até o momento, 3 milhões de alunos já passaram
pelas salas do Proinfo. O projeto também quer conectar todas
as escolas de ensino médio até 2002. O maior desafio
é motivar professores. A informática muda as
relações de poder, já que o aluno pode adquirir
uma habilidade em tecnologia tão grande a ponto de superar
o educador, aponta Claúdio Salles, diretor do Proinfo.
A Escola do Futuro, um projeto que a Universidade de São
Paulo mantém há dez anos, também ergue a bandeira
da capacitação. Primeiro, o professor vivencia
as atividades como aluno para depois saber como vai aplicar o conhecimento
para o estudante, explica Silvia Fichmann, coordenadora de
equipes construtivas da Escola do Futuro.
Ação conjunta
Mas esse tipo de projeto só beneficia quem já está
na escola. Um dos trunfos do CDI é justamente o de alcançar
quem não ocupa mais os bancos escolares. Não
se pode esperar milagres do governo. O problema pede uma ação
conjunta, reconhece Salles, do Proinfo.
A mesma tecnologia que aprofunda desigualdades acaba promovendo
a inclusão. Os jovens estavam ociosos. Mas se eles
dominassem o computador, poderiam ser atraídos de volta para
a escola, acredita Sonia Regina Gonçalves da Silva,
coordenadora da escola da Associação de Mulheres e
Amigos do Morro do Urubu, no Rio de Janeiro, que integra o CDI.
E foi o que ocorreu. Fascinados pela novidade, já que muitos
nunca tinham tido contato com o computador, alguns voltaram a estudar
e outros estão fazendo estágio.
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