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Edição 162 - Janeiro de 2001  

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Abismo digital – Levar a informática para milhares de brasileiros pode ser um grande passo, mas há um abismo entre incluídos e excluídos digitais. De acordo com a International Data Corporation (IDC), somente 6 milhões de brasileiros têm acesso à internet. É apenas 2,7% da população, contra 3,8% da Argentina e 44,4% dos Estados Unidos, com base nos dados da IDC. Quando se observa o perfil desses internautas, fica evidente o desequilíbrio – mais de 70% ganham acima de dez salários mínimos e apenas 5% recebem menos de cinco, segundo pesquisa Cade?Ibope/2000.

A ESCALADA DA SOLIDARIEDADE
No ano passado, 60 mil brasileiros passaram pelas escolas do CDI
  1996 1997 1998 1999 2000
Escolas 11 31 54 117 200
Estudantes 2.500 8.080 17.800 38.860 60.000
Educadores 22 64 128 262 372
Computadores 70 136 315 863 930
Estados 2 4 7 13 17

A desigualdade na distribuição dos computadores também faz com que o apartheid digital aumente. Segundo o Banco Mundial, apenas 26 em cada mil brasileiros possuem computadores. Nos Estados Unidos, a proporção é de 400 aparelhos por mil pessoas. E não poderia ser diferente. “Cerca de 66 milhões de brasileiros precisariam acumular a renda de três a oito anos de trabalho para adquirir um micro”, calcula Eduardo Eugenio Gouvea Vieira, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). A solução pode estar na redução de impostos. No mês passado, foi aprovada no Senado a Lei de Informática, que reduz o IPI para computadores e periféricos. As alíquotas podem cair de 15% a 20% para 2%.

O governo também acena com o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações. O Fust, formado principalmente por 1% de todas as receitas das teles, deve proporcionar o acesso às novas tecnologias para localidades com menos de 100 habitantes. Uma verba que pode chegar a R$ 1, 27 bilhão neste ano. A Caixa Econômica Federal também está nessa empreitada. Em parceria com a Globo.com, a Caixa lançou uma linha de crédito de R$ 1,6 bilhão para financiar a compra de um milhão de equipamentos a juros subsidiados.

A Firjan quer uma solução mais drástica. Em dezembro, encaminhou uma proposta para a criação do Projeto Estratégico de Digitalização Acelerada. A intenção é garantir a isenção total de impostos, como ICMS e IPI, para equipamentos de informática. Em contrapartida, as multinacionais reservariam 3% de suas receitas de exportação para difundir a alfabetização digital. Os recursos são estimados em US$ 800 milhões em três anos.
“A melhor ação social do governo seria eliminar qualquer tipo de tributação para equipamentos de informática”, concorda John Mein, presidente da Câmara Americana de Comércio de São Paulo (Amcham). Enquanto isso não acontece, a própria Amcham resolveu se mexer. Em 2000, lançou a campanha Megajuda a fim de arrecadar computadores para o CDI. Conseguiu mais de 600 equipamentos. Neste ano, a entidade vai repetir a dose e incrementar o projeto. “Vamos motivar os funcionários das empresas a se tornar instrutores voluntários de informática”, antecipa Mein.

Realmente, só computador não basta. “ Em vez de adequar a máquina ao analfabeto, devemos educar o povo para que ele possa utilizar a máquina adequadamente”, defende Antonio Sergio Fragomeni, secretário de Política Tecnológica Empresarial do Ministério da Ciência e Tecnologia. Para isso, o governo estruturou o maior projeto de informatização do país. O Programa Nacional de Informática na Educação (Proinfo), do Ministério da Educação, quer enviar 100 mil computadores para as escolas públicas e beneficiar 7,5 milhões de pessoas. Até o momento, 3 milhões de alunos já passaram pelas salas do Proinfo. O projeto também quer conectar todas as escolas de ensino médio até 2002. O maior desafio é motivar professores. “A informática muda as relações de poder, já que o aluno pode adquirir uma habilidade em tecnologia tão grande a ponto de superar o educador”, aponta Claúdio Salles, diretor do Proinfo. A Escola do Futuro, um projeto que a Universidade de São Paulo mantém há dez anos, também ergue a bandeira da capacitação. “Primeiro, o professor vivencia as atividades como aluno para depois saber como vai aplicar o conhecimento para o estudante”, explica Silvia Fichmann, coordenadora de equipes construtivas da Escola do Futuro.

Ação conjunta – Mas esse tipo de projeto só beneficia quem já está na escola. Um dos trunfos do CDI é justamente o de alcançar quem não ocupa mais os bancos escolares. “Não se pode esperar milagres do governo. O problema pede uma ação conjunta”, reconhece Salles, do Proinfo.

A mesma tecnologia que aprofunda desigualdades acaba promovendo a inclusão. “Os jovens estavam ociosos. Mas se eles dominassem o computador, poderiam ser atraídos de volta para a escola”, acredita Sonia Regina Gonçalves da Silva, coordenadora da escola da Associação de Mulheres e Amigos do Morro do Urubu, no Rio de Janeiro, que integra o CDI. E foi o que ocorreu. Fascinados pela novidade, já que muitos nunca tinham tido contato com o computador, alguns voltaram a estudar e outros estão fazendo estágio.

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