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CONGRESSO
OFF-LINE
Dia-a-dia do Legislativo, documentos
públicos, como votam os parlamentares. Numa democracia como a norte-americana,
quase nada disso está na internet. O eleitor quer saber por quê
David Corn
Por que o Congresso norte-americano não emprega
a tecnologia para se tornar mais acessível ao público?
Foi a pergunta que se fez, em abril de 1999, o consultor político
Philip Angell, na época coordenador de comunicações
da Monsanto, multinacional de biotecnologia. Angell assistia a um
telejornal quando passou a refletir sobre a natureza das sessões
do Congresso: uma procissão de especialistas, advogados,
gente do governo, lobistas, acadêmicos e vários representantes
de cidadãos que circulam pelas comissões da Câmara
e do Senado. Mesmo que algumas sessões não sejam mais
que exercícios de exibicionismo, a maioria é digna
de nota, particularmente aquelas envolvendo questões sobre
legislação e fiscalização das agências
governamentais.
Angell sabia o quanto é difícil assistir
às sessões que realmente interessam as salas
das comissões não são grandes o suficiente,
a maioria dos congressistas não faz o menor esforço
para facilitar a vida do público e dezenas de lobistas e
repórteres invadem em peso o lugar, sempre que algum assunto
importante está em pauta. A TV a cabo C-Span, que trata do
dia-a-dia parlamentar, transmite um número limitado de sessões.
E, dentro da boa tradição burocrática, as comissões
só publicam a transcrição de seus trabalhos
meses depois de concluídos. Em resumo: ainda que muitas dessas
atividades sejam oficialmente públicas, não
são de fácil acesso para o cidadão. Com certeza,
pensou Angell, a tecnologia poderia abrir algumas portas.
Há alguns meses, o consultor lançou
o site www.hearingroom.com, que utiliza a tecnologia de reconhecimento
da voz para colocar no ar, em tempo real, o áudio e a transcrição
das discussões do Congresso. Em apenas 14 meses, conseguiu
fazer o que o Congresso não tinha se dado ao trabalho de
tentar. O negócio é promissor: Angell já estima
um lucro de US$ 3 milhões somente para o primeiro ano de
funcionamento do site. O preço do acesso de US$ 1
mil a US$ 15 mil por ano está longe de ser popular.
Naturalmente, seus principais clientes são lobistas, corporações
e imprensa. O cidadão comum ainda está de fora.
O empreendimento lucra em cima de uma grande falha.
Afinal, por que aqueles que detêm o poder, as pessoas que
escrevem as leis americanas e compõem o que deveria ser o
braço direito do governo federal, não fazem uso da
internet como forma de divulgação de seu trabalho
diário? Em 1994, dias depois de os conservadores republicanos
terem tomado o controle da Câmara dos Deputados norte-americana,
seu futuro presidente, Newt Gingrich, declarou que colocaria a instituição
na era da informática. Gingrich se considerava um revolucionário
prestes a reformular o governo e a renovar a sociedade. Ele garantiu
que criaria um sistema para liberar ao país inteiro o acesso
eletrônico aos documentos da Casa. Com seu típico talento
melodramático, prometeu mudar inteiramente o fluxo
de informações e a qualidade do conhecimento da população.
Certamente havia espaço de sobra para tantas
melhorias. Na época, apenas uns poucos documentos, como o
texto original de alguns decretos, estavam disponíveis on-line.
Gingrich sabia que poderia fazer mais. Ao anunciar que estava recrutando
o escritor futurista Alvin Toffler e várias empresas de alta
tecnologia, garantiu que modificaria as regras da Casa para exigir
que todos os documentos fossem arquivados eletronicamente e para
que, assim, todas as informações estivessem acessíveis
a todos os cidadãos do país da mesma maneira
que estão disponíveis aos mais bem-pagos lobistas
de Washington. Era um plano inovador e voltado para o futuro,
mas, infelizmente, não foi muito longe. O acesso que os lobistas
têm a esses dados importantes ainda é maior que o de
qualquer mortal conectado.
Hoje, todos os membros do Congresso têm página
na internet para autopromoção. Mesmo assim, muito
do trabalho básico do Congresso não pode ser pesquisado
via rede, e há pouquíssima discussão para melhorar
essa realidade. Por muitos anos, os defensores da digitalização
dessas informações têm reclamado que o Congresso
descumpriu a promessa de 1994. Liderando o grupo está Gary
Ruskin, diretor do Projeto de Confiabilidade do Congresso, uma organização
fundada por Ralph Nader, advogado de grande participação
política nas causas de proteção ao consumidor
e que concorreu algumas vezes à Presidência pelo Partido
Verde.
Sentado em seu escuro escritório, Ruskin
lista informações vitais que o Congresso não
coloca na rede. Os primeiros itens: rascunhos de legislação
e novas versões de decretos que emergem do trabalho de comissões
e subcomissões. Nada disso se encontra no endereço
www.thomas.loc.gov,
a página principal da instituição, embora esses
materiais sejam distribuídos impressos entre os lobistas
que infectam os corredores do Congresso. Só que nenhum presidente
de comissão considera prioridade a divulgação
eletrônica de tais trabalhos. Ainda não encontrei
um membro do Congresso que apóie a divulgação
on-line desse material, reclama Ruskin. Há razões
para que queiram manter segredo acerca de alguns decretos. Eles
esperam que coisas como favores a colaboradores ou projetos inúteis
não sejam facilmente descobertas. Mas aqui se encontra uma
questão básica: como os cidadãos podem interferir
junto ao Congresso se não têm acesso a documentos legislativos
relevantes?.
Em www.thomas.loc.gov
faltam muitas informações úteis, incluindo
os relatórios do Serviço de Pesquisa do Congresso,
um centro sem vinculação partidária, que já
publicou por volta de 3 mil estudos sobre uma grande variedade de
assuntos, dentre eles segurança dos alimentos, aquecimento
global e até a própria internet. Pode-se obter cópia
de qualquer dessas peças, por exemplo, remetendo um pedido
por escrito às secretarias do Congresso, mas o fato é
que todos os relatórios poderiam estar disponíveis
on-line de maneira fácil e barata, como já podem ser
localizados na intranet da instituição. Tanto o Congresso
como o Serviço de Pesquisa têm resistido aos pedidos
de acesso público à sua rede interna. O Congresso
também não fornece um banco de dados pesquisável
com os votos de cada parlamentar. Você pode obter a
receita do prato favorito de um senador em sua página pessoal,
mas não pode descobrir a orientação de seus
votos, protesta Ruskin. Não se trata de tecnologia
de foguetes. Qualquer garoto de 12 anos poderia montar esse banco
de dados.
Outra falha. Várias vezes por ano, lobistas
são chamados para se registrar no Congresso e revelar que
tipo de legislação estão tentando influenciar.
Também esses relatórios não são divulgados
pela Casa, fato muito mais grave, pois demonstra como são
poderosos os interesses que moldam as leis. Outros documentos básicos,
como relatórios de doações recebidas e despesas
efetuadas, podem ser obtidos na forma de impressos por meio de um
simples contato com as diversas secretarias do Congresso, mas não
são encontrados on-line. Por que o Congresso não
disponibiliza essas informações assim que as recebe?,
pergunta-se Larry Makinson, diretor executivo do Centro para a Política
Participativa. Há uma inércia institucional
difícil de compreender.
Grupos de defesa do interesse público estão pressionando
os políticos a divulgar eletronicamente as informações
de maneira mais instantânea. Dois anos atrás, ONGs
de Washington, como o Centro para a Democracia e Tecnologia e o
Observador OMB, publicaram uma lista com os dez documentos governamentais
mais procurados que deveriam estar na rede. Na relação,
vários itens do Congresso, como os relatórios do Serviço
de Pesquisa, as notas taquigráficas das comissões
e um banco de dados com os votos dos parlamentares. Bibliotecários
e pesquisadores também estão pressionando em favor
do acesso eletrônico a esse tipo de material.
Poucos no Congresso comungam da mesma revolta. John
McCain, republicano do Arizona, e Patrick Leahy, democrata de Vermont,
apresentaram leis bipartidárias para colocar os relatórios
on-line e compelir o Senado a divulgar dados acerca de lobistas
e despesas de parlamentares. Uma grande coalizão apoiou o
projeto quando ele entrou em pauta em fevereiro de 1999, integrando
a Common Cause (organização sem vínculo partidário
que visa a promover um governo honesto e aberto), a Liga de Mulheres
Votantes, a Fundação para a Fronteira Eletrônica,
a Associação Nacional de Indústrias, a IBM,
a AOL, a Netscape e a Intel. Mas a legislação parou
na Comissão de Regras do Senado e está lá até
agora, conforme afirma McCain. Na Câmara, Christopher Shays,
republicano de Connecticut, e David Price, democrata da Carolina
do Norte, elaboraram um projeto de lei para a divulgação
dos relatórios do Serviço de Pesquisa que também
não está andando muito rápido.
Nem todas as notícias são ruins. Alguns
dos mais de 20 mil sites governamentais progrediram no uso da informática,
e, nesse ponto, a administração Clinton se tornou
forte em seus últimos meses. Ari Schwartz, um analista político
do Centro para a Democracia e Tecnologia, aplaude a iniciativa da
Agência de Proteção Ambiental de colocar on-line
seu banco de dados sobre inventários de dejetos tóxicos.
Os visitantes do site www.epa.gov/tri
podem determinar que tipo de substância tóxica está
sendo usada, transportada ou liberada em determinada área.
A Comissão de Ciência da Câmara e a Comissão
de Comércio, Ciência e Transportes do Senado ocasionalmente
colocam no ar suas sessões, e outras comissões parecem
estar prontas a seguir o exemplo. A Comissão de Eleições
Federais (FEC) mantém um site de fácil acesso (www.fec.gov)
que fornece extensa informação acerca da origem dos
fundos de campanha dos políticos.
A Casa Branca gastou US$ 600 mil em sete meses para
reformular www.whitehouse.gov.
A página permite que os cidadãos consultem o farto
material (discursos, pronunciamentos impressos, relatórios)
que a Casa Branca produz. Também podem fazer reservas em
acampamentos de parques florestais, apresentar reclamações
sobre fraude contra o consumidor, ler os relatórios sobre
o índice de acidentes dos novos modelos de automóveis
e preencher pedido de auxílio-escola. Nenhuma dessas mudanças
compele o Congresso a ir na mesma direção. Mas, vale
frisar, os obstáculos para a instalação de
um e-congresso não são de natureza tecnológica
nem financeira. É um problema de vontade política.
Precisamente o que parece estar em falta.
A razão para o passo lento do Congresso não
tem sido difícil de distinguir. As pessoas que mandam no
lugar não são utopistas visando a mudar a dinâmica
de poder entre políticos e cidadãos. Como diz Larry
Makinson, do Centro para a Política Participativa: Newt
Gingrich gostaria de disponibilizar tudo na internet, exceto o que
é inconveniente para os membros do Congresso. Ruskin
argumenta que o Congresso deveria utilizar a internet para possibilitar
que cidadãos influenciem as leis que estão em projeto.
Porém o Congresso não deseja armar as pessoas com
informações digitais. Falar sobre documentos
do governo na internet não dá tanta notícia
quanto questões como o seguro social ou a guerra contra a
Sérvia. Poucas pessoas se preocupam com isso por aqui,
declara um congressista. É responsabilidade do governo explorar
avanços tecnológicos para melhorar o envolvimento
dos cidadãos no processo legislativo e reforçar a
ligação entre governo e governados, mas o mesmo congressista
faz uma triste constatação: A menos que haja
um grande interesse público no assunto, nunca chegará
o momento propício para mudanças.
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ENQUANTO ISSO NO BRASIL
Pelo menos no que diz respeito à presença na
internet, os legisladores brasileiros estão mais avançados
que os colegas norte-americanos. Os sites oficiais, principalmente
aqueles ligados ao Congresso Nacional, divulgam relativamente
bem os documentos do governo. Estão na rede, por exemplo,
as notas taquigráficas de sessões do dia anterior,
com apenas um dia de defasagem. No Rio Grande do Sul, a Assembléia
Legislativa e o Tribunal de Justiça veiculam a transcrição
das sessões nas suas páginas. Veja alguns endereços.
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