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JAMES
GREEN

BRASILIANISTA, ESCRITOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

A união civil de homossexuais já é sacramentada pela
lei em alguns Estados norte-americanos. A sociedade anda
mais arejada, mas ainda há uma bandeira importante para
empunhar: a luta contra a discriminação velada, que se
manifesta, por exemplo, no meio empresarial. “Se o executivo
é solteiro e sem mulher, não se encaixará no 'modelo'
dessa categoria profissional e não conseguirá ascender
na carreira. Ou terá de se fingir heterossexual”, protesta,
em entrevista a AMANHÃ, o brasilianista James Green. Ativista,
fundador do Somos, um dos primeiros grupos gays do Brasil,
e professor de História da América Latina na Universidade
da Califórnia, ele lançou o livro Além do Carnaval, um
mergulho de 500 páginas na história da homossexualidade
masculina no Brasil, durante o século 20. |
Guilherme
Diefenthaeler*

  
Quais são os países mais progressistas
no respeito às minorias?
A Holanda é o mais avançado. O país acabou
de eliminar qualquer diferença entre relações
heterossexuais e homossexuais, ou seja, finalmente o casamento
homossexual foi aprovado. Os Estados Unidos reproduzem um
discurso de defensor da democracia e dos direitos humanos,
mas muitas vezes sua noção de democracia é
limitada. No começo do século 21, gays e lésbicas
ainda não têm os mesmos direitos que os heterossexuais.
Isso sinaliza como a moral cristã ainda domina muitos
setores do público norte-americano. Mas há avanços.
Por exemplo, nos últimos seis anos, gays e lésbicas
de outras partes do mundo que sofrem violência por causa
da opção sexual têm conseguido asilo político
nos Estados Unidos. Essa abertura começou com a postura
de alguns juízes que reinterpretaram as leis de imigração
para incorporar a situação de homofobia e violência
enfrentada por gays, lésbicas e travestis em diversos
países. Mas não quero deixar a impressão
de que os Estados Unidos são um paraíso. Ao
contrário, existe todo um setor da sociedade religiosa
e conservadora que é totalmente contra a homossexualidade
e a sua visibilidade. Ou seja, não terminou a batalha.
| “No
Brasil, há 'tolerância' ao gay em certas profissões, se
você mantém a vida particular bem discreta, coisa que
os heteros não precisam fazer“ |
E quanto ao Brasil, em que situações
o sr. percebe que essa discriminação é
mais grave?
Se falamos de negros, como minoria, existe uma rede enorme
de preconceitos no trabalho, nas relações sociais...Há
um pré-julgamento da pessoa, como se ela fosse de uma
classe social inferior. Quanto a gays e lésbicas, o
preconceito existe, mas é variável. Em muitos
empregos, um gay efeminado simplesmente não avança
além de um determinado nível. Claro que, se
é cabeleireiro ou estilista, não há problema
porque essas já são profissões em que
se espera um homem efeminado. Mas um executivo não
casado, que precisa manter uma vida social com clientes, por
exemplo, e não tem mulher nem filhos, não vai
se encaixar no modelo estabelecido para essa categoria profissional.
E não vai conseguir ascender na carreira. No Brasil,
há tolerância e aceitação em determinadas
profissões, desde que você mantenha a vida particular
bem discreta. Coisa que o homem hetero não precisa
fazer.
Qual o tipo de discriminação mais comum
contra o homossexual na empresa?
É sutil: aquela situação em que você
não sente vontade em se abrir sobre a sua vida particular
enquanto os colegas falam o tempo todo sobre mulher e filhos.
A discriminação mais gritante se
dá quando o ambiente não permite espaço
para que as pessoas sejam transparentes no trabalho. Também
existe aquela noção de que só um homem
verdadeiro ou seja, heterossexual
tem capacidade de dirigir um projeto, uma empresa, e que o
gay não é capaz. Por isso, muitas pessoas ainda
mantêm uma vida dupla, escondem sua realidade do chefe
e dos colegas. Existe um telhado de vidro que reduz as possibilidades
de avanço na carreira para homens solteiros,
sem mulher e, assim, classificados como
suspeitos. Ou essa pessoa tem de se fingir heterossexual
ou não participa da vida social que a empresa impõe
aos executivos de alto escalão. Já falei com
vários gays que sofreram porque não queriam
entrar no jogo.
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