|


Ao descobrir que a
população de baixa renda tem algum dinheiro no bolso e muita
vontade de gastar, as grandes empresas começam uma
corrida em busca do tempo perdido
Consuelo Bassanesi
e Irene Bof*

  
Você tem geladeira, fogão, freezer,
microondas, celular, computador. Anda de carro, lava suas
roupas numa máquina e seca na outra. Também
possui cartões de crédito, conta em banco e
viaja regularmente. Mas você e sua turma
não representa muito mais do que 20% da população
brasileira, somando as classes A e B, embora participem com
quase 55% do consumo. Justamente porque todos esses produtos
já estão em sua cozinha, sala, garagem e carteira,
a bola da vez é a classe C o novo alvo das indústrias
e empresas de serviços. A tendência, viabilizada
graças à estabilidade da economia, que permite
pagamentos em prestações a perder de vista,
ainda é embrionária, mas é um bom sinalizador
do que está por vir. Trata-se, afinal, de um público
considerável: cerca de 31% dos brasileiros se incluem
nessa faixa, que tem renda mensal familiar entre R$ 497 e
R$ 1.064.
Embora formada por pessoas com poder de consumo
modesto, a massa popular vale ouro pelo volume. Afinal, as
empresas já não podem abrir mão de um
exército de consumidores que não dispõem
de vários produtos básicos em casa muito
menos os supérfluos. Segundo dados da Associação
Nacional de Empresas de Pesquisa (ANEP), 93% das famílias
da classe C não têm máquina de secar roupa,
99% não possuem máquina de lavar louça
e apenas 3% são donos de microcomputador. Em síntese,
um enorme mercado a desbravar.
Um levantamento divulgado pela agência Salles DMB&B
aponta que nas famílias da classe C há uma sobra
de orçamento de R$ 232, depois de supridas as necessidades
básicas. Multiplique pelo número estimado de
famílias segundo a Salles, são 6,5 milhões
, e o valor vai às alturas: mais de R$ 1,5 bilhão
disponíveis todo mês. Um outro estudo, realizado
pela Target Marketing, de São Paulo, atesta que a classe
C deve gastar US$ 107,6 bilhões neste ano (leia tabela
Para onde vai o dinheiro da classe C?), ante os
US$ 93,3 bilhões desembolsados no ano passado.
O professor James Right, da Faculdade de Economia
e Administração da USP, acompanha há
dez anos as oscilações do poder aquisitivo do
brasileiro. Para ele, é evidente que o volume de consumo
tem inflado nas classes C e D, até por conta do aumento
dessa fatia da população. É uma
tendência de longa data: em 1985, nós já
constatávamos mudanças nessa direção,
relata. Mesmo assim, segundo Right, a oferta de produtos para
a classe C ainda é limitada, e a maioria dos empresários
prefere manter esse público no ponto cego dos negócios.
É uma ótima oportunidade para as empresas
brasileiras, já que as estrangeiras não atendem
ao segmento, avisa o professor. Right está certo.
Enquanto as multinacionais dominam como ninguém o dito
mercado top, ganha pontos, para a conquista de fregueses da
classe C, quem reconhece as peculiaridades dessa categoria
de consumo.
Tradição O Grupo
Silvio Santos sabe disso há décadas. O
nosso cliente forte é a classe C, reverencia
Nelson Baiões, gerente administrativo da BF Utilidades
Domésticas, empresa que você conhece como Baú
da Felicidade. As lojas do Baú vendem produtos para
o lar num sistema de pagamento antecipado, no qual o cliente
adquire um carnê, quita 12 parcelas mensais de R$ 12,
concorre a prêmios e, ao fim do período, troca
o crédito de R$ 144 por alguma das mercadorias oferecidas.
A primeira loja abriu as portas em 1963. Hoje, os 44 pontos-de-venda,
espalhados por todas as regiões do país, emitem
300 mil novos carnês a cada mês, empregam 4.550
funcionários e esperam repetir em 2000 o faturamento
de R$ 173 milhões do ano passado. Nós
não temos concorrentes. Além disso, o nosso
garoto-propaganda é espetacular, o rapaz vende muito
bem, brinca Baiões, referindo-se ao chefe, Silvio
Santos.

*Colaborou
Martha Batalha, do Rio de Janeiro
|