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RUBEM
CÉSAR FERNANDES

COORDENADOR DO MOVIMENTO VIVA RIO
Coordenador
desde 1993 do movimento Viva Rio, ONG que prega
o combate à violência pelo controle do uso de
armas, o pacifista Rubem César Fernandes usou
espingarda só uma vez na vida. Durante uma caçada
no rio Araguaia, atirou numa capivara – mas não
matou. A capivara se escondeu, ferida. Até hoje,
ele conta a história constrangido. A segunda e
última experiência foi com o pai, que tinha um
revólver 22. Pivetes entraram na casa da família,
apanharam a arma e dispararam um tiro na cabeça
do pai. Mestre em Filosofia e PhD em História
do Pensamento Social, Rubem é considerado um dos
maiores especialistas das últimas décadas em problemas
brasileiros. Durante 17 anos, foi presidente do
Ibase, instituto criado pelo sociólogo Betinho,
e também dirigiu o Iser, entidade voltada a estudos
sobre religião e sociedade que se notabilizou
por publicar textos críticos contra a ditadura.
Hoje, anda pregando a adoção do fair trade, ou
comércio justo, uma política de valorização dos
trabalhadores que já é regra no Primeiro Mundo,
mas desembarcou há pouco, no Brasil. Funciona
assim: em vez de comprar um tênis feito na Ásia
por operários em regime semi-escravo, o cliente
dá preferência a um produto que leva o selo fair
trade, indicando que por trás do calçado há costureiras
com salário melhor, investimentos em formação
profissional e outros benefícios humanitários.
Nesta entrevista, Rubem também revela um dado
perturbador: no Brasil, as taxas de violência
envolvendo jovens são três vezes maiores que nos
Estados Unidos. |
Martha
Batalha

  
Como
o empresariado pode contribuir para o controle da
violência?
Ele precisa investir no futuro. Isso nunca aconteceu
muito no Brasil por causa da inflação.
Tudo tinha de ser resolvido imediatamente, o empresário
correndo atrás do dia-a-dia. Hoje, já
se pensa a longo prazo, percebe-se que é preciso
investir para viabilizar o futuro do negócio.
Reflexo disso é o marketing social, o marketing
de valor público. Em vez de criar historinhas
bonitinhas sobre seu produto, as empresas agregam
valor a ele. Um exemplo atual é a organização
do festival Rock in Rio, sustentado no conceito por
um mundo melhor. A idéia é forte
e valoriza o evento. O investimento social é
um bom marketing, faz bem para a empresa. Não
é uma caridadezinha posta ali, é um
investimento no produto. O Viva Rio foi convidado
a colaborar na concepção do festival.
Todas as empresas que participarem vão destinar
cerca de 5% dos lucros para a educação
de jovens. Hoje, 52% dos jovens chegam à vida
adulta sem o segundo grau. Dessa maneira, não
têm passaporte para participar do Brasil.
O sr. tem defendido a adoção do fair
trade pela empresa brasileira. Existem muitas organizações
engajadas nessa política?
Se você buscar a palavra fair trade nos
sites internacionais de pesquisas, vai encontrar milhares
de links relacionados. Se procurar num site nacional,
não encontrará nenhum. Esse conceito
recém começou a ser formulado no Brasil.
Não conheço outro movimento além
do Viva Rio que esteja trabalhando com essa ótica.
No nosso caso, investimos no setor de confecção,
porque a área têxtil tem tradição
no Rio e sofreu muito com a entrada do produto estrangeiro
e de novas tecnologias. O Rio tem uma quantidade enorme
de costureiras com histórias de trabalho competente
e sacrificado. Estamos atuando com cooperativas de
costureiras terceirizadas. Por meio do fair trade,
as empresas que procurarem o Viva Rio para uma encomenda
não vão fazer apenas um bom negócio,
mas um investimento social. Com o projeto, cadastramos
costureiras, analisamos suas condições
de trabalho, ajudamos a melhorar o maquinário
através do Viva Crédito,
investimos em treinamento e fazemos a ponte entre
elas e as empresas que querem as encomendas. Para
cada peça fabricada e aceita, as costureiras
ganham R$ 0,10. Isso aumenta o lucro delas em até
três vezes. E o cliente estará comprando
uma peça que passou por um processo de produção
socialmente justo, com direito ao selo fair trade.
Estamos com capacidade para produzir 150 mil peças
por mês. Temos encomendas das Lojas Americanas
de todo o Estado do Rio e de empresas menores, além
do Rock in Rio.

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