Edição nº158

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RUBEM CÉSAR FERNANDES

COORDENADOR DO MOVIMENTO VIVA RIO

Coordenador desde 1993 do movimento Viva Rio, ONG que prega o combate à violência pelo controle do uso de armas, o pacifista Rubem César Fernandes usou espingarda só uma vez na vida. Durante uma caçada no rio Araguaia, atirou numa capivara – mas não matou. A capivara se escondeu, ferida. Até hoje, ele conta a história constrangido. A segunda e última experiência foi com o pai, que tinha um revólver 22. Pivetes entraram na casa da família, apanharam a arma e dispararam um tiro na cabeça do pai. Mestre em Filosofia e PhD em História do Pensamento Social, Rubem é considerado um dos maiores especialistas das últimas décadas em problemas brasileiros. Durante 17 anos, foi presidente do Ibase, instituto criado pelo sociólogo Betinho, e também dirigiu o Iser, entidade voltada a estudos sobre religião e sociedade que se notabilizou por publicar textos críticos contra a ditadura. Hoje, anda pregando a adoção do fair trade, ou comércio justo, uma política de valorização dos trabalhadores que já é regra no Primeiro Mundo, mas desembarcou há pouco, no Brasil. Funciona assim: em vez de comprar um tênis feito na Ásia por operários em regime semi-escravo, o cliente dá preferência a um produto que leva o selo fair trade, indicando que por trás do calçado há costureiras com salário melhor, investimentos em formação profissional e outros benefícios humanitários. Nesta entrevista, Rubem também revela um dado perturbador: no Brasil, as taxas de violência envolvendo jovens são três vezes maiores que nos Estados Unidos.

Martha Batalha

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Como o empresariado pode contribuir para o controle da violência?
Ele precisa investir no futuro. Isso nunca aconteceu muito no Brasil por causa da inflação. Tudo tinha de ser resolvido imediatamente, o empresário correndo atrás do dia-a-dia. Hoje, já se pensa a longo prazo, percebe-se que é preciso investir para viabilizar o futuro do negócio. Reflexo disso é o marketing social, o marketing de valor público. Em vez de criar historinhas bonitinhas sobre seu produto, as empresas agregam valor a ele. Um exemplo atual é a organização do festival Rock in Rio, sustentado no conceito “por um mundo melhor”. A idéia é forte e valoriza o evento. O investimento social é um bom marketing, faz bem para a empresa. Não é uma caridadezinha posta ali, é um investimento no produto. O Viva Rio foi convidado a colaborar na concepção do festival. Todas as empresas que participarem vão destinar cerca de 5% dos lucros para a educação de jovens. Hoje, 52% dos jovens chegam à vida adulta sem o segundo grau. Dessa maneira, não têm passaporte para participar do Brasil.

O sr. tem defendido a adoção do fair trade pela empresa brasileira. Existem muitas organizações engajadas nessa política?

Se você buscar a palavra fair trade nos sites internacionais de pesquisas, vai encontrar milhares de links relacionados. Se procurar num site nacional, não encontrará nenhum. Esse conceito recém começou a ser formulado no Brasil. Não conheço outro movimento além do Viva Rio que esteja trabalhando com essa ótica. No nosso caso, investimos no setor de confecção, porque a área têxtil tem tradição no Rio e sofreu muito com a entrada do produto estrangeiro e de novas tecnologias. O Rio tem uma quantidade enorme de costureiras com histórias de trabalho competente e sacrificado. Estamos atuando com cooperativas de costureiras terceirizadas. Por meio do fair trade, as empresas que procurarem o Viva Rio para uma encomenda não vão fazer apenas um bom negócio, mas um investimento social. Com o projeto, cadastramos costureiras, analisamos suas condições de trabalho, ajudamos a melhorar o maquinário através do “Viva Crédito”, investimos em treinamento e fazemos a ponte entre elas e as empresas que querem as encomendas. Para cada peça fabricada e aceita, as costureiras ganham R$ 0,10. Isso aumenta o lucro delas em até três vezes. E o cliente estará comprando uma peça que passou por um processo de produção socialmente justo, com direito ao selo fair trade. Estamos com capacidade para produzir 150 mil peças por mês. Temos encomendas das Lojas Americanas de todo o Estado do Rio e de empresas menores, além do Rock in Rio.


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