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O consumidor não sabe o que está comendo nem os órgãos de fiscalização Pensar estrategicamente é uma atividade de alto impacto em nossa vida, porque define onde queremos chegar, considerando o ponto em que estamos, as circunstâncias do momento e as tendências do ambiente em que vamos empreender a nossa jornada. O diagnóstico de onde estamos e a decisão de para onde vamos é algo relativo a cada um de nós e/ou à nossa organização. Portanto, é preciso se debruçar sobre essa questão com vontade de descobrir de forma honesta e transparente a nossa posição estratégica. As circunstâncias do momento dependem de um diagnóstico sobre indicadores que escolhermos podem ser financeiros, sociais, de talento, de tempo, de potencial, de clientes, de mercado etc. Ou seja, é uma fotografia de nossa situação de acordo com um ângulo pré-definido. Sobre isso também é necessário um esforço de atenção e empenho, além da definição de fatores críticos para a elaboração de um diagnóstico eficaz. Contudo, essas questões dependem exclusivamente da nossa disposição. Em relação à percepção das tendências do ambiente é que o risco se instala. Isso porque as possibilidades são tantas e os sinais tão confusos, e por vezes contraditórios, que a chance de tomarmos decisões desastrosas não é incomum. Exemplos como o da IBM, que não acreditou na tendência dos microcomputadores, já fazem parte das lendas do mundo corporativo. As informações disponíveis no mercado, a pesquisa de dados gerados pelo movimento das organizações, a constatação dos investimentos que vêm sendo realizados, os temas que ganham importância na mídia, o comportamento do consumidor, além de uma boa dose de intuição, permitem elaborar algumas hipóteses muito prováveis. É a uma reflexão sobre essas hipóteses que se destina este artigo, que está sendo publicado simultaneamente pela Columbia Spectator, revista de negócios da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Elaborei, a partir de um trabalho de dois anos de pesquisa, observação e relacionamento no mercado, cinco grandes tendências para o mundo corporativo, que afetam de forma direta e indireta a vida de cada um de nós. Para facilitar a absorção dos conceitos, estabeleci essas tendências num conjunto de cinco Es. Vamos a eles. ECONOMIA DIGITAL Muito mais do que a internet, a tecnologia ou a automação presentes nessa tendência, o que muda de maneira significativa é a mentalidade humana. Trabalho em rede, times autogerenciados, atividades simultâneas e visão sistêmica são atributos importantíssimos que qualificam um novo tipo de perfil profissional e corporativo. Se até aqui pudemos realizar atividades, tarefas e processos de maneira excludente, escolhendo entre isto ou aquilo, a economia digital exige o esforço do paradoxo de viver tudo ao mesmo tempo. Não é mais um mundo linear, as ações e seus efeitos são simultâneos. Teremos de ir do OU para o E. Em vez de excluir possibilidades, ser capazes de compatibilizar competências. Os engenheiros terão de ser bons marqueteiros, os advogados serão educadores, os matemáticos precisarão desenvolver uma ampla capacidade de relações interpessoais, e assim sucessivamente. Tudo que parecia organizado por competências estanques deverá ser fundido numa visão holística e num comportamento de aprendizagem permanente. As organizações também vão modificar de forma significativa seu processo para gerar resultados, sabendo criar um ambiente para a multiplicidade de valores e competências humanas. Essa tendência exige uma revisão dos paradigmas a respeito do que é competência. Se até aqui competência estava ligada a ser capaz de gerar resultados, vai se tornar a capacidade de identificar novas maneiras, em diferentes ambientes, para atender a demandas diversas e gerar resultados. O nível de esforço aumenta consideravelmente. E lidar com a diversidade nem sempre é fácil. Entretanto, as oportunidades também se ampliam na medida exata da mudança da mentalidade da organização. E, como qualquer grande tendência, vai decidir os que permanecem e os que desaparecem. ÉTICA A discussão sobre ética vai ganhar impacto no conjunto de resultados de uma organização. Entretanto, a aplicação desse conceito será muito mais abrangente do que a questão moral envolvida, que é a única preocupação ética com a qual nos envolvemos hoje, e vai ganhar uma dimensão conceitual de maior relevância. O entendimento de ética como integração do indivíduo com sua essência vai passar de uma imagem retórica para ser a premissa na gestão dos talentos humanos das organizações. A cidadania, a missão individual dentro do ambiente coletivo, as aspirações sobre o futuro, a integridade do comportamento e a integração dos valores como família, trabalho, lazer e carreira. Todo esse conjunto de crenças e o reflexo das atitudes na sociedade e no mercado serão preocupações de primeira ordem para qualquer empreendimento que deseje se perpetuar. O nível de estresse, a qualidade das relações e a harmonia das atividades na produção de resultados têm repercussões éticas muito mais impactantes do que nossa percepção alcança. Esse desenvolvimento será vital para as empresas, por extrapolar as questões de mercado e mudar de forma profunda a responsabilidade social das corporações. ESTÉTICA Na década de 90, o design ganhou relevância. O mercado da decoração cresce em proporções geométricas, a arte passa a fazer parte do cotidiano do cidadão comum, formam-se filas de 5 mil pessoas para ver a exposição de Rodin, em São Paulo, e a de Leonardo da Vinci em Curitiba. Cerca de 12% das viagens internacionais são puramente culturais, e a World Future Society conclui que estamos entrando na sexta onda do mercado, que é a da cultura. A estética toma proporções de máxima relevância para o consumidor quando associada a símbolos de status. Esse senso extrapola produtos e serviços para classes privilegiadas e define uma tendência de mercado. Num futuro próximo, os consumidores vão eleger organizações que coloquem beleza em cada atividade que empreenderem. Ao atender o telefone, por exemplo, na organização do ambiente de trabalho, no comportamento dos colaboradores, na parceria com seus fornecedores e no relacionamento com seus clientes. A cortesia, o interesse, o envolvimento com o sucesso de todos não serão apenas coadjuvantes das atividades corporativas, mas os protagonistas que vão definir o rumo da história. ECOLOGIA Palavras e expressões como biodiversidade, desenvolvimento sustentado, planejamento planetário, revisão sistêmica e operação holística serão incorporadas pelas organizações como base do desenho estratégico do negócio. A idéia de ecologia vai extrapolar a questão puramente ambiental e ganhar conotação relacional. Ambientes ecologicamente corretos serão aqueles em que os indivíduos sejam preservados da intensa matança de idéias, onde o medo do risco será minimizado e o erro desejável como meio de aprendizagem. O ecológico nas tendências de mercado tem a ver com a constatação da necessidade de integrar as pessoas, e sua rica diversidade, aos projetos e objetivos da organização, com a consciência do impacto no ambiente. A organização ecológica terá um sistema planejado e organizado para respeitar e preservar a natureza básica dos indíviduos, sem matar seus sonhos ou expectativas. ESPIRITUALIDADE Sem conotação religiosa, a espiritualidade no ambiente corporativo se caracteriza pela essência da organização. Atividades realizadas de forma voluntária, com paixão e comprometimento, são aspiração antiga, mas a equação que possibilita essa atitude de forma permanente ainda não foi encontrada. O desafio não é o abismo, mas a construção da ponte. O abismo está presente nas relações, na operação e no conjunto de práticas em confronto com os valores. A equação é a capacidade de perceber a alma do conjunto, o porquê da existência, o entendimento da missão maior, expressão genuína do pensamento coletivo. A construção das pontes que interliguem diferentes níveis de consciência de uma organização é uma experiência de caráter espiritual porque atua no âmbito da essência e tem caráter transformador. Ajustar nossa operação de forma a alinhar nossos princípios, procedimentos e as expectativas da sociedade é a base dessas cinco tendências. Quanto mais demorarmos para produzir a mudança, mais desgastante será o processo e mais distante estará o sucesso. Está matéria pertence a edição número 158 da revista AMANHÃ, de setembro de 2000. |
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