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No
Brasil, o cenário não é diferente.
A Divisão de Bromatologia e Química
do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, acaba
de publicar uma avaliação iniciada há
três anos sobre os aditivos em uso no mercado
brasileiro e sua compatibilidade com a legislação.
A conclusão: tanto os aromatizantes quanto
outros aditivos apresentaram alta incidência
de irregularidades (em alguns casos, 45% dos alimentos
continham excessos). As amostras foram enviadas ao
Adolfo Lutz pelos próprios fabricantes.
As
indústrias, por sua vez, justificam que certos
aditivos são imprescindíveis e servem
para evitar um mal maior: o risco de o alimento estragar.
E mais: eles garantem a vida de prateleira do produto
e permitem uma percepção sensorial mais
aceitável, tanto em termos de sabor quanto
de visual, como no caso do iogurte de morango, que
naturalmente seria branco, mas o consumidor se sente
mais familiarizado quando o produto imita vermelho
da fruta.

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A
conservação dos alimentos é,
de fato, uma contribuição importante
da química, especialmente quando se leva em
c onta as grandes distâncias que separam produtores
de consumidores, e todos os problemas logísticos
situados no caminho. A questão é saber
o efeito de tantos aditivos sobre o organismo, algo
nem sempre possível. Sabe-se há
bastante tempo que muitas dessas substâncias
desencadeiam processos alérgicos, mas, devido
à multiplicidade desses aditivos, praticamente
não é mais possível determinar
o que provocou a alergia, destaca o médico
e bioquímico alemão Otto Wolff, em seu
recém-lançado O Que Comemos, Afinal?
(Ed. Antroposófica).
Wolff,
pesquisador bioquímico e autor de vários
livros sobre alimentação e saúde,
aponta experiências que comprovam a ligação
entre uma dieta altamente sintética e o quadro
de hiperatividade de crianças. Mais inquietantes
são os estudos que indicam uma piora dramática
na qualidade do esperma, nos últimos 50 anos,
fenômeno também apresentado na obra O
Futuro Roubado (L&PM), dos cientistas Theo Colborn
e John Peterson Myers, com prefácio do vice-presidente
americano Al Gore. O livro sustenta que certos químicos
presentes nos alimentos principalmente agrotóxicos
acabam sendo identificados pelo organismo do
homem como hormônios femininos. Esse disfarce
reduziu a produção de espermatozóides
nos jovens de hoje para a metade do que era natural
em gerações anteriores. Fertilidade
depende amplamente da nutrição,
resume Wolff.
Ao sentir um embrulho no estômago diante dessas
teses, você pode se perguntar se, afinal, somos
vítimas de uma grande conspiração
alimentar. Talvez não. Atualmente, os
testes que avaliam se um aditivo faz ou não
mal à saúde são bastante sofisticados.
O problema é que o que é aprovado hoje
pode não ser daqui a dez anos, justifica
Paulo Roberto Nogueira Carvalho, pesquisador do Instituto
Tecnológico de Alimentos (Ital), com sede em
Campinas (SP). Um produto é seguro hoje,
mas amanhã isso muda, pois a intoxicação
por problemas químicos pode demorar dez ou
até 20 anos para aparecer, completa outro
pesquisador do instituto, o biólogo Eduardo
Vicente.
Essa
incerteza sobre a validade dos testes é o que
mais preocupa em relação aos alimentos
geneticamente modificados. O maior problema com relação
aos transgênicos é que ninguém
sabe ao certo o que há de errado com eles (leia
mais na entrevista Polêmica nos gens).
A briga em torno do tema, em breve, vai completar
uma década. Começou em 1992, quando
os transgênicos foram liberados nos Estados
Unidos pelo órgão regulador daquele
país, o FDA (Food and Drug Administration),
sem a necessidade de rotulagem, embora a agência
tivesse sinalizado inicialmente que iria impor essa
norma. A discussão engrossou em 1996, quando
o The New England Journal of Medicine publicou um
estudo indicando que a soja alterada pela introdução
de um um gene da castanha-do-pará poderia causar
reações alérgicas. Os editores
do Journal acusaram o FDA de favorecer a indústria,
em detrimento da proteção ao consumidor.
No tom apocalíptico que o caracteriza, Jeremy
Rifkin, em O Século da Biotecnologia (Makron
Books), aciona o alarme: Os seres humanos podem
acabar sendo as cobaias das experiências radicais
que visam a ressemear a Terra em uma segunda Gênese
concebida nos laboratórios.
Discussões
à parte, o mercado dos produtos geneticamente modificados
avança. Nos últimos dois anos, a área plantada com
transgênicos, em todo o mundo, cresceu 44%, e, desde
1996, quando iniciou a produção em larga escala, o
plantio aumentou 26 vezes. Alguns produtos facilmente
encontrados nas prateleiras dos supermercados brasileiros,
como o Cup Noodles, da Nissin, o Nestogeno, da Nestlé,
o creme de milho verde, da Knorr, e as salsichas da
Swift, apresentaram ingredientes transgênicos num
teste realizado pelo Idec. Resumo: o debate sobre
riscos e benefícios da manipulação genética dos alimentos,
antes restrito à Europa e aos poucos introduzido nos
EUA, está sendo vencido por um fato consumado – ou
melhor, consumido.

  
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