Edição nº158

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No Brasil, o cenário não é diferente. A Divisão de Bromatologia e Química do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, acaba de publicar uma avaliação iniciada há três anos sobre os aditivos em uso no mercado brasileiro e sua compatibilidade com a legislação. A conclusão: tanto os aromatizantes quanto outros aditivos apresentaram alta incidência de irregularidades (em alguns casos, 45% dos alimentos continham excessos). As amostras foram enviadas ao Adolfo Lutz pelos próprios fabricantes.

As indústrias, por sua vez, justificam que certos aditivos são imprescindíveis e servem para evitar um mal maior: o risco de o alimento estragar. E mais: eles garantem a vida de prateleira do produto e permitem uma percepção sensorial mais aceitável, tanto em termos de sabor quanto de visual, como no caso do iogurte de morango, que naturalmente seria branco, mas o consumidor se sente mais familiarizado quando o produto imita vermelho da fruta.


O Ministério da Saúde constatou que de 8% a 48% dos produtos derivados de amendoim comercializados no Rio de Janeiro, em Brasília e em Recife apresentaram aflatoxina, um potente agente cancerígeno.
O Ital identificou, entre 47% das amostras analisadas de cogumelos em conserva, níveis elevados do conservante dióxido de enxofre, que dificulta a absorção da vitamina B1.
A Universidade Federal do Paraná e a Secretaria Estadual de Saúde avaliaram a contaminação por pesticidas no Estado: 23% dos alimentos apresentavam resíduos, sendo que 3% eram impróprios para o consumo.

A conservação dos alimentos é, de fato, uma contribuição importante da química, especialmente quando se leva em c onta as grandes distâncias que separam produtores de consumidores, e todos os problemas logísticos situados no caminho. A questão é saber o efeito de tantos aditivos sobre o organismo, algo nem sempre possível. “Sabe-se há bastante tempo que muitas dessas substâncias desencadeiam processos alérgicos, mas, devido à multiplicidade desses aditivos, praticamente não é mais possível determinar o que provocou a alergia”, destaca o médico e bioquímico alemão Otto Wolff, em seu recém-lançado O Que Comemos, Afinal? (Ed. Antroposófica).

Wolff, pesquisador bioquímico e autor de vários livros sobre alimentação e saúde, aponta experiências que comprovam a ligação entre uma dieta altamente sintética e o quadro de hiperatividade de crianças. Mais inquietantes são os estudos que indicam uma piora dramática na qualidade do esperma, nos últimos 50 anos, fenômeno também apresentado na obra O Futuro Roubado (L&PM), dos cientistas Theo Colborn e John Peterson Myers, com prefácio do vice-presidente americano Al Gore. O livro sustenta que certos químicos presentes nos alimentos – principalmente agrotóxicos – acabam sendo identificados pelo organismo do homem como hormônios femininos. Esse “disfarce” reduziu a produção de espermatozóides nos jovens de hoje para a metade do que era natural em gerações anteriores. “Fertilidade depende amplamente da nutrição”, resume Wolff.

Ao sentir um embrulho no estômago diante dessas teses, você pode se perguntar se, afinal, somos vítimas de uma grande conspiração alimentar. Talvez não. “Atualmente, os testes que avaliam se um aditivo faz ou não mal à saúde são bastante sofisticados. O problema é que o que é aprovado hoje pode não ser daqui a dez anos”, justifica Paulo Roberto Nogueira Carvalho, pesquisador do Instituto Tecnológico de Alimentos (Ital), com sede em Campinas (SP). “Um produto é seguro hoje, mas amanhã isso muda, pois a intoxicação por problemas químicos pode demorar dez ou até 20 anos para aparecer”, completa outro pesquisador do instituto, o biólogo Eduardo Vicente.

Essa incerteza sobre a validade dos testes é o que mais preocupa em relação aos alimentos geneticamente modificados. O maior problema com relação aos transgênicos é que ninguém sabe ao certo o que há de errado com eles (leia mais na entrevista “Polêmica nos gens”). A briga em torno do tema, em breve, vai completar uma década. Começou em 1992, quando os transgênicos foram liberados nos Estados Unidos pelo órgão regulador daquele país, o FDA (Food and Drug Administration), sem a necessidade de rotulagem, embora a agência tivesse sinalizado inicialmente que iria impor essa norma. A discussão engrossou em 1996, quando o The New England Journal of Medicine publicou um estudo indicando que a soja alterada pela introdução de um um gene da castanha-do-pará poderia causar reações alérgicas. Os editores do Journal acusaram o FDA de favorecer a indústria, em detrimento da proteção ao consumidor. No tom apocalíptico que o caracteriza, Jeremy Rifkin, em O Século da Biotecnologia (Makron Books), aciona o alarme: “Os seres humanos podem acabar sendo as cobaias das experiências radicais que visam a ressemear a Terra em uma segunda Gênese concebida nos laboratórios”.

Discussões à parte, o mercado dos produtos geneticamente modificados avança. Nos últimos dois anos, a área plantada com transgênicos, em todo o mundo, cresceu 44%, e, desde 1996, quando iniciou a produção em larga escala, o plantio aumentou 26 vezes. Alguns produtos facilmente encontrados nas prateleiras dos supermercados brasileiros, como o Cup Noodles, da Nissin, o Nestogeno, da Nestlé, o creme de milho verde, da Knorr, e as salsichas da Swift, apresentaram ingredientes transgênicos num teste realizado pelo Idec. Resumo: o debate sobre riscos e benefícios da manipulação genética dos alimentos, antes restrito à Europa e aos poucos introduzido nos EUA, está sendo vencido por um fato consumado – ou melhor, consumido.

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- Briga pelo leite
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