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Romeu de Bruns Neto*

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Conservantes, espessantes, aromatizantes, realçadores de sabor, isso tudo misturado com proteínas, carboidratos, vitaminas, muita gordura, pouca fibra e... pronto! Eis a receita da alimentação moderna. Mas, afinal, é simples assim definir o que o brasileiro está levando para a mesa, hoje em dia? Sabemos realmente o que comemos?

O Brasil não tem tradição de vigiar a qualidade dos alimentos. A fiscalização é uma atribuição dos governos estaduais, e as pesquisas são ocasionais e localizadas, ou seja, raramente vão além de uma região metropolitana. “Falta ao Brasil um programa de controle dos alimentos de forma nacional, a exemplo do que acontece em outros países”, critica Sezifredo Paz, consultor técnico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e membro do comitê brasileiro do Codex Alimentarius. Criado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Codex é uma referência em normas de qualidade no comércio internacional de alimentos.

Nos últimos anos, o Idec encomendou estudos que investigaram as condições dos alimentos comercializados no varejo nacional. Na média, o Idec encontra problemas relacionados à sanidade dos produtos em 20% das amostras. São azeites de oliva fraudados; biscoitos sem a quantidade de vitaminas que afirmam ter; farinhas, chocolates e leite pasteurizado que apresentam contaminação por bactérias; águas minerais com excesso de flúor; alimentos dietéticos com problemas de composição; balas importadas com corantes proibidos. A isso soma-se o fato de que 70% das carnes consumidas no mercado brasileiro, em média, não passam por inspeção sanitária, índice que beira os 40%, quando o assunto é leite. Essas e outras constatações fazem parte de um documento elaborado pelo Fórum Nacional das Entidades de Defesa do Consumidor, que adverte para a falta de clareza sobre a real situação da sanidade dos alimentos, alerta sobre as doenças que eles provocam e questiona o que se está fazendo para impedir que produtos fraudados continuem sendo vendidos. “Com as indústrias de maior porte, não pesa tanto a questão sanitária, mas problemas mais sofisticados, como o emprego de ingredientes transgênicos”, pondera Paz. No caso dos transgênicos, ainda não se conhece precisamente seu impacto. O mesmo não se pode dizer, no entanto, de uma ampla variedade de substâncias incluídas no cardápio do brasileiro.

O Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de Alimentos, realizado em Fortaleza (CE), em agosto, foi quase um show-room desses ingredientes de risco. É claro que a falta de controle se acentua no comércio ambulante. Um estudo da Escola Paulista de Medicina, por exemplo, detectou alto índice de contaminação microbiológica no tradicional caldo de cana vendido nas ruas de São Paulo. Mas a presença de bactérias não é exclusividade do pequeno comércio. Um grupo formado por pesquisadores da Unicamp, da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Pesquisa em Ciências, de Assis (SP), investigou a qualidade dos ovos desidratados, um ingrediente largamente empregado pela indústria de alimentos, e constatou que 44% das amostras estavam seriamente comprometidas por micróbios. “Boa parte do alimento consumido pelo brasileiro não vem de grandes fabricantes, mas da indústria de fundo de quintal. Esse alimento passa ao largo de qualquer fiscalização e acumula os problemas que vão desde os causados pela falta de condições de higiene ao emprego incorreto de aditivos químicos”, adverte Félix Reyes, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.

Para muitos estudiosos da nutrição, aditivos químicos são um perigo mesmo quando empregados corretamente. A presença da química nos alimentos começa com o uso de pesticidas, destinados ao controle de pragas na lavoura, e, durante o processamento industrial, envolve a adição de conservantes, corantes, emulsificadores, estabilizantes, espessantes, chegando aos aromatizantes, intensificadores de sabor e outros aditivos não declarados. Nos Estados Unidos, por exemplo, é permitida a inclusão de 2.700 aditivos alimentares, sem que seja obrigatório especificá-los no rótulo


Leia também:

- Polêmica nos gens
- Briga pelo leite
- Desequilibrando a balança

 

 

 

*Colaboraram: Cláudia Rodrigues, de Florianópolis, e Elaine Guedes, de São Paulo.

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