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O RUGIDO
DA ESQUERDA
Para
Reinaldo Gonçalves, não existem meias palavras. Incisivo,
o economista adverte para um processo em curso no Brasil que ele chama
de africanização. Ph.D. em Economia, diretor
da Sociedade Brasileira de Economia Política e referência
para o pensamento de esquerda, ele está lançando um trabalho
polêmico: O Brasil e o Comércio Internacional (Ed. Contexto,
160 págs., R$ 16,50). Nele, o autor defende idéias como
o desengajamento brasileiro do Mercosul, da Alca e da Organização
Mundial do Comércio (OMC), classifica o desempenho do Brasil nas
relações internacionais de medíocre e propõe
a adoção de uma postura comercial agressiva, baseada somente
em acordos bilaterais. A seguir, os pontos de vista de Gonçalves,
alguns assumidamente incendiários.
por
Romeu de Bruns Neto

Em seu
livro, o sr. fala em africanização do Brasil
como conseqüência de uma condução neoliberal.
Isso não soa exagerado, já que, mesmo sob o efeito de seguidas
crises, o país progrediu em vários indicadores sociais?
Quando você fala que alguns indicadores estão melhorando,
está deixando de lado uma série de índices econômicos
que estão em queda, principalmente na área externa. Por
exemplo, pagamento de juros sobre exportação, dívida
externa sobre exportação e dívida externa sobre o
PIB estão pio-rando dramaticamente. O que ocorre com as contas
públicas não é diferente. E com indicadores sociais
também. A taxa de desemprego piorou nos últimos anos. Em
termos de segurança pública, o Brasil é um dos países
mais violentos do mundo. Mas esses são apenas alguns dos efeitos
mais visíveis. A idéia da africanização
vem da ocorrência simultânea de quatro processos. O primeiro
é uma enorme desestabilização macroeconômica,
indicada pelo crescimento do desemprego, a vulnerabilidade externa e a
degradação das contas públicas. O segundo é
o desmantelamento do aparelho produtivo brasileiro. Na medida em que há
uma incapacidade de gerar emprego associada ao fato de as empresas brasileiras
estarem sendo vendidas ao capital estrangeiro, o sistema produtivo vai
encolhendo. O terceiro aspecto importante é o impacto social. A
desigualdade no Brasil continua tão alta quanto era há 20
anos. O quarto é a deterioração política e
institucional. As instituições, o judiciário, as
universidades e até os meios de comunicação têm
se degradado ao longo dos últimos cinco anos.
A africanização
é conseqüência do quê?
É conseqüência de um modelo econômico e social
que tem componentes liberais, como a abertura econômica e o encolhimento
do papel do Estado. Esse aspecto tem papel determinante na africanização.
Mas não é só isso. É também conseqüência
de um governo incompetente, irresponsável. Porque apenas a implementação
de políticas liberais não significa incompetência.
Existe,
na sua opinião, um modelo que o Brasil deveria seguir? Um país
em que se espelhar?
Eu acho que o Brasil é um país com condições
de ter uma inserção internacional ativa e não medíocre
e passiva como temos. É claro que cada nação tem
a sua particularidade. Mas um país com o porte continental como
o do Brasil poderia ter uma projeção internacional muito
mais ativa. Ao contrário, temos uma atitude estranha, submissa,
subordinada ao sistema internacional. O Brasil tem condição
de mudar, mas para isso precisa reduzir sua vulnerabilidade externa.
A solução
passaria pela tão falada “terceira via”?
Eu me refiro a um modelo diferente. Longe de uma terceira via, da social-democracia,
do liberalismo social. O Brasil tem necessidade, de fato, de um modelo
orientado para o popular. A estrutura social brasileira é dividida em
quatro camadas: uma elite de 1% da população (aproximadamente 1,6 milhão
de pessoas), uma classe média formada por 50 milhões de pessoas, outros
50 milhões de pobres e ainda 55 a 60 milhões de miseráveis e indigentes.
O Brasil precisa olhar para esses mais de 100 milhões que estão na parte
de baixo da pirâmide. Não é o caso de um modelo para a classe média como
foi há 20, 30 anos, muito menos um modelo para as elites como o que vigora
hoje. Temos de selecionar quais grupos sociais queremos beneficiar e quem
vai pagar a conta. A minha visão é que a elite tem de pagar. A classe
média não tem condições de fazer isso.
Como o
sr. acha que o funcionamento da OMC pode influenciar negativamente as
relações comerciais do Brasil?
O Brasil precisa operar mais no plano bilateral. Precisa lidar com seus
parceiros comerciais de uma forma mais ativa, mais agressiva. No plano
multilateral, como no caso da OMC, se tivermos de violar acordos, vamos
violar e enfrentar os litígios que tivermos de enfrentar. Não
devemos ter medo de conflitos. Temos de gerar conflito sempre que houver
a expectativa de ganhar alguma coisa. O Brasil deveria priorizar os acordos
bilaterais e deixar de lado os multilaterais, em que não tem a
menor influência, como na OMC. E também dar menos atenção
aos plurilaterais, que são os casos de integração
regional, como a Alca e o Mercosul. A política econômica
externa brasileira precisa se concentrar no plano bilateral, lidar diretamente
com os principais parceiros e fazer uma agenda de negociação
sob medida para cada um, em vez de ficar perdendo tempo com reuniões
da OMC.
Como é
possível, na prática, reformular a OMC, tirando-a da influência
dos governos e de empresas transnacionais e colocando-a sob regência
da sociedade civil, como o sr. propõe no livro?
Acho que a gente tem de pedir o impossível para conseguir o possível,
como dizia Weber a respeito da política. A idéia é,
na verdade, tirar dos países desenvolvidos instrumentos de política
externa que eles usam contra a gente. E um desses instrumentos é
a OMC. Então, qualquer reforma institucional é interessante
para renovar instituições como FMI, Banco Mundial e OMC.
O sr.
comentou que o Brasil deveria dar menos atenção ao Mercosul.
Mas, na verdade, defende a retirada do Brasil desse acordo e também
do Alca. Por quê?
O Brasil não precisa do Mercosul. O Mercosul atrapalha mais do
que ajuda, porque, na realidade, ele engessa a política comercial
brasileira, e o Brasil perde muita liberdade. Não faz sentido atrelar
nossa política comercial a um mercado que consome 13% a 15% de
nossas exportações. Ele merece atenção proporcional
aos 15% que lhe dizem respeito. Além disso, o futuro da Argentina
é pouco promissor. Temos muito pouco a ganhar com um esquema de
integração com a Argentina, um país de trajetória
de instabilidade e crise muito acentuada. Temos de parar no ponto até
onde avançamos e até, eventualmente, retroceder em algumas
questões. Podemos ter protocolos setoriais: acordos automotivo,
de laticínios, de bens de capital, mas que não vão
além do relacionamento bilateral.
Os motivos
são os mesmos em relação à Alca?
A Alca definitivamente é um enorme problema para o Brasil. O Brasil
não tem de considerar a Alca em 2005, nem em 2010, nem nunca. Do
outro lado, vão estar os Estados Unidos e, dando-lhes apoio, uma
série de países latino-americanos que são cooptáveis.
É um esquema plurilateral em que qualquer plano do Brasil de ter
maior liberdade vai ter não só os EUA contra, como também
a quase totalidade dos demais envolvidos na Alca. Se quisermos vender
para os EUA, vamos fazer acordos setoriais, do tipo toma-lá-dá-cá.
Se não aceitarem, faremos retaliações comerciais.
Não faz sentido um esquema tipo Alca.
Qual
seria o caminho para o Brasil melhorar seu desempenho no mercado externo,
especialmente em se tratando de exportações?
Isso só vai acontecer quando o Brasil destravar a economia. Nossa
competitividade não tem nada a ver com acesso aos mercados. O problema
não é o protecionismo do mundo, não são as
barreiras comerciais. O problema é uma economia que não
tem investimentos, não tem inovação, não tem
benefícios da economia de escala, não tem um empresário
ousado que vá para o exterior. O problema não é o
mundo, somos nós. A economia brasileira é ineficiente do
ponto de vista dinâmico, pois não acumula capital, não
tem progresso técnico, não gera emprego e tem aumentos de
produtividade pontuais. Enfim, enquanto essa situação perdurar,
continuaremos sendo medíocres.
Mas até
que ponto vai a responsabilidade do governo?
Existem políticas que podem ajudar, mas o problema da competitividade
é sistêmico. Não adianta dar incentivo, mexer em câmbio,
baixar impostos. É um problema da estrutura da economia brasileira.
O empresário está sempre buscando mercado, seja interno
ou externo. A função dele é essa. A questão
é que o empresariado brasileiro não tem fôlego de
maratonista, e o mercado internacional é cada vez mais para maratonistas.
Então, ele tem de se exercitar, e a academia apropriada é
a economia interna. Enquanto não mudarmos internamente, não
vamos ser competitivos. E isso remete à questão inicial:
a perda de competitividade, de projeção internacional, é
resultado do processo de africanização.
Esta
matéria pertence a edição número 157 da revista
AMANHÃ, de agosto de 2000.
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