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Rodrigo
Baggio, do CDI: "É preciso ensinar a pescar"
Se
tivesse dado ouvidos aos que diziam que pessoas pobres
não aprenderiam a usar computadores, Rodrigo
Baggio teria jogado fora aquele sonho que um dia viraria
realidade. Ao seguir sua intuição, em
cinco anos ele conseguiu transformar a vida de 48
mil jovens. Além da sua, é claro. Baggio,
que hoje dirige o Centro de Democratização
da Informática (CDI), uma instituição
sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro, não
foi o que os testes de QI apontariam como brilhante.
Teve mais empenho em formar o primeiro grêmio
da escola depois da ditadura do que em tirar notas
altas. Estudava o suficiente para passar de ano e
gastava boa parte do tempo com o basquete. Não
chegou a terminar a faculdade de Ciências Sociais
porque começou a trabalhar como consultor de
informática. No final das contas, acabou largando
a bem-sucedida carreira junto a empresas graças
a um sonho, no sentido literal. Com 24 anos, carro,
apartamento e lancha, foi dormir consultor de informática
e acordou empreendedor sem fins lucrativos.
Iniciou
batendo nas portas de empresas para pedir patrocínio,
e a cara de menino que tem até hoje
não ajudava muito. Um dos primeiros
a realmente levar fé no projeto de Baggio foi
o pai de um outro, digamos, menino. Quando expunha
seu projeto em Seattle, Baggio foi procurado por um
senhor interessado. Era o pai de Bill Gates. O encontro
resultou em uma doação de US$ 4,5 milhões
em softwares e mais R$ 120 mil para comprar a sede
do CDI. A partir de então, o projeto não
parou de crescer. Hoje, com 30 anos, Baggio tem o
apoio de empresas como Microsoft, Linux, Esso e BNDES.
Ganha R$ 3,900 por mês, tem dois filhos pequenos
e é casado com uma professora de Biologia.
Você
foi eleito um dos 50 líderes mundiais pela
revista Time, um dos 20 pela CNN, um dos 50 pela ONU
e já deu palestra até na Casa Branca.
O que isso significa para você?
Isso não me traz orgulho ou um prazer pessoal
imenso. Acho que é interessante para dar credibilidade
ao nosso trabalho. Quero apontar para a lua, mas não
quero que as pessoas olhem o meu dedo, e sim que olhem
para os problemas que o CDI está indicando.
Levar
computadores para favelas é realmente uma prioridade?
Essa não é apenas a utopia de um jovem
empreendedor social brasileiro. Na última reunião
do G-8, a discussão do gap tecnológico
foi um dos pontos prioritários. A ONU divulga
que 5% da população mundial tem internet.
Do total, mais da metade vive nos Estados Unidos.
No Brasil, 3% da população acessa a
rede. Desses, apenas 16% são da classe C e
4%, da classe D. Outro dado interessante é
que, este ano, 83% das declarações de
imposto de renda foram feitas pela internet. Esses
dados mostram que há uma imensa divisão.
Na
África, milhões de pessoas morrem de
Aids por falta de informação. No Brasil,
são altos os índices de miséria.
Dá para falar de popularização
de informática diante desse quadro?
É claro que não podemos falar de internet
no sertão nordestino, ou na África,
onde as pessoas morrem de fome, de miséria.
Mas, nos grandes e médios centros urbanos,
não se morre de fome, e sim de falta de oportunidade.
É isso e a falta de informação
que levam os jovens à criminalidade, à
marginalização e à morte. O que
importa é que a tecnologia da informação
não dá o peixe, mas ensina a pescar.
Quem
se interessa em ajudar um projeto como o CDI?
Sou um otimista, isso faz parte da minha natureza.
Acredito que isso interessa aos empresários,
porque, democratizando a informática, vão
estar criando consumidores. E é positivo fazer
uma aliança com uma instituição
como a nossa, porque as empresas unem a imagem de
produtos a uma causa social de sucesso e reconhecimento
internacional. É sabido que esse tipo de iniciativa
aumenta as vendas em até duas ou três
vezes. O que também é importante é
que há um aumento na auto-estima dos funcionários.
É
preciso criar um novo pensamento para uma nova sociedade?
No século 20, o capital foi a força
matriz. No 21, é a informação.
Por isso, precisamos reinventar a nossa sociedade.
Este é um momento de sonhos. Precisamos criar
a nossa e-topia.

  
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