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O que é Inteligência? A pergunta que ecoa desde Darwin ganha, com a tese da inteligência prática, um novo enfoque capaz de redefinir desde o perfil de um executivo de sucesso até o sistema de avaliação em escolas e universidades.

Fernanda Zanuzzi e Consuelo Bassanesi *

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Sessenta anos de praia, 30 de experiência e um ano de “casa”. É com esse currículo que o contador e economista Antônio Wahlbuhl encara os desafios de um atribulado dia-a-dia como diretor administrativo e financeiro da KN, uma empresa alemã responsável pela logística da fábrica de automóveis Audi em Curitiba. Paulistano, ele não pensou duas vezes quando surgiu a proposta, principalmente porque teria a chance de trocar a agitação de São Paulo pela capital paranaense. Também não hesitou em mudar o rumo da sua carreira, deixando de lado a consultoria de empresas para assumir um cargo que exigiria novas habilidades. “Era uma oportunidade que não dava para descartar”, conta, com o entusiasmo de um executivo 30 anos mais novo. Mas, apesar do seu, digamos, alter ego juvenil, que teria recém-saído de um curso de MBA direto para a fábrica, o Antônio sessentão conta com uma vantagem que um profissional só vai adquirir com o tempo: a capacidade de transformar experiência em ação. Em duas palavras, ele acumula o que um grupo de psicólogos batizou de inteligência prática – e que pode ser traduzido para a linguagem popular como bom senso.

O.k., você deve estar pensando que essa é mais uma das teorias sobre inteligência que surgiram na última década para derrubar a validade dos tradicionais testes de QI na avaliação escolar e profissional. E, de certa forma, é exatamente isso. Porém, os estudos sobre inteligência que o pesquisador norte-americano Robert Sternberg, da Universidade de Yale, desenvolve há mais de 15 anos se diferenciam de outras pesquisas do gênero, como a de inteligências múltiplas, desenvolvida por Howard Gardner, e a de inteligência emocional, compilada por Daniel Goleman. Seus estudos partem de um paradoxo, facilmente checado por qualquer leigo: como pessoas que vão mal na escola conseguem ter sucesso na vida e, da mesma forma, por que indivíduos brilhantes na vida escolar conseguem se dar mal – ou ter um desempenho apenas medíocre – profissionalmente e no dia-a-dia? O questionamento, pautado, inclusive, pela experiência de vida do pesquisador, deu origem ao conceito de inteligência prática.

“A inteligência prática nos remete à Grécia antiga”, lembra Sternberg, que acaba de lançar, nos Estados Unidos, o livro Practical Intelligence in Everyday Life (Inteligência Prática no Dia- a-Dia), ainda sem edição em português. “O que é novo no nosso trabalho é a conceituação psicológica da inteligência prática, as maneiras de medi-la e os resultados, que mostram que os testes podem prever a performance profissional tão bem ou melhor que os testes de QI”, explica o pesquisador, em entrevista a AMANHÃ.

A prova de fogo sobre a validade dos testes ainda está em fase de preparação. A partir de 2002, um teste de inteligência prática, que está sendo elaborado por Sternberg, será adotado pela University of Michigan Business Scholl (UMBS) na seleção dos candidatos ao curso de MBA. A aposta é que o novo teste servirá para identificar melhor os futuros líderes do que o tradicional Graduate Management Admission Test (GMAT) – uma espécie de teste de QI nos moldes do nosso vestibular –, que continuará a ser aplicado. De acordo com Sternberg, o novo teste está sendo desenhado para medir a capacidade de aquisição de conhecimento tácito (combustível da inteligência prática) junto aos candidatos – e revelar quem tem habilidades para adaptar o que aprende às situações práticas do cotidiano. “Nos negócios, a inteligência acadêmica é muito necessária, mas não é suficiente”, defende Keith Decie, diretor do MBA da UMBS.

Em Michigan, uma universidade que ganhou diversos prêmios por sua criatividade acadêmica, o que se busca é aquela obsessão típica dos americanos: descobrir uma fórmula que garanta mais e melhores resultados. É óbvio que, no país que popularizou os testes de inteligência (leia o texto “Quem se importa”), a posição da universidade gerou reações. “Eu acho que posso ensinar você a usar teoria para chegar a conclusões práticas”, rebateu Donald P. Jacobs, reitor do MBA da Northwestern University, em entrevista ao New York Times.

As palavras de Jacobs são pura ironia, é claro. Mas, curiosamente, ele acabou validando uma das teses centrais da inteligência prática – a de que o conhecimento prático pode ser, de fato, adquirido. Caso contrário, não seria prático. No entanto, revela a teoria, ele não pode ser ensinado e aprendido da mesma forma que o conhecimento acadêmico. “A diferença entre a inteligência acadêmica e a prática é que, na primeira, os problemas são programados, você tem tempo e estudou para resolvê-los. O problema prático é situacional, imprevisível e não tem formulação”, diz Eliane Gerck Carneiro, coordenadora do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro. Mais terrível do que isso: no dia-a-dia, é necessário (e talvez uma questão de vida ou morte, simplesmente) perceber que o problema existe.


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