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JUCA
DE OLIVEIRA

ATOR DE TEATRO, AUTOR DA PEÇA CAIXA
DOIS

Um
banqueiro rico usa a amante como laranja para
lavar R$ 10 milhões do caixa dois. Só
que a bolada, por acidente, vai parar na conta
de um ex-gerente do banco, que é demitido...
por contenção de despesas, para
enxugamento de pessoal. Qualquer semelhança
com histórias que você conhece bem
não é mera coincidência. Esse
é o enredo da comédia Caixa Dois,
escrita e protagonizada pelo veterano Juca de
Oliveira. Em cartaz há três anos,
no momento em turnê pelo interior de São
Paulo, a peça é inspirada em escândalos
financeiros de verdade como aquele dos
precatórios, lembra? Juca teve o estalo
para começar o texto quando acompanhou
o episódio de um sujeito que, durante a
apuração do tal caso dos precatórios,
foi ao banco devolver uma grana alta que havia
sido depositada por engano em sua conta. Passaram
a investigar o cara, que se tornou um cidadão
de segunda classe, espanta-se Juca. Um
jurista chegou a dizer que, se o homem ficasse
com o dinheiro, teria tido menos dor de cabeça.
Indignado por coisas como essa é que o
teatrólogo se movimenta. Nesta entrevista,
ele afirma que a comédia tem, sempre, um
efeito moralizador e desperta o senso crítico
das pessoas. Ácido, chama o neoliberalismo
de truculento e empobrecedor. Otimista,
diz que a população não
está aceitando mais a impunidade
e elogia a organização da sociedade
civil. Com ela, os políticos correm
grande perigo. Você começa a perceber
que não precisa mais deles, fulmina.
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por
Guilherme Diefenthaeler

  
Do
que o público ri tanto quando assiste a Caixa
Dois? Como achar graça de escândalos
financeiros, corrupção etc.?
A população acompanha todos os dias,
pelos jornais, episódios que demonstram a falta
de caráter do político, a insensibilidade
do sistema financeiro. De repente, vê o tema
no palco, reproduzido por meio da visão de
artistas, sob um ângulo crítico que explora
muito o ridículo, a comédia da situação.
Então, as pessoas participam rindo. Como a
peça traduz um pouco daquilo que fere os brios,
os princípios éticos, o público
se identifica profundamente. E o que causa indignação
ao autor acaba indignando as pessoas. Nesse sentido,
estabelece-se uma comunhão. E mais: a peça
tem um sentido positivo, não é negativista
no sentido de que tudo é ruim e nada funciona.
As pessoas se encontram, riem, vão comungando,
como se estivessem num ritual.
A
reação das pessoas não é
de passividade diante de temas espinhosos?
Não. A comédia, diferente da tragédia,
trata dos defeitos do homem. A tragédia fala
das virtudes, do homem virtuoso que prefere morrer
a perder a dignidade. A comédia trata do vício,
do erro, do pecado. Por isso, você ri. Por isso,
há mais comédias do que tragédias
porque o homem é cada vez mais defeituoso.
A comédia tem um efeito moralizador. Tem sentido
altamente positivo, porque atua diretamente no raciocínio.
A tragédia vai no coração. A
comédia atua na inteligência.
As
pessoas riem de indignação, de revolta...
Exato. Você ri e se diverte. Depois, pensa:
Pô, mas eu tava rindo do quê? Qual
é a graça? Eu sou vítima ou cúmplice?.
A comédia, o teatro, são orgânicos.
Você não tem resistência porque
eles penetram naturalmente. São um retrato
absolutamente fiel da realidade, filtrados pela sensibilidade
do artista. A beleza do teatro é que ele modifica
as pessoas. Você nunca é o mesmo depois
de assistir a uma peça.
O que se pode aprender com a apuração
de escândalos financeiros? Que o país
não aceita mais a corrupção?
A novidade é exatamente essa: as pessoas não
estão aceitando essa herança passivamente.
É o que se vê no comportamento de parte
da imprensa, de uma camada de jornalistas e promotores
jovens. A gente poderia acreditar que, na verdade,
a corrupção se perpetuasse. Mas parece
que não, que isso está mudando quase
que por inércia. Nós fomos colonizados
por Portugal, Espanha, tendo como princípios
a obediência e o respeito ao rei, ao chefe.
A ação de colonização
foi muito predadora. Mas nós sempre tivemos
esse sentido de obediência à autoridade
que compromete e sabota o desenvolvimento individual.
As coisas não pertencem a nós, pertencem
ao rei. E o governo é o rei. O rei é
quem manda, nós somos contra o rei. Não
se tem consciência de cidadania. E, como odiamos
o rei, quebramos ônibus, orelhões, porque
ainda não temos consciência de que essas
coisas pertencem a nós.
A
sucessão de escândalos financeiros anunciados
pela imprensa não acaba com o respeito da população
às chamadas autoridades constituídas?
As pessoas não estão se conformando
mais. Antes era um esquema de patronato, onde a coisa
pública se confundia com a coisa pessoal. O
político nunca se conformava, nunca atingia
a plenitude política enquanto não deixasse
no governo os parentes, amigos, amantes. Porque ele
sempre achou que a coisa pública pertencia
a ele. Até achávamos comum que o prefeito
usasse a prefeitura para comprar fazendas... E agora
as pessoas começam a perceber que não
é bem assim.

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