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A velha empresa brasileira está desaparecendo: em seis anos, perto de 1.100 grupos venderam o controle para multinacionais. E esse processo, dizem os analistas, tende a se acelerar. A empresa brasileira, profetizam os números e fazem eco alguns respeitados especialistas, é um conceito em vias de extinção. Quase todas as projeções estatísticas disponíveis indicam que a participação de multinacionais na economia do país está crescendo ano após ano. Tomem-se, por exemplo, as dez primeiras empresas de cada Estado enfileiradas no ranking GRANDES (publicado nesta edição). Uma em cada quatro delas já é controlada por grupos estrangeiros. Há, no miolo da lista, casos clássicos como o da Fiat, terceira colocada em Minas e desde sempre reconhecida como uma subsidiária da montadora italiana. Mas há um punhado de bancos, supermercados, operadoras de telefonia, distribuidoras de energia elétrica e até tradicionais fabricantes de alimentos que só nos últimos anos arriaram a bandeira verde-amarela. Para ilustrar: o Meridional, um veterano banco gaúcho,
foi comprado há pouco pelo espanhol Santander, e diversos supermercados
do Sul do país vêm sendo engolidos pelos portugueses do Sonae.
A presença de empresas estrangeiras entre as líderes
deve se intensificar, mas haverá um ponto de equilíbrio,
afiança Carlos Biedermann, diretor da Arthur Andersen, a consultoria
que dá suporte técnico a GRANDES. Processo crescente Pesquisa da consultoria KPMG comprova que a desnacionalização avança a passadas largas. De 1994 para cá, o levantamento registra 1.812 transações envolvendo companhias sediadas no país. Quase 60% desses negócios, divididos entre fusões e aquisições, foram firmados além-fronteiras. Isso representa nada menos que 1.070 operações costuradas com parceiros externos 1.070 empresas transferidas para controladores estrangeiros em apenas seis anos. Só no primeiro trimestre de 2000, a pesquisa identifica um total de 65 transações, 46 delas com compradores multinacionais, que se mostram particularmente atraídos, nesta ordem, pelos segmentos de tecnologia da informação, alimentos, bebidas e fumo, energia, telecomunicações e, ainda, por instituições financeiras. Durante o período abrangido pelo estudo da KPMG, a parcela internacional no rol de fusões e aquisições brasileiras subiu de 51% para 70% . Essa é uma tendência que deve se manter, analisa André Castello Branco, diretor da consultoria. O processo, segundo ele, não se restringe a empresas de ponta. Pequenos e médios fornecedores acabam despertando interesse como aquisições estratégicas, num efeito cascata sobre o setor produtivo, constata o executivo, para quem a desnacionalização da economia é um fenômeno mundial que estaria se verificando simultaneamente, e de maneira muito parecida, nos países do primeiro time. Pode ser, mas por aqui o fôlego da internacionalização é maior do que lá, informa o insuspeito BNDES em estudo divulgado no princípio de julho. Indústrias com controle nacional detêm 62% do mercado no Brasil (o índice era de 67% em 1995, quando se abriram os portos à economia globalizada). Na Alemanha, empresas locais têm 88% das vendas; na Finlândia e nos Estados Unidos a participação, é de 85%; e, na Suécia, chega a 80%. Abaixo do Brasil, nesta tabela, estão Holanda (52%), Malásia (48%) e Cingapura (26%). O mesmo estudo calcula que as fábricas de capital brasileiro perderam 7,5% do faturamento para as estrangeiras em cinco anos. Analistas ouvidos por AMANHÃ se repartem em pelo menos três alas na hora de dar um parecer sobre esse fenômeno mundial. A primeira corrente aplaude a abertura, lembra que ela traz dinheiro bom, segura empregos, reduz preços, motiva a competitividade e afirma que nesta nova era não há o menor sentido no velho conceito de empresa brasileira. O pessoal moderado admira a internacionalização, mas quer providências rápidas reforma tributária já, dinheiro barato e acessível para bancar o crescimento das companhias nacionais. Essas atuariam em nichos específicos ou promoveriam fusões internas, ao estilo AmBev, e daí disputariam consumidores pelo globo. Uma terceira ala enxerga o apocalipse no fim do túnel, na provável hipótese de a internacionalização prosseguir célere e não haver contrapartidas que estimulem o empresário a investir no seu negócio em vez de vendê-lo enquanto é tempo. De terceira categoria Por esse viés, a desnacionalização pode ser coisa perigosa. Se nada for feito, os empresários ficarão cada vez mais endividados e as empresas brasileiras serão extintas, alarma-se Antoninho Marmo Trevisan, da Trevisan Auditores e Consultores. Ele lamenta que o setor de comércio exterior esteja inoperante e que urgências como a reforma fiscal não decolem. Desanimada, a classe empresarial enche a paciência, desiste de produzir e vai viver de renda. Com tal maré, imagina o consultor, muitos empreendedores debandarão para a esquerda política sob protesto. Até porque ser nacionalista, nesta terra, é ser confundido com cidadão de terceira categoria. Mas, se o país deseja se tornar uma nação, precisa de empresas fortes, defende Trevisan, que reprova a forma como está sendo conduzida a integração do Brasil ao mercado global: Não somos um quintal, isso não é justo para uma das dez maiores economias do mundo. Onde está a raiz do problema? José Augusto de Castro, diretor da Associação de Exportadores Brasileiros (AEB), menciona a falta de uma cultura exportadora. O empresário daqui nunca olhou o mercado externo como o destino final da sua produção, ele observa, abrindo as estatísticas: no ano passado, o BNDES teria realizado menos de 150 operações de financiamento a exportações, café pequeno diante dos 15 mil exportadores registrados no país. Por tradição, o industrial privilegia o mercado nacional, o que somente se reverte em momentos de retração da demanda interna, como agora. A conseqüência, pelo diagnóstico de José de Castro, é o pior tipo de internacionalização, que rebaixa o país à condição de mero exportador de lucros. Delírio ideológico Na opinião do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp, o que está se passando atende pelo nome de devastação. Ele alerta: Se a devastação das empresas continuar nessa intensidade, vai inviabilizar o balanço de pagamentos do país e gerar problemas crônicos. Belluzzo não mede palavras ao refutar o delírio ideológico de quem prega o investimento estrangeiro como uma panacéia. Os internacionalistas argumentam que ele aumenta a eficiência da economia. Certo, mas também contribui para a sua vulnerabilidade, ao elevar o coeficiente de importações e a remessa de dividendos ao exterior, contrapõe. Sua conclusão: Não é a oitava maravilha da humanidade, do ponto de vista conjuntural. Quem quiser desdenhar, que chame o professor de dinossauro, mas o que dizer do supostamente globalizado presidente da Bovespa, Alfredo Rizkallah, que pronuncia um discurso quase no mesmo tom? Empenhado em fortalecer a bolsa, dentro e fora do país, Rizkallah vê na expansão do mercado de ações o caminho para que as empresas brasileiras não sejam alijadas de participar ativamente das sucessivas transações que visam à formação de conglomerados planetários. Depois de censurar o governo pela opção de venda das teles via blocos de controle estamos definindo estratégias para os grupos estrangeiros realmente poderem tomar conta das empresas nacionais , o dirigente da Bovespa pinta um cenário cinzento: Temos de sair deste processo de estagnação, onde o empresário parte para a informalidade ou sucumbe à oferta de um grupo estrangeiro porque não quer ser um herói morto. Na equipe dos otimistas, Harry Simonsen, da Simonsen Associados, não nega a crise, mas se inspira no ditado chinês e a traduz como um conjunto de problemas e oportunidades onde existem uns, existem as outras. Pela visão de Simonsen, este é um momento de transição. Transição para onde? A consultoria entrevistou 200 empresas e as enquadrou em oito categorias, conforme as características de gestão, desempenho e utilização de recursos encontradas em cada uma delas. Venceram, veja só, as organizações com o perfil de compradoras, 36% do total. Em segundo lugar, aparecem as vendedoras, com 23%. O que dá base à profissão de fé do consultor: Estamos vivendo uma espécie de milagre às avessas. As empresas mais decididas podem emergir da crise com expressivos e inigualáveis ganhos em seus objetivos e resultados, confia Simonsen, que descarta o risco de a empresa brasileira se descaracterizar por inteiro. Este pode ser o fim de um ciclo, mas eu não acredito na desnacionalização total. O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, prevê um futuro promissor para a empresa brasileira. Embora se encontrem empresários-sem-empresa às dezenas, em São Paulo, o dirigente está certo de que eles vão se lançar em breve a novos empreendimentos o espaço é infinito, desde que o governo crie um ambiente mais favorável ao setor privado no Brasil. Uma pesquisa recente da revista Veja neutraliza a expectativa do presidente da Fiesp. Conforme a publicação, apenas 18% dos empresários que se desfizeram de seu patrimônio pretendem reinvestir o dinheiro no universo dos negócios. Evitando pessimismos fundamentalistas a respeito do país, Lafer Piva reitera que a indústria de São Paulo acolhe de braços abertos os empreendedores privados do mundo inteiro, mas propõe uma certa cautela: Chega de ingenuidade, saibamos negociar e nos proteger. A saída O consultor Renato Ochman, diretor da Ochman Advogados Associados, percebe uma inescapável tendência de concentração nos diferentes setores da economia. Com a avalanche de associações em curso, haverá cada vez menos empresas operando, a exemplo do que já se verifica em áreas como bancos e companhias de seguros. Dedicado a arrumar a casa daquelas organizações que buscam parceiras para selar possíveis fusões, o advogado enxerga uma série de prós na internacionalização o consumidor é beneficiado com a entrada de mercadorias estrangeiras, o padrão tecnológico dos fabricantes locais é aperfeiçoado, o país tem acesso a melhores serviços e reconhece um contra: A desvantagem é que vamos perder o conceito tradicional de empresa brasileira. Agora, empresa brasileira será o que diz a lei aquela que tem sede no Brasil, não importa quem a controla. Num quesito, os analistas convergem: se há saída para as conterrâneas, está em crescer, e crescer muito. Um bom exemplo: a catarinense Weg, que desponta entre as dez mais no ranking mundial de motores elétricos, comprou fábrica na Argentina para consolidar sua liderança na América Latina. Como referências de indústrias genuinamente nacionais que têm potencial para se movimentar na selva da globalização, são apresentados com freqüência os modelos da AmBev, da Embraer, da Vale do Rio Doce e da Gerdau. A AmBev, aliás, despertou reações barulhentas da concorrência ao seguir a fórmula da fusão interna e reunir, em uma mesma corporação, as duas cervejarias que, até então, digladiavam-se pela primeira posição no ranking doméstico Antarctica e Brahma. O que a rival Kaiser denuncia como monopólio, a AmBev entende como uma empreitada para tentar competir, de igual para igual, com players internacionais. O setor de bebidas é um dos raros em que o país tem condições de se tornar líder global, assevera Victório De Marchi, co-presidente da AmBev. O número de empresas nacionais com musculatura para brigar lá fora ainda é bem reduzido, concorda o presidente da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abamec) no Rio de Janeiro, Pedro Espíndola. Privatizadas há poucos anos, Embraer e Vale estariam figurando nesse grupo de elite por ter conseguido se ajustar rapidamente aos ditames da internacionalização, reforçando a presença global. Além de uma bem-sucedida política de alianças, que trouxe mercado e tecnologia, a Vale teve a ousadia de se instalar no exterior, ressalta o seu ex-superintendente comercial Armando Curado. Para o Brasil, a Embraer é a única porta de entrada no setor de alta tecnologia, orgulha-se o vice-presidente de relações externas, Henrique Rzezinski. A Gerdau é outra que tem mostrado desenvoltura invejável além-fronteiras. Maior fabricante latino-americano de aços longos, ela fez nos Estados Unidos o que as múltis têm feito por aqui: por US$ 262 milhões, assumiu o controle de quatro usinas siderúrgicas da AmeriSteel, vice-líder norte-americana em produção de vergalhões. Em uma verdadeira engenharia financeira, a Gerdau apresentou como suporte do negócio os ativos que possui no Canadá e, assim, desatrelou a operação do risco Brasil, que costuma afugentar investidores. O diretor-presidente do grupo, Jorge Gerdau Johannpeter, saúda a internacionalização, mas recomenda: que não se deixe de buscar o devido equilíbrio entre um empresariado nacional forte e a participação de companhias estrangeiras. Para isso, precisamos resolver questões estruturais como o alto custo do dinheiro e a política tributária, que prejudicam enormemente a competitividade, prescreve. Casos isolados Se toda empresa pudesse sonhar em ser uma Gerdau quando crescesse, estaria tudo bem. O chato é ter de admitir que casos como o dela são isolados. No mais das vezes, o que se observa é que as organizações verde-amarelas não conseguem encarar a disputa com gigantes de outras bandeiras. Custam a aceitar parcerias estratégicas em nível nacional, são atropeladas por impostos excessivos, reclamam da falta de incentivo à exportação, fogem dos juros proibitivos em empréstimos que possam financiar investimentos na produção e, quando se afundam em antigas dívidas contraídas em dólar ou diante de divergências com sócios que também são da família, finalmente capitulam e passam o negócio para a frente. A frase é tão longa quanto o tamanho do drama, do qual só escapa quem tem porte, acesso a recursos e abraçou a internacionalização há tempos. É o que se deu com a Embraco, a maior do mundo no segmento de compressores para refrigeração, dona de 23% desse mercado, com sede em Santa Catarina, plantas no Brasil, na Itália, na Eslováquia e na China. Desde os anos 70, a empresa tem como principal acionista o grupo Whirlpool, dos Estados Unidos. Jamais alcançaríamos a participação atual se não decidíssemos nos globalizar de fato, admite o superintendente Ernesto Heinzelmann. O executivo nota a clara desnacionalização da indústria brasileira, mas prefere relativizar as coisas: Comparando com outros países, o processo aqui até que é modesto. E não sei se no futuro vai fazer sentido falarmos nesses termos. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, responde que não, que já não faz sentido o conceito puramente nacionalista de empresa brasileira. Para ele, não são mais os limites geográficos que definem a natureza de um empreendimento. O que importa é a competitividade, que o governo federal estaria burilando por meio de um grande fórum que pretende identificar gargalos em 12 cadeias produtivas, dos têxteis à perfumaria, da eletroeletrônica à construção civil. Ele afirma que, com isso, o Estado cumpre o seu papel, aumenta exportações e reduz importações, o que repercute na geração de empregos e no balanço de pagamentos. Não se deve, porém, confundir a proteção à empresa brasileira com isenções, subsídios ou benesses de qualquer natureza, que premiam setores ineficientes, insiste o ministro. O depoimento do ex-banqueiro Tápias deixa claro que o Planalto considera a evolução das fusões e aquisições de empresas brasileiras um movimento normal para uma economia que se voltou à abertura franca, geral e irrestrita. Afinal, diz ele, o governo não pode nem deve impedir a venda de empresas, e, se isso acontece, é porque há empresários querendo vender e outros querendo comprar. Nem nos Estados Unidos lavam-se as mãos com tanta tranqüilidade. E não é de hoje. Basta lembrar a muralha protecionista erguida pelo presidente Ronald Reagan para defender os fabricantes locais ante a invasão de automóveis japoneses uma década atrás. Pois, agora, além de erguer inegociáveis barreiras alfandegárias a diversos produtos brasileiros, Bill Clinton interfere nitidamente em operações empresariais. No final de junho, por exemplo, o Departamento de Justiça anunciou que iria bloquear a bilionária fusão das operadoras de telefonia MCI WorldCom e Sprint e as duas companhias acabaram desistindo do plano. Clinton abraça Fernando Henrique no social, mas esfola o Brasil na mesa de negociações, justamente onde o país é competitivo, protesta o consultor Antoninho Trevisan. São posturas bizarras como essas que podem estar retirando do dicionário o verbete empresa brasileira. --------------------------------------------------------------- Qual o probrema Especialistas dão a receita para a empresa nacional Antonio Carlos Colangelo Luz, presidente da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abamec) em São Paulo. A empresa nacional precisa de um mercado de capitais forte para obter recursos baratos e abrir seu capital. Com isso, poderá produzir mais e ganhar escala. Também deve buscar fusões internas para concorrer de perto com as estrangeiras. Arleu Aloisio Anhalt, presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri). O governo precisa fazer a sua parte, realizando a reforma tributária e reduzindo os custos portuários, e o empresariado deve assumir uma nova postura gerencial para se manter competitivo. Alfried Plöger, presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca). A primeira luta das empresas é fazer com que os juros caiam através das reformas tributária e da Previdência. O nosso grande problema é mesmo a carência de capital, que foi corroído durante anos pela inflação. Antônio Kandir, deputado federal, ex-ministro do Planejamento. O empreendedor deve investir tanto no mercado interno quanto no externo. Mas, enquanto houver incerteza cambial e fiscal, a taxa de juros se manterá alta para a captação de recursos. Jaime Bombo, consultor da AT Kearney. A saída para as dificuldades estruturais das empresas brasileiras está na criatividade para conseguir financiamentos. É preciso buscar soluções. Não dá para se esconder por causa das dificuldades. --------------------------------------------------------------- Multinacionais verde-amarelas AmBev, Vale e Embraer: bons exemplos de empresas brasileiras com atuação global Dá para contar nos dedos, mas impõem respeito os casos de multinacionais verde-amarelas ou, no mínimo, de empresas brasileiras com pique para uma atuação global de verdade. AmBev, Embraer e Vale do Rio Doce são, as três, nomes de ponta em seus setores. E todas se encontram sob controle nacional. Por meio de fusões internas, parcerias estratégicas ou ambiciosas investidas no exterior, essas três companhias driblaram obstáculos conjunturais e já marcam presença no campeonato mundial da economia. Nada disso é garantia plena contra a desnacionalização, como demonstram recentes associações de tótens industriais intocáveis. Ao menos por enquanto, porém, nenhuma das três parece considerar essa hipótese. A AmBev uniu Antarctica e Brahma para formar a quinta maior fabricante de bebidas e a terceira maior cervejaria do planeta. Com plantas em 18 Estados, no Uruguai, na Argentina e na Venezuela, e vendas domésticas de R$ 4,4 bilhões no ano passado, a companhia planeja utilizar a base industrial brasileira para avançar no mercado continental. Tendo empresas fortes, capazes de competir no exterior, o país ganha com a criação de empregos e a geração de divisas, enquanto os grupos internacionais acabam transferindo parte desses benefícios, remetendo royalties, dividendos e juros de empréstimos, levanta a bandeira o co-presidente da AmBev, Victório De Marchi. Bombardeada pela concorrência, a fusão é vista pela AmBev como uma forma de viabilizar o crescimento de suas marcas pelo mundo afora, com associações e parcerias voltadas a novos projetos. Um acordo com a Pepsi, por exemplo, vai garantir a distribuição e o engarrafamento do guaraná Antarctica em 175 países. Pelos ares Já a Embraer decolou seu vôo multinacional com o combustível dos subsídios bancados pelo Proex, que equaliza as taxas de juros das exportações a patamares do mercado externo. Quarta maior fabricante mundial de aviões, com faturamento de R$ 3,4 bilhões e lucro de R$ 412 milhões em 1999, a companhia enfrenta turbulências na viagem por conta dos protestos da competidora canadense Bombardier a esse pacote de incentivos. A briga dura quatro anos e aterrissou no plenário da Organização Mundial do Comércio (OMC), que deu razão para a Bombardier e multou a empresa brasileira. O vice-presidente de relações externas da Embraer, Henrique Rzezinski, diz que a concorrente tentou fazer um carnaval para desviar a atenção do ponto crucial na disputa pelo mercado o custo operacional das aeronaves. A Bombardier monopolizava o setor de aviões regionais. Para poder competir, desenvolvemos um esquema financeiro e conseguimos avançar 50% num território que era só dela, explica-se Rzezinski. Para Roberto Faldini, diretor da Fiesp, o sucesso da Embraer pode ser creditado a anos de investimento em tecnologia e excelência desde a fase estatal. A privatização trouxe mais eficiência à gestão, aponta. Um dado curioso: apesar de dominar um pedaço significativo das vendas globais, com 124 aviões comercializados no ano passado, a indústria ainda tem pouca expressão no Brasil. A única companhia de aviação doméstica com frota da Embraer é a Rio-Sul, que mantém 14 aeronaves do pequeno Jet Class, com 30 assentos, e vai comprar outras 16 unidades da mesma série até 2003. Sempre acreditamos na Embraer para ligações com cidades intermediárias, afirma o diretor da Rio-Sul, Nilson Guilhem. A ex-estatal pensa alto. Dois jatos, com 70 e 108 lugares, só começam a ser testados em 2001, mas a empresa já contabiliza 325 encomendas de clientes estrangeiros. Em junho, anunciou um investimento de US$ 150 milhões na construção da sua quarta fábrica, neste ano. Para quem julga excessivo o subsídio à Embraer, uma projeção do presidente Maurício Botelho: Até 2005, deveremos trazer ao país cerca de US$ 6,5 bilhões como contribuição ao saldo da balança comercial. Não precisamos O seleto clube de multinacionais brasileiras tem lugar de destaque para a Companhia Vale do Rio Doce. Com faturamento anual por volta de R$ 3 bilhões, a Vale responde sozinha por 20% de todo o minério de ferro negociado no mundo. Um respeitável volume de 420 milhões de toneladas por ano. Apontada como sinônimo de competitividade, a companhia, privatizada em 1997, nem pensa em coisas como parceiros estratégicos. Não precisamos de um sócio, já temos capital, orgulha-se o presidente, o embaixador Jório Dauster. Com lucro líquido de R$ 1,25 bilhão no ano passado, cifra 21,6% superior à de 1998, a Vale exibe uma saúde financeira excepcional, nas palavras de seu presidente. Segundo ele, a companhia se basta com o que gera no seu caixa teria, hoje, R$ 1 bilhão para investir. O executivo cita uma diferença sobre a maioria das empresas brasileiras: A Vale vai à luta atrás dos clientes, não fica esperando por eles. Dona de operações nos setores de infra-estrutura, siderurgia, alumínio, papel, celulose, fertilizantes e energia, além de investimentos em logística, com ferrovias e portos próprios, o executivo defende a internacionalização, mas recomenda atitudes do governo para compensar o que chama de globalização assimétrica: Não podemos abrir o nosso mercado sem igual contrapartida do outro lado. Está matéria pertence a edição número 156 da revista AMANHÃ, de julho de 2000. |
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