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A
velha empresa brasileira está desaparecendo: em seis
anos, perto de 1.100 grupos venderam o controle para
multinacionais. E esse processo, dizem os analistas,
tende a se acelerar.
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A
empresa brasileira, profetizam os números e
fazem eco alguns respeitados especialistas, é
um conceito em vias de extinção. Quase
todas as projeções estatísticas
disponíveis indicam que a participação
de multinacionais na economia do país está
crescendo ano após ano. Tomem-se, por exemplo,
as dez primeiras empresas de cada Estado enfileiradas
no ranking GRANDES (publicado nesta edição).
Uma em cada quatro delas já é controlada
por grupos estrangeiros. Há, no miolo da lista,
casos clássicos como o da Fiat, terceira colocada
em Minas e desde sempre reconhecida como uma subsidiária
da montadora italiana. Mas há um punhado de
bancos, supermercados, operadoras de telefonia, distribuidoras
de energia elétrica e até tradicionais
fabricantes de alimentos que só nos últimos
anos arriaram a bandeira verde-amarela.
Para ilustrar: o Meridional, um veterano banco gaúcho,
foi comprado há pouco pelo espanhol Santander,
e diversos supermercados do Sul do país vêm
sendo engolidos pelos portugueses do Sonae. A
presença de empresas estrangeiras entre as
líderes deve se intensificar, mas haverá
um ponto de equilíbrio, afiança
Carlos Biedermann, diretor da Arthur Andersen, a consultoria
que dá suporte técnico a GRANDES.

*Entre
1995 e 1999, Fonte: BNDES |
Perscrutando
a dianteira desse ranking, é fácil antever
os próximos espaços que as multinacionais
deverão ocupar. Cemig, Copel e Eletrosul, três
estatais de bons resultados, dificilmente terão
chances de sobreviver 100% brasileiras quando bater
o martelo dos seus leilões de privatização.
Na outra ponta, já se noticiaram investidas
quase irrecusáveis sobre o capital de portentosas
indústrias como a catarinense Tigre, líder
no ramo de tubos e conexões para construção
civil, ainda controlada por acionistas nacionais,
e que promete continuar assim. O mesmo raciocínio
vale, em última análise, para toda e
qualquer grande empresa aqui classificada seu
retrospecto azulado a transforma em um alvo virtual
de players estrangeiros dispostos a pôr os pés
e as mãos no maior mercado da América
Latina.
Processo
crescente Pesquisa da consultoria KPMG
comprova que a desnacionalização avança
a passadas largas. De 1994 para cá, o levantamento
registra 1.812 transações envolvendo
companhias sediadas no país. Quase 60% desses
negócios, divididos entre fusões e aquisições,
foram firmados além-fronteiras. Isso representa
nada menos que 1.070 operações costuradas
com parceiros externos 1.070 empresas transferidas
para controladores estrangeiros em apenas seis anos.
Só no primeiro trimestre de 2000, a pesquisa
identifica um total de 65 transações,
46 delas com compradores multinacionais, que se mostram
particularmente atraídos, nesta ordem, pelos
segmentos de tecnologia da informação,
alimentos, bebidas e fumo, energia, telecomunicações
e, ainda, por instituições financeiras.
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Fonte:
KPMG, AEB, Pricewaterhouse-Coopers, Sobeet
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Durante
o período abrangido pelo estudo da KPMG, a
parcela internacional no rol de fusões e aquisições
brasileiras subiu de 51% para 70% . Essa é
uma tendência que deve se manter, analisa
André Castello Branco, diretor da consultoria.
O processo, segundo ele, não se restringe a
empresas de ponta. Pequenos e médios
fornecedores acabam despertando interesse como aquisições
estratégicas, num efeito cascata sobre o setor
produtivo, constata o executivo, para quem a
desnacionalização da economia é
um fenômeno mundial que estaria
se verificando simultaneamente, e de maneira muito
parecida, nos países do primeiro time.
Pode
ser, mas por aqui o fôlego da internacionalização
é maior do que lá, informa o insuspeito
BNDES em estudo divulgado no princípio de julho.
Indústrias com controle nacional detêm
62% do mercado no Brasil (o índice era de 67%
em 1995, quando se abriram os portos à economia
globalizada). Na Alemanha, empresas locais têm
88% das vendas; na Finlândia e nos Estados Unidos
a participação, é de 85%; e,
na Suécia, chega a 80%. Abaixo do Brasil, nesta
tabela, estão Holanda (52%), Malásia
(48%) e Cingapura (26%). O mesmo estudo calcula que
as fábricas de capital brasileiro perderam
7,5% do faturamento para as estrangeiras em cinco
anos.
Analistas
ouvidos por AMANHÃ se repartem em pelo menos
três alas na hora de dar um parecer sobre esse
fenômeno mundial. A primeira corrente
aplaude a abertura, lembra que ela traz dinheiro bom,
segura empregos, reduz preços, motiva a competitividade
e afirma que nesta nova era não há o
menor sentido no velho conceito de empresa brasileira.
O pessoal moderado admira a internacionalização,
mas quer providências rápidas
reforma tributária já, dinheiro barato
e acessível para bancar o crescimento
das companhias nacionais. Essas atuariam em nichos
específicos ou promoveriam fusões internas,
ao estilo AmBev, e daí disputariam consumidores
pelo globo. Uma terceira ala enxerga o apocalipse
no fim do túnel, na provável hipótese
de a internacionalização prosseguir
célere e não haver contrapartidas que
estimulem o empresário a investir no seu negócio
em vez de vendê-lo enquanto é tempo.

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Com: Elaine Guedes (São Paulo) e Ricardo Vigliano
(Rio de Janeiro)
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