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A velha empresa brasileira está desaparecendo: em seis anos, perto de 1.100 grupos venderam o controle para multinacionais. E esse processo, dizem os analistas, tende a se acelerar.

Guilherme Diefenthaeler *

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A empresa brasileira, profetizam os números e fazem eco alguns respeitados especialistas, é um conceito em vias de extinção. Quase todas as projeções estatísticas disponíveis indicam que a participação de multinacionais na economia do país está crescendo ano após ano. Tomem-se, por exemplo, as dez primeiras empresas de cada Estado enfileiradas no ranking GRANDES (publicado nesta edição). Uma em cada quatro delas já é controlada por grupos estrangeiros. Há, no miolo da lista, casos clássicos como o da Fiat, terceira colocada em Minas e desde sempre reconhecida como uma subsidiária da montadora italiana. Mas há um punhado de bancos, supermercados, operadoras de telefonia, distribuidoras de energia elétrica e até tradicionais fabricantes de alimentos que só nos últimos anos arriaram a bandeira verde-amarela.

Para ilustrar: o Meridional, um veterano banco gaúcho, foi comprado há pouco pelo espanhol Santander, e diversos supermercados do Sul do país vêm sendo engolidos pelos portugueses do Sonae. “A presença de empresas estrangeiras entre as líderes deve se intensificar, mas haverá um ponto de equilíbrio”, afiança Carlos Biedermann, diretor da Arthur Andersen, a consultoria que dá suporte técnico a GRANDES.


*Entre 1995 e 1999, Fonte: BNDES

Perscrutando a dianteira desse ranking, é fácil antever os próximos espaços que as multinacionais deverão ocupar. Cemig, Copel e Eletrosul, três estatais de bons resultados, dificilmente terão chances de sobreviver 100% brasileiras quando bater o martelo dos seus leilões de privatização. Na outra ponta, já se noticiaram investidas quase irrecusáveis sobre o capital de portentosas indústrias como a catarinense Tigre, líder no ramo de tubos e conexões para construção civil, ainda controlada por acionistas nacionais, e que promete continuar assim. O mesmo raciocínio vale, em última análise, para toda e qualquer grande empresa aqui classificada – seu retrospecto azulado a transforma em um alvo virtual de players estrangeiros dispostos a pôr os pés e as mãos no maior mercado da América Latina.

Processo crescente – Pesquisa da consultoria KPMG comprova que a desnacionalização avança a passadas largas. De 1994 para cá, o levantamento registra 1.812 transações envolvendo companhias sediadas no país. Quase 60% desses negócios, divididos entre fusões e aquisições, foram firmados além-fronteiras. Isso representa nada menos que 1.070 operações costuradas com parceiros externos – 1.070 empresas transferidas para controladores estrangeiros em apenas seis anos. Só no primeiro trimestre de 2000, a pesquisa identifica um total de 65 transações, 46 delas com compradores multinacionais, que se mostram particularmente atraídos, nesta ordem, pelos segmentos de tecnologia da informação, alimentos, bebidas e fumo, energia, telecomunicações e, ainda, por instituições financeiras.

Fonte: KPMG, AEB, Pricewaterhouse-Coopers, Sobeet

Durante o período abrangido pelo estudo da KPMG, a parcela internacional no rol de fusões e aquisições brasileiras subiu de 51% para 70% . “Essa é uma tendência que deve se manter”, analisa André Castello Branco, diretor da consultoria. O processo, segundo ele, não se restringe a empresas de ponta. “Pequenos e médios fornecedores acabam despertando interesse como aquisições estratégicas, num efeito cascata sobre o setor produtivo”, constata o executivo, para quem a desnacionalização da economia é “um fenômeno mundial” que estaria se verificando simultaneamente, e de maneira muito parecida, nos países do primeiro time.

Pode ser, mas por aqui o fôlego da internacionalização é maior do que lá, informa o insuspeito BNDES em estudo divulgado no princípio de julho. Indústrias com controle nacional detêm 62% do mercado no Brasil (o índice era de 67% em 1995, quando se abriram os portos à economia globalizada). Na Alemanha, empresas locais têm 88% das vendas; na Finlândia e nos Estados Unidos a participação, é de 85%; e, na Suécia, chega a 80%. Abaixo do Brasil, nesta tabela, estão Holanda (52%), Malásia (48%) e Cingapura (26%). O mesmo estudo calcula que as fábricas de capital brasileiro perderam 7,5% do faturamento para as estrangeiras em cinco anos.

Analistas ouvidos por AMANHÃ se repartem em pelo menos três alas na hora de dar um parecer sobre esse “fenômeno mundial”. A primeira corrente aplaude a abertura, lembra que ela traz dinheiro bom, segura empregos, reduz preços, motiva a competitividade e afirma que nesta nova era não há o menor sentido no velho conceito de empresa brasileira. O pessoal moderado admira a internacionalização, mas quer providências rápidas – reforma tributária já, dinheiro barato e acessível – para bancar o crescimento das companhias nacionais. Essas atuariam em nichos específicos ou promoveriam fusões internas, ao estilo AmBev, e daí disputariam consumidores pelo globo. Uma terceira ala enxerga o apocalipse no fim do túnel, na provável hipótese de a internacionalização prosseguir célere e não haver contrapartidas que estimulem o empresário a investir no seu negócio em vez de vendê-lo enquanto é tempo.


Leia também:

- Qual é o problema
- Multinacionais verde-amarelas

 

 

 


* Com: Elaine Guedes (São Paulo) e Ricardo Vigliano (Rio de Janeiro)

 


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