Edição nº155 - Junho, 2000


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Um esforço internacional está impulsionando o desenvolvimento de computadores e programas que esmaguem as barreiras da linguagem e criem um planeta sem fronteiras

Steve Silberman

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Sentada à sua escrivaninha em Manhattan, Guylaine Laperrière fala francês. As frases soam musicais aos ouvidos americanos. Cartões postais de Montreal fixados pelas paredes do escritório relembram o lugar onde os sons que está reproduzindo são ouvidos diariamente nas ruas. Guylaine Laperrière veio a Nova Iorque para estudar teatro de musicais. Um dia, um amigo perguntou se ela queria fazer dinheiro extra dublando em francês um curta promocional sobre seguros. Ela pegou o trabalho e se surpreendeu com o quanto se divertiu trazendo idéias de uma língua para outra.

Ceinture baudrier, repete mansamente. Ceinture diagonale. Cinto de segurança, cinto de segurança. Laperrière é uma das mais de 12 mil tradutoras contratadas pela Berlitz, uma firma centenária especializada em ensino de línguas e a maior do mundo em traduções. Ela edita uma tradução do manual do proprietário do novo Chrysler PT Cruiser para o dialeto falado em Quebec. Como se pode esperar de uma indústria baseada na circulação de palavras, a revolução digital trouxe mudanças por ali. Em breve, Laperrière e seus colaboradores começarão a usar o sistema de memória chamado Trados. Esse sistema procura frases que já foram traduzidas em documentos anteriores. Assim, Laperrière não terá de comparar baudrier com diagonale toda vez que um Chrysler novo for lançado.

Mesmo numa época em que telefonia via satélite e videoconferência internacional são coisas do cotidiano, essa é a forma pela qual muitos dos documentos mundiais migram de uma cultura para outra: por intermédio de tradutores como Laperrière, que trabalham exaustivamente a mão. Isso seria surpresa para qualquer um que levasse em consideração um artigo que apareceu em um jornal inglês de 50 anos atrás, anunciando uma novidade que já teria tirado a Berlitz do mapa: um aparelho eletrônico inventado na Universidade de Londres permitia a estudantes e secretárias compor e traduzir textos em uma dezena de línguas. "Tão rápido quanto um usuário pode digitar palavras, digamos, em francês, o equivalente em húngaro ou russo sairá gravado na fita", registra o News Chronicle.

Seis anos depois, um cientista da Universidade de Michigan que também estava trabalhando com traduções por computador – então chamada máquina de tradução, ou MT – assegurou à Associação de Imprensa que, "dentro de uma geração, a máquina de tradução será fato consumado, assim como a máquina de leitura". Em 1960, outro pesquisador, Emile Delavenay, exultava com o fato de "a máquina de tradução estar na soleira de nossa porta". Esse imbatível otimismo aparece de novo na Business Week de 1998, em que se previa que, até o final do ano passado, a AT&T e o Advanced Telecommunication Research Institute do Japão já teriam o protótipo do sistema de telefone que traduziria automaticamente chamadas do "japonês para o inglês e vice-versa".

O sonho da tradução perfeita, automática e em tempo real feita por computador tem sido a obsessão de mentes brilhantes da pesquisa computacional, da lingüística e de inteligência artificial. Essa expectativa orienta heróicos esforços de pesquisa e desenvolvimento em frentes acadêmicas e comerciais, da IBM ao Instituto Tecnológico de Massachussets (MIT), queimando bilhões de dólares na busca do que pode vir a ser a suprema concretização de uma sociedade global sem fronteiras. Mas isso ainda está longe de acontecer.

Por um breve momento, imaginava-se que a internet seria uma marreta tecnológica perfeita para forçar americanismos goela abaixo de todos. O fato de o léxico da MTV ter sido a língua-mãe da primeira geração de webzines e salas de chat parecia assegurar o domínio do inglês como a língua franca global do século 21. Agora, todos trazem seus próprios dialetos para o festim on-line. A Slangsoft, recém-criada empresa israelense, está usando a linguagem Java para criar teclados que aceitem a digitação em 42 línguas, incluindo aquelas que não usam o alfabeto romano, como chinês, coreano, hindi, hebraico e sânscrito. As últimas versões do Netscape e do Internet Explorer tornaram mais fácil a elaboração de páginas para a internet, já que os textos podem correr da direita para a esquerda, o que é uma ótima notícia se você está criando páginas em hebraico ou árabe.

Já parece antiquado receber um e-mail do escritório de Tóquio com a tela cheia de símbolos indecifráveis. Razoável que se espere por uma opção "salvar como em espanhol" quando se está trabalhando no editor de texto. A facilidade com que as palavras escorrem por entre redes e aplicativos traz a promessa de que a alta tecnologia eliminará o vírus que "confundiu" (conforme a tradução do Rei James para a Bíblia) todas as línguas da Terra. Enquanto isso, remamos contra essa enxurrada de textos incompreensíveis somente com a fé de que, no futuro próximo, a rede considerará diferenças lingüísticas um problema facilmente contornável.




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