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Sentada
à sua escrivaninha em Manhattan, Guylaine Laperrière
fala francês. As frases soam musicais aos ouvidos
americanos. Cartões postais de Montreal fixados pelas
paredes do escritório relembram o lugar onde os sons
que está reproduzindo são ouvidos diariamente nas
ruas. Guylaine Laperrière veio a Nova Iorque para
estudar teatro de musicais. Um dia, um amigo perguntou
se ela queria fazer dinheiro extra dublando em francês
um curta promocional sobre seguros. Ela pegou o trabalho
e se surpreendeu com o quanto se divertiu trazendo
idéias de uma língua para outra.
Ceinture
baudrier, repete
mansamente. Ceinture diagonale. Cinto de segurança,
cinto de segurança. Laperrière é uma das mais de 12
mil tradutoras contratadas pela Berlitz, uma firma
centenária especializada em ensino de línguas e a
maior do mundo em traduções. Ela edita uma tradução
do manual do proprietário do novo Chrysler PT Cruiser
para o dialeto falado em Quebec. Como se pode esperar
de uma indústria baseada na circulação de palavras,
a revolução digital trouxe mudanças por ali. Em breve,
Laperrière e seus colaboradores começarão a usar o
sistema de memória chamado Trados. Esse sistema procura
frases que já foram traduzidas em documentos anteriores.
Assim, Laperrière não terá de comparar baudrier
com diagonale toda vez que um Chrysler
novo for lançado.
Mesmo
numa época em que telefonia via satélite e videoconferência
internacional são coisas do cotidiano, essa é a forma
pela qual muitos dos documentos mundiais migram de
uma cultura para outra: por intermédio de tradutores
como Laperrière, que trabalham exaustivamente a mão.
Isso seria surpresa para qualquer um que levasse em
consideração um artigo que apareceu em um jornal inglês
de 50 anos atrás, anunciando uma novidade que já teria
tirado a Berlitz do mapa: um aparelho eletrônico inventado
na Universidade de Londres permitia a estudantes e
secretárias compor e traduzir textos em uma dezena
de línguas. "Tão rápido quanto um usuário pode
digitar palavras, digamos, em francês, o equivalente
em húngaro ou russo sairá gravado na fita", registra
o News Chronicle.
Seis
anos depois, um cientista da Universidade de Michigan
que também estava trabalhando com traduções por computador
então chamada máquina de tradução, ou MT
assegurou à Associação de Imprensa que, "dentro
de uma geração, a máquina de tradução será fato consumado,
assim como a máquina de leitura". Em 1960, outro
pesquisador, Emile Delavenay, exultava com o fato
de "a máquina de tradução estar na soleira de
nossa porta". Esse imbatível otimismo aparece
de novo na Business Week de 1998, em que se
previa que, até o final do ano passado, a AT&T
e o Advanced Telecommunication Research Institute
do Japão já teriam o protótipo do sistema de telefone
que traduziria automaticamente chamadas do "japonês
para o inglês e vice-versa".
O
sonho da tradução perfeita, automática e em tempo
real feita por computador tem sido a obsessão de mentes
brilhantes da pesquisa computacional, da lingüística
e de inteligência artificial. Essa expectativa orienta
heróicos esforços de pesquisa e desenvolvimento em
frentes acadêmicas e comerciais, da IBM ao Instituto
Tecnológico de Massachussets (MIT), queimando bilhões
de dólares na busca do que pode vir a ser a suprema
concretização de uma sociedade global sem fronteiras.
Mas isso ainda está longe de acontecer.
Por
um breve momento, imaginava-se que a internet seria
uma marreta tecnológica perfeita para forçar americanismos
goela abaixo de todos. O fato de o léxico da MTV ter
sido a língua-mãe da primeira geração de webzines
e salas de chat parecia assegurar o domínio
do inglês como a língua franca global do século 21.
Agora, todos trazem seus próprios dialetos para o
festim on-line. A Slangsoft, recém-criada empresa
israelense, está usando a linguagem Java para criar
teclados que aceitem a digitação em 42 línguas, incluindo
aquelas que não usam o alfabeto romano, como chinês,
coreano, hindi, hebraico e sânscrito. As últimas versões
do Netscape e do Internet Explorer tornaram mais fácil
a elaboração de páginas para a internet, já que os
textos podem correr da direita para a esquerda, o
que é uma ótima notícia se você está criando páginas
em hebraico ou árabe.
Já
parece antiquado receber um e-mail do escritório
de Tóquio com a tela cheia de símbolos indecifráveis.
Razoável que se espere por uma opção "salvar
como em espanhol" quando se está trabalhando
no editor de texto. A facilidade com que as palavras
escorrem por entre redes e aplicativos traz a promessa
de que a alta tecnologia eliminará o vírus que "confundiu"
(conforme a tradução do Rei James para a Bíblia) todas
as línguas da Terra. Enquanto isso, remamos contra
essa enxurrada de textos incompreensíveis somente
com a fé de que, no futuro próximo, a rede considerará
diferenças lingüísticas um problema facilmente contornável.

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