Edição nº155 - Junho, 2000


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A tecnologia imprime velocidade aos negócios e forja carreiras que já não cabem no estereótipo tradicional das profissões.

Fernanda Zanuzzi *

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Não é assim, com esse tom quase paranóico, que começam todas as palestras, livros e reportagens que analisam o futuro das profissões? Relaxe, há sempre algum exagero nesses relatos dramáticos sobre o futuro. O problema é que não está se falando, propriamente, de futuro.

O furacão desencadeado pela chamada Nova Economia já é uma realidade. Que não poupa nem mesmo as atividades que estão surgindo com ela: estima-se que pelo menos 80% dos empreendimentos de e-business, e-commerce e e-transformation (essa é nova para você?) não vão resistir sequer cinco anos. "O cenário e o papel dos atores no mundo do trabalho já está mudando", avisa o chileno Daniel Navas Vega, especialista do Centro de Formação que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) mantém em Turim, na Itália. As palavras de Vega chegam a ser brandas. Vários dos especialistas ouvidos por AMANHÃ projetam que, no campo das relações de trabalho, o mundo deve presenciar nos próximos quatro anos transformações comparáveis às das últimas três décadas.

Para começar a entender que horizonte é esse, é preciso olhar com atenção para algumas velhas referências. O diploma, por exemplo. Seus pais, seus avôs – você mesmo –, todos encararam o canudo como o passaporte para o exercício de uma profissão. Ben Verwaayen, o prestigiado vice-chairman da Lucent, também embarcou nessa quando ingressou na faculdade. Mas é o primeiro a dizer que não dá mais para pensar assim. "Hoje, já não se trabalha mais com profissões, mas com atividades", sustenta Verwaayen, acrescentando, para ser mais claro: "Eu sou um exemplo disso. Sou cientista político de formação e ocupo o cargo de vice-chairman numa das maiores empresas de tecnologia do mundo". Quem quiser entender esse enlace, digamos, heterodoxo entre o cientista político e o ambiente da alta tecnologia, terá de assimilar alguns conceitos. O primeiro deles: conhecimento não é tudo. "É preciso unir várias capacidades, ter intuição, saber tomar decisões rápidas", aconselha Verwaayen. Sem isso, fica difícil encontrar um bom lugar no mercado de trabalho. Ou, pelo menos, conseguir uma vaga em empresas como a Lucent.

‘‘A técnica ainda é importante, claro’’, esclarece a socióloga Rosinha Carrion, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. ‘‘Mas é encarada pelas empresas como algo mais adquirível.’’ E o que realmente faz a diferença? Vivências no exterior, sociabilidade, curiosidade, além do domínio de várias línguas – uma lista longa e que mais parece descrever um super-herói. ‘‘Há uma ruptura no tipo de trabalho e nas expectativas’’, situa a socióloga. ‘‘Hoje, quando se contrata alguém, não é para assumir um cargo, mas para solucionar desafios. E isso está alterando profundamente o perfil dos profissionais em geral.’’

É claro que os cursos superiores estão no epicentro desse debate. Antes, o conhecimento que se adquiria em uma faculdade era combustível suficiente para os próximos 20 anos de trabalho. Hoje, o curso de graduação tem de ser visto como apenas um iniciador da caminhada, compara o professor de pós-graduação em Administração da ESPM e da Fundação Dom Cabral, Eduardo Rienzo Najjar. "Assim que terminar a graduação, o profissional já deve ter em mente qual o próximo curso a ser feito, sob pena de se desatualizar" alerta.

Não é por outra razão que pipocam pelo país os cursos de MBA (Master in Business Administration). Sua característica é a agilidade. Eles podem ser criados e modificados com mais rapidez que os cursos universitários, conseguindo, assim, acompanhar as mudanças do mercado de trabalho. O curso de e-business da Fundação Getúlio Vargas surgiu assim. As inscrições se iniciaram em março, e já se formaram 11 turmas, que reúnem cerca de 400 alunos. "Eu não diria que a faculdade forma mal. O que acontece é que as transformações na área dos negócios são muito rápidas, e fica difícil acompanhá-las", contemporiza Ricardo Spinelli, diretor da FGV Management. "O que está acontecendo é que hoje é preciso voltar a estudar a cada dois ou três anos para estar em sintonia com o mercado. E os cursos de latu sensu, no caso os MBA, têm mais flexibilidade que as universidades."


Leia também:

- O duro caminho da flexibilidade
- Profissões.com
- Um tempo para criar/Domenico de Masi

 

 

 


* Colaboraram: Consuelo Bassanesi, Martha Batalha, Denise Camargo e Sheila Meyer



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