Edição nº154 - Maio, 2000


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As três mais poderosas tecnologias do Século 21 - Robótica, Engenharia Genética, Nanotecnologia - estão ameaçando fazer dos humanos uma espécie em extinção

Bill Joy *

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Quando me envolvi na pesquisa de novas tecnologias, a dimensão ética desse processo passou a me preocupar. Mas foi somente a partir do outono de 1998 que me tornei consciente do tamanho dos perigos que estão à nossa frente no século 21. Nessa época, em uma conferência, encontrei Ray Kurzweil, inventor da primeira máquina de leitura para cegos e de outras tantas maravilhas. Estava sentado conversando com John Searle, um filósofo que fazia estudos sobre a consciência, quando Ray se aproximou e iniciamos um assunto que me assombra até hoje. Ray dizia que os avanços da tecnologia estavam indo em um ritmo muito acelerado e que ou nós nos tornaríamos robôs, ou acabaríamos nos mesclando a robôs, ou qualquer outra coisa nesse sentido. Contrapondo, John argumentava que isso não poderia acontecer porque robôs não têm consciência.

Pensava que robôs capazes de ter sentimentos fossem ficção científica, mas, agora, vindos de alguém que eu respeitava, ouvia fortes argumentos de que eles faziam parte de um futuro próximo. Tive de reformular minha posição, especialmente por causa da habilidade de Ray em imaginar e criar o futuro. Eu já sabia que estávamos ganhando o poder de refazer o mundo por meio de novas tecnologias, como engenharia genética e nanotecnologia – a tecnologia de nível molecular que trabalha com elementos atômicos, reordenando-os para formar montagens de tamanho inferior ao mícron, como os “nanorrobôs”, capazes de penetrar o corpo humano e combater agentes infecciosos ou reparar artérias entupidas. Mas uma perspectiva realista e iminente de robôs inteligentes me surpreendeu.

É fácil ficar entediado com tais progressos. O noticiário cita quase todos os dias algum tipo de avanço científico ou tecnológico, mas aquilo de que falávamos não era propriamente habitual. Ray me deu uma prévia do que seria o livro que estaria lançando em breve, A Era das Máquinas Espirituais (The Age of Spiritual Machines), ao delinear a utopia que estava prevendo: humanos conseguiriam ser praticamente imortais ao se unir à tecnologia robótica. Após lê-lo, meu desconforto só aumentou; passei a ter certeza de que ele devia estar minimizando os perigos, a possibilidade de termos péssimos resultados ao longo desse caminho.

O que mais me inquietou foi uma passagem que detalhava um cenário apocalíptico:

“O novo desafio reacionário
Primeiro, vamos aceitar o postulado de que os cientistas tenham sucesso no desenvolvimento de máquinas inteligentes que possam fazer tudo melhor que os seres humanos. Nesse caso, presumidamente, todo o trabalho será feito por um vasto e altamente organizado sistema de máquinas, e nenhum esforço humano será necessário. Um dos dois casos poderá ocorrer: as máquinas passarão a tomar todas as suas decisões sem supervisão humana ou, ainda, o controle humano sobre as máquinas será mantido.

Se se permitir às máquinas tomar suas próprias decisões, não podemos fazer nenhuma conjectura sobre quais seriam os resultados, uma vez que é impossível adivinhar como tais máquinas poderão se comportar. Nós apenas apontamos para o fato de que o destino da raça humana estaria à mercê das máquinas. Poderá ser argumentado que a raça humana nunca seria tola o suficiente para entregar todo o poder na mão das máquinas. Não estamos sugerindo nem que a raça humana daria voluntariamente o poder às máquinas, nem que as máquinas tomariam o poder deliberadamente. O que sugerimos é que a raça humana poderia facilmente se permitir ficar em uma posição tal de dependência das máquinas que não haveria nenhuma escolha prática além daquela de aceitar todas as decisões que elas tomassem. Como a sociedade e os problemas que ela enfrenta se tornam mais e mais complexos, e as máquinas se tornam mais e mais inteligentes, as pessoas deixarão as máquinas tomar mais decisões em seu lugar simplesmente porque as decisões tomadas por máquinas trarão melhores resultados que as tomadas por seres humanos.

Ao final, chegaremos a um estágio em que as decisões necessárias para manter o sistema funcionando serão tão complexas que os seres humanos serão incapazes de tomá-las inteligentemente. Nesse estágio, as máquinas terão o controle efetivo, e as pessoas não serão mais capazes de simplesmente desligá-las. Estarão tão dependentes delas que desligá-las teria a dimensão de um suicídio.

Por outro lado, é possível que o controle humano sobre as máquinas seja mantido. Nesse caso, o homem comum terá controle sobre certas máquinas próprias, como seu carro ou seu computador, mas o controle sobre grandes sistemas de máquinas estará nas mãos de uma pequena elite – exatamente como é hoje, mas com duas diferenças. Devido ao desenvolvimento tecnológico, essa elite terá grande controle sobre as massas, e, porque o trabalho humano não se fará mais necessário, as massas serão supérfluas, um fardo inútil para o sistema. Se a elite for cruel, ela poderá simplesmente decidir exterminar essa massa. Se eles forem humanos, podem usar propaganda ou outra técnica psicológica ou biológica para reduzir a taxa de natalidade até que a massa se torne extinta, deixando o mundo para a elite. Ou, se a elite se constituir de liberais compadecidos, eles podem decidir fazer o papel de bons pastores do resto da raça humana. Eles garantirão que as necessidades de todos sejam satisfeitas, que todas as crianças sejam criadas em condições de higiene psicológica, que todos tenham um passatempo saudável para se ocupar e que qualquer um que se torne insatisfeito receba o “tratamento” adequado para sarar de seu “problema”. Obviamente, a vida ficará tão sem propósito que essas pessoas deverão passar por uma reeengenharia genética e psicológica, tanto para remover sua necessidade de poder quanto para fazê-las sublimar sua tendência ao poder com algum passatempo inofensivo. Esses seres humanos reformulados podem ser felizes nesse tipo de sociedade, mas eles certamente não serão livres. Estarão reduzidos à condição de animais domésticos.”



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