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As gôndolas dos supermercados
escondem uma disputa de poder entre fabricantes e
vendedores. A briga está longe de terminar, mas as
cartas da negociação já estão marcadas
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Afinal, quem está dando as cartas:
indústria ou varejo? Confrontados com essa pergunta,
alguns varejistas e principalmente industriais ouvidos
por AMANHÃ preferiram calar – mas seu silêncio foi
tão esclarecedor quanto as análises dos demais entrevistados,
que confirmam: o comércio virou o jogo.
Há dez anos, falar no poder de
fogo do varejo não fazia o menor sentido. A força
estava no fabricante. O comerciante que quisesse ter
na sua prateleira uma determinada marca tinha que
aceitar a política de venda do fornecedor. Condições
de pagamento e como, onde e quando a mercadoria seria
entregue, geralmente, eram detalhes mais aceitos do
que negociados pelos varejistas.
Nos idos de 2000, a história é bem
diferente. Especialmente na relação entre os representantes
da indústria de alimentos e o varejo. Nos últimos
três anos, a participação das cinco principais redes
de supermercados – Carrefour, Pão de Açúcar, Bom Preço,
Sendas e Sonae – saltou de 27,5% para 42%, num setor
em que atuam 22 mil empresas, a maioria com uma única
loja. E há indícios de que essa concentração – que
reflete uma tendência mundial de redução do número
de players do varejo – só tende a crescer. Em 1999,
ocorreram 12 fusões de supermercados no país, sendo
sete entre empresas brasileiras e cinco com participação
de empresas estrangeiras, segundo a consultoria KPMG.
Para uma indústria, ficar de fora
das gôndolas de uma dessas gigantes pode significar
ausência em mais de 10% do mercado nacional. “São
esses cinco grupos que ditam as regras no varejo de
alimentos, no Brasil, papel que antigamente era da
indústria”, define o consultor Antonio Carlos Ascar,
da Ascar & Associados.
Outra face do poder do varejo ficou
evidente no ano passado, quando o setor se recusou
a fazer o repasse das altas de preços promovidas pela
indústria após a desvalorização do real, em janeiro.
Com isso, o comércio, que em planos econômicos anteriores
fez papel de vilão, conquistou o consumidor se apresentando
como seu aliado.
O economista Luiz Eduardo Sebastiani,
do Conselho Regional de Economia do Paraná, frisa
que há uma tendência natural de o comércio se fortalecer
em períodos de retração de consumo, especialmente
em um quadro de franca concorrência entre fornecedores.
“A baixa demanda por parte do consumidor final, no
ano passado, associada à concentração das empresas,
deixou mais evidente o poder do comércio de aceitar
ou não o produto para revenda”, diz o economista.
Inversão – Um estudo intitulado
Reestruturação do Comércio Varejista e de Supermercados,
realizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES), (Clique aqui
para fazer download do arquivo com este estudo)
aponta a transferência de poder da indústria para
o varejo como uma tendência mundial, motivada pela
disponibilidade das informações sobre o comportamento
dos diferentes consumidores – mais acessível a quem
vende direto para quem consome. Também pesa, é claro,
a concentração do setor varejista.
“Há um novo padrão de relacionamento
em que o comércio usa, de forma estratégica, informações
sobre os hábitos e costumes dos consumidores para
coordenar várias cadeias produtivas”, analisa o economista
Frederico Ribeiro, da Federação das Indústrias do
Estado de Minas Gerais (Fiemg), autor do estudo A
Concentração do Varejo - Impactos na Indústria de
Alimentos (leia Concentração
põe competitividade em xeque).
Ribeiro escreve em seu estudo que,
se em determinado Estado o mercado varejista for dominado
por uma ou poucas empresas e não houver concorrência,
a indústria de alimentos fica subordinada. Renan Proença,
presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande
do Sul (Fiergs), reconhece que os fornecedores estão
sendo pressionados.
Por isso, a Fiergs criou uma associação
de fornecedores da área de alimentação para supermercados.
A idéia é fiscalizar a interface entre varejo e indústria.
“Se o varejo se colocou em uma posição de força ao
estabelecer regras, nós agora estamos neutralizando
esse tipo de pressão. Afinal de contas, o negócio
tem de ser bom para as duas partes, ou então deixa
de ser negócio”, pondera Renan.

"A
guerra de preços entre as grandes redes
é ilusória, pois a margem de lucro
delas é enorme."
Celso Gusso, industrial |
Os novos papéis são revelados nas
práticas comerciais do dia-a-dia, com a transferência
de encargos para a indústria. As margens de lucratividade
de quem produz tendem a se reduzir, por causa de imposições
quanto a condições de entrega, armazenamento, colocação
nas gôndolas e obrigatoriedade de participação em
campanhas publicitárias.
Existe até uma prática conhecida
como enxoval, em que a grande rede, quando vai inaugurar
uma loja, exige dos fornecedores que o primeiro lote
de produtos que vai preencher as gôndolas seja gratuito.
O enxoval é um entre ínumeros “favores” que a indústria
pode ser obrigada a conceder. O valor de cada um deles
varia entre 5% e 25% dos volumes negociados, de acordo
com o presidente da Associação de Fornecedores de
Supermercados do Paraná, Celso Gusso.
Para concretizar uma venda, o fornecedor
talvez tenha de deixar um cheque que vai ajudar a
pagar a reforma da seção de frutas e verduras, ou
então viabilizar a decoração da loja durante o mês
de aniversário. “A guerra de preços entre as grandes
redes é ilusória, pois a margem de lucro delas é enorme”,
denuncia Gusso, que dirige a Arauplast, fornecedora
de sacolas plásticas a supermercados.
A associação, que reúne 60 indústrias,
surgiu há um ano, logo após a chegada do grupo português
Sonae ao Paraná, que comprou as redes locais Mercadorama,
Muffatão e Coletão. “Tivemos de nos adaptar cultural
e economicamente às novas exigências que a multinacional
trouxe, mas o Sonae também compreendeu o nosso lado,
e chegamos a um entendimento”, comenta Gusso.
Como se não bastasse o cacife que
o varejo conquistou, há uma estratégia dos comerciantes
que, se ainda não ameaça, pelo menos preocupa as grifes
tradicionais: as marcas próprias – produtos que levam
a assinatura do varejista ou que têm uma marca comercializada
apenas por ele. É uma estratégia diretamente ligada
ao poder das redes. Tanto que, em países onde há mais
concentração de mercado, a participação das marcas
próprias tende a ser maior.
As marcas próprias fazem parte da
cultura das grandes redes européias e começaram a
despertar maior interesse no Brasil, a partir da segunda
metade dos anos 90, principalmente com a ênfase dada
pelas multinacionais recém-chegadas ao varejo brasileiro.
Dados do último relatório do instituto de pesquisas
AC Nielsen apontam uma participação de 5% dessas marcas
no mercado. Parece pouco, mas é só o começo.
Para este ano, os varejistas estão
apostando na explosão do negócio. Somente o Carrefour,
que trabalha com o conceito de marca própria no país,
há dez anos, pretende ter mais de 600 itens assinados
pela rede até o final do ano. Hoje são 180, resultado
de um crescimento de 134% no ano passado.
O Pão de Açúcar, pioneiro na assinatura
de itens de gôndola, conta hoje com 230 produtos nas
áreas de mercearia, têxtil, perecíveis, bazar, higiene
e limpeza. Cada família de produtos tem um nome fantasia,
mas todos são identificados pelo selo Qualitá e custam
de 10% a 20% menos que os líderes. A rede acaba de
lançar uma segunda marca de apelo mais popular, a
Barateiro. A empresa promete qualidade com preços
até 60% mais baixos que os dos fornecedores.

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Colaborou: Consuelo Bassanesi
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