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Inovar,
investir, exportar e regionalizar
Por Rodrigo da Rocha Loures*
Lançada em meados de maio com a devida circunstância,
a Política de Desenvolvimento Produtivo - ou nova política
industrial brasileira - é uma proposta consistente. Apresenta
um elenco de incentivos bem construído para fomentar investimentos
e gerar crescimento econômico. Há uma estratégia
clara. O trinômio que a norteia é inovar, investir e exportar.
Para nós, empresários, a decisão do governo
de colocar a inovação como imperativo de competitividade
do País é muito bem vinda. Nosso maior desafio é
em relação à produtividade e a nova política
industrial oferece diversos instrumentos de apoio à modernização
das empresas.
Dar ênfase ao aumento da produtividade talvez seja a única
forma saudável de competir com os produtos importados. Aumentar
a produtividade é investir em pesquisa e desenvolvimento, em
novas tecnologias e novos equipamentos. Em síntese, inovar.
O momento é propício para expandir a produção.
Temos que aproveitar a oportunidade de crescimento da demanda doméstica
para dar um salto na taxa de investimento. Em quase todos os setores
há necessidade de ampliar a oferta. Isso gera renda e emprego
e afasta a pressão sobre preços decorrente do aquecimento
do consumo.
O incentivo ao investimento veio tanto por meio da ampliação
do crédito como pela adoção de critérios
de depreciação acelerada mais favoráveis às
novas inversões. Duas inovações devem ser ressaltadas:
as medidas que estão sendo detalhadas na área do uso do
poder de compra do Estado, em particular no segmento do complexo de
saúde (fármacos, equipamentos etc.); e o ensaio que foi
feito para o setor de software, com desoneração parcial
dos encargos trabalhistas nas atividades de exportação.
Os incentivos estão focalizados em 24 setores, mas outros
segmentos produtivos podem ser favorecidos por linhas de crédito
bastante vantajosas. Através de uma nova área de renda
variável o BNDES vai fortalecer a atuação no apoio
a empresas inovadoras. Cabe destacar ainda a redução de
spread de financiamento do banco e a ampliação de prazos
do Finame. Também houve o aumento dos recursos destinados ao
Funtec, que podem ser aplicados sem retorno em projetos estratégicos
para o desenvolvimento tecnológico.
É relevante ressaltar que a nova política industrial
volta a atenção do Brasil para os mercados externos. Definiram-se
novos níveis para as exportações e mecanismos para
alcançá-los, inclusive com incentivo para que pequenas
e médias empresas participem mais ativamente do nosso comércio
internacional.
Desafios
A globalização impõe uma acirrada concorrência
não só entre empresas, mas também entre nações.
Somente aquelas que tiverem uma adequada estratégia de internacionalização
e programas ousados de ocupação de novos mercados vão
chegar aos primeiros lugares desta corrida. Para o sucesso da empreitada
rumo ao mercado externo há, contudo, desafios a serem vencidos.
Neste momento, o principal deles é o câmbio. Optamos
por combater a inflação via política monetária
e valorização do câmbio. O custo dessa opção
é a redução da competitividade do nosso setor exportador,
em especial dos produtos manufaturados. Por isso, a nova política
industrial é fundamental para enfrentarmos o ritmo da competição
global e também para minorar os problemas da perversa associação
de moeda sobrevalorizada e juros reais estratosféricos.
Temos hoje uma economia estabilizada, mas a decisão de segurar
a inflação pela rédea do câmbio pode mostrar-se
desastrosa no médio prazo. Corremos o risco de reverter um dos
pilares que nos permitiram alcançar o grau de investimento: a
relativa folga do setor externo. Certamente que não será
fácil encontrar um mix de política macroeconômica
capaz de substituir essa opção, uma vez que o mundo vive
uma situação incerta e há pressão de custo
por todo o lado.
A Política de Desenvolvimento Produtivo pode nos ajudar a dar
um salto na produtividade, que nos permita conviver com taxas de câmbio
mais apreciadas. Quem sabe esse seja o papel maior da nova política
industrial. Associar ampliação da capacidade, inovação
e aumento de produtividade.
Outro aspecto da nova política industrial gera boas expectativas.
É o fato de ela incorporar políticas industriais regionais
ou estaduais complementares ao arranjo nacional. Isso é importante
para um país de dimensões continentais como o Brasil.
Não será possível avançar na agenda de desenvolvimento
sem o efetivo engajamento das regiões e dos estados da federação.
Há especializações regionais significativas na
estrutura industrial e diferenciais importantes de competitividade.
Combinar uma ativa política industrial nacional com políticas
regionais de competitividade vai, com toda a certeza, dar maior concretude
às ações de promoção da indústria.
A ação federal é vital na concessão de crédito,
pelo papel que o BNDES assume no financiamento de longo prazo. É
fundamental em muitos marcos regulatórios setoriais e na política
macroeconômica. Mas em inúmeras dimensões sistêmicas,
a promoção da competitividade depende essencialmente de
ações locais, como na formação de mão-de-obra
técnica, de engenheiros e pesquisadores; no adequado ambiente
de negócios e redução da burocracia; e na dotação
de infra-estrutura.
Mesmo os sistemas de inovação e de apoio à qualidade
só têm sentido se examinados à luz das especificidades
de cada região, de sua estrutura industrial e das instituições
de pesquisa e de serviços tecnológicos existentes. As
políticas de promoção dos Arranjos Produtivos Locais
deixam clara a relevância da ação local. E exemplificam
que as políticas têm sucesso onde há protagonismo
empresarial.
No âmbito federal, a Confederação Nacional da
Indústria deu contribuições relevantes para a formulação
da nova política industrial brasileira. Essa mesma interação
deve acontecer nos estados. Por isso, nós empresários
devemos valorizar e participar ativamente da vida dos nossos entes de
representação empresarial.
Mas tudo isso não basta se não houver monitoramento
dos resultados. Por isso, é muito bom que o governo tenha explicitado
metas para a política. Assim pode-se corrigir rumos. A ausência
de objetivos e de um modelo de gestão e acompanhamento da política
industrial do primeiro governo Lula se refletiu no seu desempenho. Era
uma política generosa no discurso, mas com poucos resultados
práticos.
A coordenação das ações de governo será
sempre o maior desafio. Por isso, é essencial que na implantação
da nova política haja sintonia entre os agentes públicos
que possibilite, inclusive, reforçar programas como o PAC e a
política de inovação. Será necessária,
portanto, uma dose extra de esforço de articulação
porque a todos interessa um arranjo institucional transparente que incentive
o protagonismo privado e de todas as instâncias de governo.
A nova política é ambiciosa. Isso é bom. Não
é possível estruturar uma política que necessita
mobilizar todo o setor privado com uma proposta tímida. Se há
excesso de otimismo, só saberemos depois que ficar claro quais
as conseqüências da crise americana. Por ora não há
porque não ser ambicioso. Até porque se o cenário
internacional se mostrar mais severo vamos precisar de um intenso ativismo
governamental para dar conta da promoção do desenvolvimento.
* Presidente da Federação das Indústrias
do Estado do Paraná (Fiep), vice-presidente da Confederação
Nacional da Indústria (CNI) e presidente do Conselho Temático
Permanente de Política Industrial e Desenvolvimento Tecnológico
da CNI
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